Cidade onde a revolta começou volta a manifestar-se, a dias do aniversário da revolução síria

Habitantes de Deraa, no Sul do país, enfrentam de novo o regime e protestam contra regresso de estátua de Hafez al-Assad, derrubada em Março de 2011.

A destruição no centro de Deraa
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A destruição no centro de Deraa Reuters/ALAA AL-FAQIR
Deslocados internos na província de Deraa
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Deslocados internos na província de Deraa Reuters/ALAA AL-FAQIR

Quase oito anos depois do início dos protestos pacíficos contra o regime de Bashar al-Assad, centenas de habitantes de Deraa, no Sul da Síria, manifestaram-se nas ruas da Cidade Velha em protesto contra a instalação de uma nova estátua do pai de Bashar, Hafez. O protesto decorreu dias antes de a estátua original ter sido derrubada no que viria a ser o início da guerra no país.

“A Síria é nossa, não há Casa de Assad”, cantaram os manifestantes no domingo, ao mesmo tempo que as forças de segurança leais a Damasco encerravam a zona, impedindo que habitantes de outras zonas da cidade se unissem ao protesto.

Foi em Deraa que tiveram início as manifestações contra a ditadura da família Assad, a 15 de Março de 2011. O regime disparou a matar e as manifestações em solidariedade com a população desta cidade, perto da fronteira com a Jordânia, espalharam-se pelo país.

Entretanto, o Exército sírio, com o apoio de milícias iranianas e da Força Aérea russa, reconquistou Deraa ao controlo de forças rebeldes em Julho do último ano, num percurso que o tem levado à reconquista de quase todo o território do país. Mas desde que o regime voltou a reinar em Deraa a população tem-se mostrado cada vez mais descontente, à medida que a polícia secreta voltou a apertar o controlo – nos últimos meses uma campanha de detenções em massa espalhou o medo pela cidade.

“Manifestámo-nos em várias ruas para denunciar a construção de uma estátua de Hafez al-Assad no Centro de Deraa”, disse um manifestante ouvido pela AFP. “A estátua foi colocada por pessoas que apoiam o regime”, acrescentou Mohammed, que não quis dar o seu apelido por receio de represálias.

“Abaixo Bashar al-Assad”

A manifestação foi confirmada pelo Observatório Sírio de Direitos Humanos, uma ONG ligada à oposição que conta com uma vasta rede de médicos e activistas no país. Os vídeos do protesto mostram vários grupos de pessoas, homens na sua maioria, que marcham rapidamente numa rua ao mesmo tempo que gritam “Viva a Síria, abaixo Bashar al-Assad”.

Um grupo de jovens que se manifestou na Cidade Velha de Deraa levou um cartaz onde se lia: “Vai cair. A vossa estátua é do passado, não é bem-vinda aqui”. “As pessoas juntaram-se sem nenhuma organização e protestaram pacificamente com exigências justas”, descreveu à agência Reuters o advogado e activista Adnan Masalma.

“O país foi destruído e, em vez de reconstrução, erguermos memoriais”, lia-se noutro cartaz.

Na rede social Twitter, o chefe da oposição síria, Nasr Hariri, saudou a coragem dos manifestantes. “O que é que podemos dizer àqueles que enfrentam a mão de ferro e o fogo do regime e que ousaram com coragem sair e entoar os primeiros slogans da revolução?”, escreveu. “Depois de anos de tortura, de sofrimento, de assassínios, de destruição e fuga, a primavera síria volta a florir.”

O Governo tinha dado folga às escolas e aos funcionários públicos para que assistissem a um comício pró-regime marcado para inaugurar a nova estátua de bronze do Presidente que morreu em 2000, abrindo caminho à chegada ao poder do filho que nomeara seu sucessor, Bashar. O comício desmobilizou depois de disparos vindos de uma praça nas imediações terem causado o pânico entre os participantes.

Quando Deraa caiu para as forças do Governo, no Verão passado, muitos residentes decidiram ficar em vez de partir para as regiões que continuam sob controlo da oposição, no Norte do país, onde dezenas de milhares de outros escolheram abrigar-se quando o regime conquistou as cidades onde viviam.

O regresso das estátuas

As autoridades têm reinstalado grandes estátuas do pai Assad depois das vitórias militares que levaram o seu filho a reconquistar a maioria do território que chegou a estar nas mãos de grupos rebeldes. Muitos habitantes da província de Deraa queixam-se que os serviços básicos ainda não foram completamente restaurados e que há faltas de electricidade crónicas. Os jovens temem que uma campanha de recrutamento obrigatório os leve a ter de combater o que sobra da oposição.

Outros moradores dizem que milícias locais, apoiadas pelos iranianos, ocupam agora posições estrategicamente localizadas no Sul da Síria, na fronteira com a Jordânia e, a Ocidente, com os Montes Golã, ocupados por Israel, e queixam-se que os membros destes grupos agem com impunidade, já que o Governo central continua demasiado fraco para impor a sua autoridade na zona.

O descontentamento crescente na província estará por trás de uma série de ataques contra checkpoints do Exército, que Damasco diz serem da responsabilidade de rebeldes a operar de forma clandestina.

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Manifestantes depois de derrubarem a estátua de Hafez em Deraa Reuters

Depois da repressão brutal das manifestações pacíficas por parte do regime, a revolta transformou-se numa guerra civil que ao longo dos últimos oito anos provocou mais de 360 mil mortos, fez centenas de milhares de desaparecidos e provocou milhões de deslocados internos e refugiados.

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