Morreu Hal Blaine, herói (quase) desconhecido da bateria de Pet Sounds, Be My Baby e dos êxitos do século XX

Músico de sessão em alguns dos álbuns mais importantes da pop, um erro deu-lhe uma das batidas mais influentes na música. “Ele era o melhor baterista de sempre”, garante Brian Wilson, dos Beach Boys. “Hal tocou bateria na banda-sonora das nossas vidas”, diz Micky Dolenz, dos Monkees

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Arquivo Rock 'n' Roll Hall of Fame

Hal Blaine, baterista norte-americano que marcou o ritmo de Be My Baby das Ronettes ou do mítico álbum Pet Sounds dos Beach Boys morreu segunda-feira aos 90 anos. A notícia foi dada pela família de um músico de sessão que esteve nos estúdios e nos sons de alguns dos mais duradouros êxitos da pop do século XX: Can’t Help Falling in Love With You, de Elvis Presley, Mrs. Robinson de Simon & Garfunkel ou I Got You Babe de Sonny & Cher.

Como destaca o Los Angeles Times, Hal Blaine era um dos músicos com mais temas gravados. Um músico de sessão, esteve na retaguarda de alguns dos maiores e melhores intérpretes da música popular do século XX e deixou também traço autoral. O seu toque, a sua bateria e ritmo, estão na origem de estilos e sons dos êxitos que ajudou a moldar. Fazia parte da “elite dos músicos de sessão de Los Angeles”, contextualiza a revista Rolling Stone, e trabalhou com os Byrds (é ouvir a sua versão de Mr. Tambourine Man, o original de Bob Dylan), com Frank e Nancy Sinatra (Something Stupid), com os The Mamas & the Papas (nas muitas texturas de California Dreaming ou Monday, Monday) ou Barbra Streisand (The Way We Were).

Esteve em estúdio com os Beach Boys no magistral Pet Sounds (1966), muito porque Be My Baby (1963), das Ronettes, é o disco preferido de Brian Wilson, o génio criativo do grupo e um de muitos a ser influenciado pela inovadora e indelével introdução da bateria dessa música. “Estou tão triste que não sei o que dizer. Hal Blaine era um músico e um amigo tão fantástico que não consigo traduzi-lo em palavras. Hal ensinou-me muito, e teve um papel tão grande no nosso sucesso”, escreveu Brian Wilson no Twitter depois de saber da morte do baterista. “Ele era o melhor baterista de sempre. E também nos ríamos muito.”

Trabalharam juntos em California Girls, Good Vibrations ou I Get Around na ausência de Dennis Wilson, o baterista dos Beach Boys, apenas alguns dos êxitos que desde os anos 1960 teriam o ritmo marcado por Hal Blaine – o músico gravou quase 40 temas que chegaram ao número 1 dos topes ao longo dos anos, e 150 de outras canções que estiveram entre as mais ouvidas e vendidas das décadas da segunda metade do século XX. De Bridge Over Troubled Water (1971), de Simon & Garfunkel, a Strangers in the Night (1967), de Frank Sinatra, passando por These Boots Are Made for Walkin', de Nancy Sinatra, ou Aquarius/Let the Sunshine In, dos The 5th Dimension.

“Para muitos, Hal tocou bateria na banda-sonora das nossas vidas”, lembrou Micky Dolenz, vocalista e baterista dos Monkees. “Hoje tenho de me despedir de Hal e agradecer-lhe pela magia que pôs em todas as nossas gravações das Ronettes… e por tantas outras ao longo da sua incrível carreira”, escreveu a cantora Ronnie Spector no Facebook. “Deu-nos tanto a todos”, sublinhou Charlie Watts, o baterista dos Rolling Stones.

A família do músico nascido em Holyoke (Massachusetts) em 1929 escreveu no post no Facebook que comunicou a sua morte: “Que descanse para sempre em 2 e 4” – os tempos do compasso que acentuava e com os quais se destacou, especial e especificamente em Be My Baby, com aquele início que nasceu de um erro. “Era suposto tocar a tarola no segundo e também no quarto tempo do compasso, mas deixei cair uma baqueta. Sendo o fingidor que era naqueles tempos, deixei o erro e tornou-se ‘bum-ba-bum-BOOM!’. E em breve toda a gente queria aquela batida”, contou ao diário britânico The Guardian em 2015. “É uma daquelas coisas que às vezes acontece”, desdramatizaria noutra entrevista.

Esse seu toque influente mas fortuito em Be My Baby teve uma influência na música e cultura popular que foi desde a sua posição de destaque no início de Mean Streets, de Martin Scorsese, ou na inspiração para a sedutora Just Like Honey, dos indie The Jesus and Mary Chain.

Hal Blaine, nome de baptismo Harold Simon Belsky, começou por aprender a tocar bateria na adolescência e acabaria por tocar jazz com Count Basie. Tornou-se um músico prolífico como parte da famosa mas informal Wrecking Crew, o grupo de músicos de estúdio que trabalhava com o importante produtor Phil Spector - o criador, com esses músicos, da fórmula sonora de gravação “wall of sound, que consistia na sobreposição de várias faixas de instrumentos para criar um som mais denso e orquestrado. O grupo, nome pelo qual passaram a ser conhecidos especialmente depois de Blaine assim os ter apelidado no título da sua biografia, Hal Blaine and the Wrecking Crew (1990), foi tendo vários intervenientes e muitos deles tinham formação como músicos jazz, mas ao contrário dos seus antecessores tinham apetência pelo rock ou pela soul, “wrecking”, ou seja estragando, a indústria aos olhos dos veteranos. “Os tipos de fato diziam todos ‘Oh não, estes miúdos de calças de ganga e t-shirt vão arruinar a indústria”, recordou na revista Modern Drummer em 2005.

Eles tocavam para músicos a solo, mas também para bandas consolidadas, aperfeiçoando o que por vezes não conseguiam fazer por si. “É um choque para o público mais alargado quando descobrem que muitos [músicos nas bandas em causa] não tocavam nos seus próprios discos”, constatava Hal Blaine em entrevista ao Los Angeles Times há 19 anos. Era uma questão de mestria, mas também de rapidez – o tempo de estúdio custa dinheiro. “Às vezes é preciso um perito, basicamente.” Quando se descobriu que os Monkees não tocavam nos seus próprios álbuns, foi um escândalo na América dos anos 1960.

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Hal Blaine em 2008 DR

Hal Blaine teve uma filha e sete netos e a pequena fortuna que acumulou com o seu trabalho em tantos êxitos e pedaços da história da música popular perdeu-se num divórcio contencioso. Acabaria a trabalhar como segurança no Arizona depois de o seu trabalho enquanto músico profissional rarear a partir da década de 1980. Em 2000, foi um dos membros da Wrecking Crew a ser induzido no Rock ‘n’ Roll Hall of Fame.

Como músico de sessão teve ainda um papel na gravação das músicas que serviam de apresentação a programas de televisão como a primeira série Batman. A sua estimativa, cita a agência Associated Press, era ter tocado em mais de 6 mil canções.