Balotelli, o “carteiro” que não toca apenas duas vezes

O italiano "renasceu" e, neste domingo, voltou a resolver um jogo para o Marselha. É mais um capítulo de uma história recheada de altos e baixos.

Balotelli a fazer uma "instastory" no festejo de um golo.
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Balotelli a fazer uma "instastory" no festejo de um golo. Reuters/JEAN-PAUL PELISSIER

Balotelli renasceu. Esta deverá ter sido uma das frases mais ditas na última década, no futebol internacional. Em Março de 2019, cá estamos novamente: de polémica em polémica, de renascimento em renascimento, de loucura em loucura, Mario Balotelli ainda está vivo e bem vivo. Continua a ter futebol para dar e loucura para mostrar. Porque o avançado não soube, não sabe e dificilmente saberá separar os golos da bizarria, o talento da insolência e o profissionalismo das “balotellices”.

Com Jack Nicholson, o “carteiro toca sempre duas vezes”. Se este filme fosse adaptado ao futebol, poder-se-ia titular algo como “Balotelli nunca toca apenas duas vezes”. Toca mais. Muitas mais. O craque italiano vai no quinto “renascimento”, numa carreira que, apesar dos 28 anos, já vai longa. Para mal do italo-ganês, mais longa em polémicas e expectativas frustradas do que em grandes momentos.

“Super Mario” chegou ao Olympique Marselha no mercado de Inverno e, em sete jogos, já leva cinco golos. Tornou-se o segundo jogador na história do clube que de menos tempo precisou para festejar quatro vezes (só Sonny Anderson, em 1993, precisou de menos jogos). Desde que Balotelli chegou, o clube do Sul de França já subiu da sétima para a quarta posição (ocupa lugar europeu) e promete “morder os calcanhares” ao Lyon na luta por uma vaga na Liga dos Campeões. No domingo, o avançado voltou a ser decisivo e deu a vitória frente ao Nice, por 1-0. “Traição” ao antigo empregador e continuação do registo tremendo no novo clube.

Como se explica isto? É o efeito Balotelli. O efeito que Inter Milão, Manchester City, AC Milan e Nice já chegaram a sentir. Todos eles experimentaram o melhor e o pior do jogador. O Marselha, para já, vive o melhor. E isso, com um talento destes, é digno de ser vivido.

Auge em Varsóvia, tiros em Milão

A 28 de Junho de 2012, em Varsóvia, na Polónia, Mario Balotelli chegou ao topo do mundo. Destruiu, sozinho, uma Alemanha impotente, no Euro 2012, e fez o planeta do futebol, em geral, e os italianos, em particular, acreditarem que acabara de nascer a nova estrela italiana, depois de Meazza, Mazzola, Rossi, Baggio, Del Piero, Totti ou Inzaghi. Balotelli encarregou-se, quase sozinho, de merecer esse rótulo e encarregou-se, também sozinho, de o deitar fora.

“Super Mario” é o homem que incendiou a própria casa com fogo-de-artifício, que atirou dardos a jovens jogadores durante um treino dos escalões de formação, que interrompeu a conferência de imprensa de apresentação de Stramacioni como treinador do Inter (entrou, cumprimentou toda a gente e foi-se embora), que lutou com um simples colete de treino — imagens que se tornaram virais — e que disparou um tiro de pistola, “como brincadeira”, em plena Piazza della Republica, em Milão. 

Mas Balotelli também é o homem que chegou a doar milhares de euros a mendigos quando saiu do casino ou que decidiu, espontaneamente, ir pelas ruas de Manchester, vestido de Pai Natal, oferecer dinheiro e presentes a crianças desfavorecidas. “Se repararem, ele nunca foi notícia por beber ou sair à noite. Ele não faz isso. Faz coisas mais inocentes”, recordou, em 2012, José Coelho, português que foi colega de Balotelli nos jovens do Inter de Milão.

O problema é que, para além destes momentos caricatos — uns por brincadeiras inocentes, outros por loucuras condenáveis —, o italiano nunca pôs de lado o mau feitio que lhe valeu várias expulsões ao longo da carreira e “pegas” com treinadores. Em grande parte, foi esse feitio que fez de Balotelli um jogador que muitos treinadores não quiseram ter no seu grupo de trabalho, até pelo perfil individualista que o foi caracterizando.

Como curiosidade que atesta o egoísmo do italiano, importa dizer que, em Inglaterra, ao serviço do City, Balotelli fez apenas uma assistência para golo em 70 jogos. Não obstante, a que fez trouxe um dos momentos mais épicos da história do futebol. A 13 de Maio de 2012, no Etihad Stadium, aos 94 minutos da última jornada do campeonato (e já depois de Edin Dzeko ter marcado aos 92), Balotelli colocou a bola nos pés do argentino Kun Aguero, que assinou o 3-2, frente ao Queens Park Rangers, e entregou o título ao City.

Festejos extravagantes

Nas últimas duas temporadas em França, no Nice, onde chegou no Verão de 2016, Balotelli pareceu preocupar-se em “emagrecer” a lista de “balotellices” que alegrava os jornais. O jogador italiano marcou golos e, na cidade costeira, também conhecida pelo seu carnaval, começou a tentar transformar o “carnaval” que era a sua carreira num percurso de sucesso.

Depois de um mau início de temporada, já em 2018-19, o Nice decidiu emprestar Balotelli ao Marselha e o italiano tem feito das suas: marca golos, por um lado, e, por outro, mostra que anda no futebol também para se divertir. Há duas semanas, frente ao Saint-Étienne, festejou um golo pedindo um telemóvel, para fazer, com os colegas, uma publicação no Instagram. Balotelli foi Balotelli. No domingo, frente ao Nice, festejou o golo sentando-se no chão a jogar “pedra, papel ou tesoura” com Thauvin. Balotelli foi Balotelli.

Para o italiano, o tempo tem passado a correr e o outrora jovem avançado, cujos comportamentos de adolescente lhe enevoavam o talento, já é um homem feito e um jogador experiente, que tarda em justificar a alcunha de “Super Mario”.

Durante os últimos anos, Inter, Manchester City, AC Milan e Nice ficaram a saber que, com Balotelli, depois do melhor vem sempre o pior. Agora, em Marselha, resta ao italiano contrariar a história e escrever, ele próprio, um guião diferente daquele que tem escrito.