Suspeito de assassinar Marielle foi detido, agora falta encontrar “os mandantes”

Dois antigos agentes da Polícia Militar brasileira com ligações ao crime organizado foram detidos esta terça-feira, quase um ano depois da morte da vereadora do Rio de Janeiro. Família e colegas dizem que o crime não foi cometido "por razões pessoais".

Manifestação em Paris em memória de Marielle Franco
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Manifestação em Paris em memória de Marielle Franco LUSA/ETIENNE LAURENT
Marielle Franco
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Marielle Franco LUSA/Mario Vasconcellos HANDOUT
Os suspeitos: Ronnie Lessa (à esq.) e Elcio de Queiroz (à dir.)
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Os suspeitos: Ronnie Lessa (à esq.) e Elcio de Queiroz (à dir.) LUSA/POLICE OF RIO DE JANEIRO HANDOUT
A operação decorreu na madrugada desta terça-feira, no Rio de Janeiro
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A operação decorreu na madrugada desta terça-feira, no Rio de Janeiro LUSA/ANTONIO LACERDA
A polícia fez buscas em casa dos suspeitos e apreendeu computadores e outro material
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A polícia fez buscas em casa dos suspeitos e apreendeu computadores e outro material Reuters/SERGIO MORAES

Três meses antes do assassínio de Marielle Franco, em Março de 2018, no Rio de Janeiro, um sargento da Polícia Militar na reforma com ligações ao crime organizado começou a seguir a agenda pública da vereadora brasileira através da Internet, no seu telemóvel. Mais de um ano depois, na madrugada desta terça-feira, foi detido na sua casa e acusado pelo Ministério Público de ter sido ele a disparar contra Marielle Franco no atentado que também matou o motorista da vereadora, Anderson Gomes.

Para além do sargento na reforma Ronnie Lessa, de 48 anos, o grupo de combate ao crime organizado no Rio de Janeiro deteve Elcio de Queiroz, de 46 anos, também ele um antigo agente da Polícia Militar, acusado de ser o condutor do automóvel que perseguiu o carro onde seguiam Marielle Franco, Anderson Gomes e Fernanda Chaves – a assessora da vereadora, que sobreviveu ao atentado de 14 de Março de 2018.

Ainda é cedo para se saber que razões específicas estão por trás do assassínio, e se se confirma que Lessa e Queiroz agiram como assassinos contratados. Mas sabe-se que Marielle Franco era umas das vozes mais críticas das matanças nas favelas do Rio de Janeiro e que denunciou as relações de antigos e actuais polícias com o crime organizado, uma ligação que povoou a cidade brasileira com gangues violentos de extorsão e homicídios a soldo.

É isso que se lê no despacho de acusação do Ministério Público do Rio de Janeiro contra Ronnie Lessa e Elcio de Queiroz: “É inconteste que Marielle Francisco da Silva foi sumariamente executada em razão da actuação política na defesa das causas que defendia. A barbárie praticada na noite de 14 de Março de 2018 foi um golpe ao Estado Democrático de Direito.”

Os dois suspeitos ficaram presos, e o Ministério Público pediu também que o sargento reformado deixe de receber a sua pensão e fique sem a autorização de porte de arma. Para além disso, há ainda um pedido de indemnização à família das vítimas, por danos morais, e de pagamento de uma pensão ao filho de Anderson Gomes até aos 24 anos de idade.

A imprensa brasileira nota que Ronnie Lessa mora no condomínio onde também vive o Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, mas não avança qualquer outra ligação entre os dois.

A referência pode dever-se ao facto de o filho mais velho do Presidente, Flávio Bolsonaro, ser amigo de Adriano da Nóbrega, líder de uma milícia de extorsão e assassínios no Rio de Janeiro suspeita de envolvimento na morte de Marielle Franco, e de ter empregado no seu gabinete, durante anos, a mãe e a mulher de Nóbrega.

E o jornal Folha de S. Paulo publica esta terça-feira uma fotografia, retirada do Facebook, em que um dos acusados, Elcio Queiroz, surge ao lado de Jair Bolsonaro.

"Quem mandou matar?”

Os familiares e antigos colegas de Marielle Franco acusam as autoridades de agirem com lentidão por terem feito as primeiras detenções um ano após o assassínio – e de avançarem pouco para identificarem os “mandantes”.

“Parece-me óbvio que um crime dessa envergadura não foi cometido por razões pessoais desses PM [polícias militares]. É fundamental chegarmos aos mandantes desse crime político”, disse o vereador Tarcísio Motta, colega de Marielle Franco na bancada do Partido Socialismo e Liberdade no Rio de Janeiro.

A viúva da vereadora, Mônica Benício, disse ao jornal britânico The Guardian que as detenções desta terça-feira são “importantes”, mas frisou que “há algo ainda mais importante": “Quem mandou matar a Marielle? Espero não ter de esperar mais um ano para saber quem organizou tudo isto.”

Segundo o jornal O Globo, as equipas de investigação passaram vários meses a tentar ligar os pontos até chegarem a Ronnie Lessa porque o sargento na reforma usava telemóveis comprados com a identificação de outras pessoas – e no dia do assassínio de Marielle Franco, o seu telemóvel pessoal foi usado por uma mulher numa outra zona da cidade, para confundir a polícia.

Com a colaboração das empresas de comunicações móveis, os investigadores identificaram uma grande quantidade de telemóveis usados por várias pessoas no trajecto feito pelo automóvel em que seguia Marielle Franco.

Para apertar a malha, os investigadores usaram as gravações de uma câmara de segurança colocada na rua onde a vereadora participava num debate, na noite do crime. Nas imagens, vê-se uma luz a aceder no interior do automóvel usado pelos assassinos, o que sugeria que os ocupantes tinham começado a usar um telemóvel.

Depois de cruzarem todas as informações de localização e hora, os investigadores conseguiram reduzir de forma significativa as suas buscas. A partir de um número de telemóveis mais restrito, foi possível identificar um que tinha sido usado para contactar uma pessoa com ligações a Ronnie Lessa.

Por fim, os investigadores tiveram acesso à informação que o utilizador desse telemóvel guardou na “nuvem”, mediante uma ordem judicial. Foi lá que encontraram o rasto das pesquisas que o sargento na reforma foi fazendo sobre Marielle Franco e outras informações comprometedoras, que se vão juntar às descobertas feitas esta terça-feira em casa dos suspeitos e nos seus computadores.