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Megafone

Adoramos reality shows!

Aquilo a que assistimos no domingo com a estreia de Quem Quer Casar com o Meu Filho? e Quem Quer Namorar com o Agricultor?, os dois novos reality shows da TVI e da SIC, demonstra um profundo retrocesso civilizacional e um insulto à sociedade portuguesa.

O título até poderia ser a próxima canção do nosso rapaz do futuro, Conan Osiris, mas nesta partitura as rainhas são a TVI e a SIC, duas das nossas maiores cadeias televisivas.

Acredito que a missão da televisão passa por informar e entreter o público com a mesma exigência com que se espera educar um filho numa sociedade moderna e evoluída. Aquilo a que assistimos no domingo com a estreia dos dois novos reality shows de ambas as cadeias televisivas demonstra um profundo retrocesso civilizacional e um insulto à sociedade portuguesa. A mesma sociedade que na semana passada saiu à rua gritando e manifestando-se pela igualdade entre homens e mulheres, a mesma sociedade que se congratula por ter expulsado a mulher do seu armário, neste caso a cozinha, para ocupar o mesmo lugar que outro qualquer ser humano nas ruas e no mundo laboral.

Com isto, pergunto-me e pergunto a ambas as cadeias televisivas: faz algum sentido fazer desfilar uma montra de mulheres na tela como se fossem gado pronto a ser consumido? Qual o sentido de exportar a sogra do século passado para o grande ecrã e de nos vender o cenário, felizmente enterrado pela sociedade portuguesa, dos casamentos combinados/arranjados? Em pleno século XXI, por que nos insultam vendendo a imagem de que mulher responsável, desejável e séria para namorar ou casar é aquela que cozinha, não fuma, não bebe, é submissa ao marido e até, quem sabe, é virgem?

Este mesmo machismo foi protagonizado nos mass media durante demasiado tempo e é, acreditem, a ponta do icebergue da dark web dos muitos cenários de violência que hoje denunciamos e combatemos. Choca-me o vale tudo pelas audiências a que temos assistido. Será que repararam no foco ridículo que foi dado a duas das participantes, uma vez que uma pousou para a Playboy e outra já protagonizou filmes pornográficos? Como se ambas as situações de vida daquelas cidadãs fossem o escândalo no topo do bolo que apimenta todo o reality show e que nos vai deixar em transe.

Por fim, pergunto-me se todas aquelas pessoas estão a protagonizar um programa de humor. É que, pelo meio, pude observar que muitas daquelas mães foram as crianças e adolescentes do nosso 25 de Abril, ou seja, são filhas da revolução, são as mulheres do nosso tempo. E que formato televisivo é aquele do agricultor? Estarão as pessoas desta profissão mais sozinhas do que todas as outras ou, quem sabe, o ponto quente para a SIC seja deslumbrar-nos com a imagem do macho alfa de camisa aos quadrados sentado num fardo de palha?

Sobre a temática de ambos os reality shows, não critico a procura do amor — o amor e o sexo vão sempre vender e ainda bem, é sinal que somos todos humanos de carne e osso. Creio até que seria hipócrita fazê-lo já que vivemos na era do amor líquido, das redes sociais e muitas pessoas já experimentaram o sabor dos prazeres do Tinder.

Mas caberá a cada um o livre arbítrio de sintonizar estes dois reality shows, que passam claramente a cada cidadão português um atestado de estupidez, isto se formos capazes de o fazer. A história é sempre a mesma: ninguém os vê, mas sabemos sempre o que se passa e o que por lá anda.