Crónica

Morrer em vida

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O mais importante do que está em A Portuguesa de Rita Azevedo Gomes, não está lá. Dou-me conta do paradoxo, mas é talvez a melhor forma de fazer justiça ao filme. O filme na realidade é sobre o modo de estar.

Vejamos uma cena, em que o conde von Ketten, “o senhor dos grilhões” (Marcello Urghege), já regressado da guerra, e doente, repousa numa cadeira ao ar livre e ensaia sem forças armar a besta que dispara o dardo. Lesto o criado executa a tarefa e dispara sobre o alvo fora de cena. Ouve-se apenas o gemido do animal abatido. Dir-se-ia que é uma elipse habitual no cinema que evita a obscena violência sobre animais.

Mas há uma transformação na cena. O animal, de início num contexto doméstico, torna-se selvagem no referente da caça. E A Portuguesa associa numerosas cenas da chamada vida animal, uma ou outra vez abruptas, num impacto de confronto súbito com a aparente tranquilidade. O agente humano, no entanto, condiciona tudo. Não é na realidade a natureza, mas a obra humana inscrita nela, como a também paradoxal presença ausente de Ingrid Caven, actriz alemã de Fassbinder e Werner Schroeter, que não narra, nem sequer comenta, mas evidentemente é exterior à acção e não interage.

O filme opõe o lar, de um castelo em ruínas a que preside uma portuguesa ruiva (Clara Riedenstein), misteriosa, trazida de longe, e a guerra, de que vemos principalmente os cadáveres abandonados no terreno. Von Ketten está entre dois pólos de permanente atracção-rejeição, a mulher que trouxera de Portugal e o príncipe-bispo de Trento (Alexandre Alves Costa), contra o qual entretém uma guerra contínua, e o artifício fílmico de Rita Azevedo Gomes como que procura correspondências, para lembrar o título do seu anterior documentário sobre as cartas trocadas entre Sophia de Melo Breyner Andersen e Jorge de Sena.

Correspondências é ainda o que procuram os diálogos originais de Agustina Bessa Luís, a merecerem certamente uma publicação autónoma, com o conto original, só aparentemente histórico, de Robert Musil. Rita Azevedo Gomes, nos contactos com a imprensa no Forum da Berlinale onde o filme despertou recentemente merecida atenção, lembrou que a inspiração de A Portuguesa, surgiu ao autor austríaco quando contemplava no Museu do Prado em Madrid o quadro de Ticiano, Retrato de Isabel de Portugal. Daí ser ruiva a personagem que Clara Riedenstein tão brilhantemente interpreta e que lhe acrescenta um quanto de estranheza que ajuda evidentemente a ganhar o filme.

Ao contrário de Manoel de Oliveira que em Francisca, Vale Abraão e O convento usava de Agustina a capacidade ficcional de reescrever Camilo, Flaubert ou Shakespeare, Rita Azevedo Gomes centra-se no próprio texto e nos inconfundíveis aforismos da escritora, aí talvez como antes o próprio Oliveira fizera em Visita ou Memórias e Confissões, em torno precisamente de um espaço doméstico que o cineasta também interrogara.

Não haverá talvez uma multidão de espectadores a quem o percurso contemplativo de Rita Azevedo Gomes imediatamente apele, como porventura não haverá para Agustina reais leitores na voragem apressada dos tempos modernos, mas A Portuguesa tem condições para ficar como um marco para lá de um tempo definido que se esgota. Vale nesse sentido a invocação feita por Rita Azevedo Gomes, também na Berlinale, de Walter Benjamin, nomeadamente ainda associando um outro quadro, Angelus Novus de Paul Klee, que fascinara o ensaista que nele via o anjo da história que “gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído”. Essa foi a chave de leitura que Rita Azevedo Gomes deu a Ingrid Caven para o seu papel fora do tempo. Mas fora do tempo é também para Benjamin a aura perdida pela “arte na era da sua reprodutibilidade técnica”.

A cineasta começou por estudar pintura antes de, levada por Bénard da Costa, se dedicar à programação de cinema na Fundação Gulbenkian e depois na Cinemateca Portuguesa (e nesse cenário filmaria também as correspondências de Bénard da Costa e Manoel de Oliveira, agora em conversa registada pela sua câmara, em A 15ª Pedra). É natural, portanto, que o seu cinema repouse na composição visual, a que a habitual direcção de fotografia, nos seus filmes, de Acácio de Almeida dá uma rara dimensão pictórica, mas Rita Azevedo Gomes ocupa-se também habitualmente da direcção de montagem e é aí que o manejo do tempo de cada plano e das pequenas variações dentro dele, mais que na rosselliniana colocação da câmara, transporta a orientação do olhar de Rita Azevedo Gomes.

Há duas cenas capitais de A Portuguesa que podem elucidar este artifício de construção.

Numa, o bispo de Trento preside a um beijo ritual de paz, numa magnífica presença quase estática de Alexandre Alves Costa, no centro figurado de uma sala de actos, a pedir um registo para a posteridade em que a pintura no passado participava, antes do tempo da fotografia e do cinema em que vivemos ainda, por outro lado a segurar muito bem na dicção o rigor do texto de Agustina, extraordinária para um não profissional da representação, mas convocado, como Ingrid Caven, nos referentes que a sua biografia evoca. Toda essa cena, de composição rigorosa e movimentos conjugados, converge para a sentença final e paradoxal de Agustina que à sua maneira resume o filme: a paz é uma doença.

Noutra, a cama em que agoniza, sem ter por final a morte, o conde von Ketten vai tomando a aparência alva de um esquife tumular sinalizando uma progressão do tempo em que se indefine a vida.

Esse é um tempo de espera, do desejo do que não se pode ter, como dizem os diálogos de A Portuguesa. Ela espera o regresso do marido, von Ketten, a morte do bispo, mas essas ocorrências não vão desfazer um continuado adiamento que não parece conseguir-se alguma vez curar. Resta, provavelmente com o lado mais pedagógico que místico, a atenção de Simone Weil, uma autora que João Bénard da Costa, que no mundo do cinema parece ser ainda o principal mentor de Rita Azevedo Gomes, muito prezava. Talvez o seu cinema da atenção se possa também defender como “o método para compreender imagens e símbolos: não tentar interpretá-los, mas sim olhá-los até que a luz brilhe”.