Crítica

Na Madeira, música a norte: o Barroco desconhecido

O ciclo pretende levar a música antiga a localidades que não têm beneficiado da oferta cultural existente e prolongar-se-á até ao fim do mês de Março.

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A costa norte da ilha da Madeira é feita, com algumas notáveis excepções, de escarpas quase a pique, que as nuvens se comprazem em tocar. As zonas habitáveis escasseiam, e a amenidade do clima, no Inverno, não é evidente para o visitante. O grau de preservação ambiental é contudo alto, e as paisagens encantam, atraindo o moderno turismo de natureza. No centro, a meio das escarpas, abre-se um vale que paulatinamente se alarga e convida à entrada do sol: é São Vicente, a vila mais importante da zona, com capela documentada desde 1440.

Foi São Vicente o lugar escolhido para o arranque do primeiro ciclo de música barroca Música a norte, integrado na comemoração dos 600 anos do descobrimento do arquipélago. Programado por Carlos Antunes, o ciclo pretende levar a música antiga a localidades que não têm beneficiado da oferta cultural existente e prolongar-se-á até ao fim do mês de Março; contou, para o concerto inaugural, com o agrupamento Polyphonos, fundado em 2016 por Raquel Alão, Tiago Mota e José Bruto da Costa, que assumiu a direcção artística. No caso vertente o grupo apresentou-se com uma formação ad-hoc de oito cantores, profissionais ou em formação, e dois instrumentistas (Maria Bailey e Marta Vicente), respondendo a um desafio que lhe foi lançado há apenas três meses: dar vida a uma série de obras barrocas compostas para São Vicente por músicos portugueses da primeira metade do século XVIII. E que obras!

É para mim inacreditável, ao ouvir realizadas algumas destas partituras, a sua corrente invisibilidade, decorrente da inexistência de edições impressas e de gravações sonoras. Deve esclarecer-se, à partida, que a celebração de São Vicente não era uma ocasião menor na Lisboa barroca, já que o santo era padroeiro da cidade desde 1173, e, antes do terramoto de 1755 (que destruiu a altar-mor da catedral onde se encontravam as relíquias, ladeadas pelos túmulos do rei Afonso IV e sua mulher), Santo António não lhe fazia sombra.

Os artistas estavam conscientes da importância das suas festas litúrgicas (a 22 de Janeiro, festa universal, mas também a 15 de Setembro, dia da trasladação da igreja de Santa Justa para a Sé do corpo achado no promontório de Sagres) e portanto era justo que se esmerassem. Assim sucedeu com o compositor António Teixeira (1707-1774), que escreveu, aparentemente em dois momentos diversos, quatro responsórios de Matinas que se revelaram extraordinários na sua concisão, impacto expressivo e adequação retórica ao texto, e nos quais dá largas, musicalmente, à sua verve teatral. (Do mesmo autor houve ainda lugar à estreia moderna de uma antífona de Vésperas, bela porém singela, para a festa do Anjo da Guarda.)

Seguiu-se um responsório vicentino de Carlos Seixas (1704-1742) com um estilo claramente diferente, mais intrincado na textura (reflectindo talvez a sua formação de organista, em contacto com o estilo romano recentemente importado) mas não menos impressionante no resultado. Esta é a única obra do programa com uma história significativa de recriação moderna.

O terceiro autor representado no concerto foi Francisco António de Almeida, com uma antífona de intróito para a Missa de Santo António, competente mas que não se destacou pelo rasgo criativo; uma antífona de comunhão para São Vicente, para dois coros, de apreciável lirismo e secções de textura progressivamente mais cheia, e extensão talvez exagerada, não soubéssemos nós da importância da ocasião; e um Magnificat, onde o autor demonstrou o domínio de toda uma paleta de recursos capazes de dar vida a secções do cântico evangélico de Maria, envolvendo e deliciando o ouvinte.

Note-se que estas obras tiveram como destinatários, no século XVIII, cantores de craveira internacional contratados pela Capela Real, e os correspondentes instrumentistas; nunca poderiam ter sido executadas, ao tempo, na Madeira, por falta de equivalentes recursos artísticos; mas é justo que São Vicente, cuja igreja no seu estado actual remonta à época barroca, as tenha podido agora apreciar. A interpretação foi conduzida com mão segura e sensibilidade artística por José Bruto da Costa, que também fez breves e esclarecedoras intervenções de enquadramento histórico e litúrgico para cada grupo de peças. A coesão e qualidade da execução foi invariavelmente alta, apesar de alguns desequilíbrios na emissão vocal, derivados da extrema dificuldade técnica de algumas passagens e da própria juventude do agrupamento; mas nada que impedisse a compensadora fruição estética e a adesão entusiástica do público presente no concerto.

O PÚBLICO viajou a convite da Secretaria Regional do Turismo e da Cultura