Nasrin Sotoudeh, Prémio Sakharov, condenada a “38 anos de prisão"

Regime confirma apenas sete anos de cadeia, mas o marido fala numa pena mais pesada, que inclui 148 chicotadas.

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A atribuição do Prémio Sakharov, em 2012, quando a advogada iraniana já cumpria outra pena de prisão Reuters

A activista dos direitos humanos iraniana Nasrin Sotoudeh, Prémio Sakharov em 2012, foi esta segunda-feira condenada a 38 anos de prisão e 148 chicotadas, afirmou o seu marido através da rede social Facebook, após uma conversa telefónica com a mulher, na cadeia.

Sotoudeh, que enquanto advogada representou activistas da oposição e mulheres processadas por remover o véu em público, foi detida em Junho de 2018 e acusada de espionagem, de difusão de propaganda e de insultos ao Líder Supremo do Irão, Ali Khamenei.

Nasrin Sotoudeh já tinha sido anteriormente detida e condenada a onze anos de cadeia em 2011, proibida de exercer advocacia e impedida de sair do Irão durante 20 anos. As acusações contra Sotoudeh basearam-se em entrevistas dadas à imprensa estrangeira sobre clientes seus detidos após as eleições presidenciais iranianas de 2009. Sotoudeh defendeu muitos activistas e políticos iranianos, incluindo Mehdi Karroubi, um dos principais dirigentes da oposição. Meses depois, em sede de recurso, a sua pena seria reduzida para seis anos.

Há no entanto um conflito de números em relação à pena agora aplicada: o regime iraniano fala oficialmente em cinco anos de cadeia por “conspirar contra contra a segurança nacional” e dois anos por “insultar o Líder Supremo do país, Ali Khamenei​”, segundo informa a agência de notícias IRNA. No entanto, na sua publicação do Facebook, o marido da activista, Reza Khandan, escreve que a sentença é de 38 anos e 148 chicotadas. “O veredicto de Nasrin: 38 anos de prisão com 148 chicotadas, o resultado dos dois casos abertos. Cinco anos de prisão para o primeiro caso e 33 anos de prisão com 148 chicotadas, para o segundo caso”, afirma.

A condenação acontece dias depois da visita ao Irão da vice-comissária dos direitos humanos da ONU, Kate Gilmore. A deslocação foi a primeira a ser autorizada depois de muitos pedidos da Organização das Nações Unidas terem sido negados por Teerão.

Nasrin Sotoudeh, de 47 anos, foi durante anos uma das vozes que mais denunciou abusos dos direitos humanos cometidos na República Islâmica. Advogada e amiga de Shirin Ebadi, Nobel da Paz em 2003, Sotoudeh pertencia ao Centro de Defesa dos Direitos Humanos, que fundou para defender mulheres, opositores políticos e minorias no Irão. 

Mãe de duas crianças, Sotoudeh bateu-se durante vários anos para que lhe fosse reconhecido o direito a exercer advocacia, a que poucas mulheres têm acesso no Irão. Quando o conseguiu, em 2000, tornou-se reputada por defender jovens condenados à morte por crimes cometidos quando ainda eram menores – um das práticas judiciais de Teerão que maior condenação tem gerado das organizações internacionais.

Em 2012, o Parlamento Europeu atribuiu-lhe o Prémio Sakharov dos Direitos Humanos.