Os activistas vegan que perceberam que ajudar é melhor do que acusar

Mostrar cartazes com animais esquartejados é uma estratégia pouco eficaz, acreditam activistas vegan como Elisa Nair Ferreira, da Aliança Animal. Nesta luta, o tempo é de propor soluções para quem vive do negócio da carne a encontrar alternativas. E, a nível internacional, começa a haver dinheiro para esta causa.

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Elisa Nair Ferreira Nuno Ferreira Santos

É difícil para quem come carne perceber exactamente o que se passa na cabeça de quem decidiu deixar de a comer por ter sofrido um choque ao tomar consciência da forma como os animais são mortos para serem transformados em comida.

De um momento para o outro — e é isso que, alerta Elisa Nair Ferreira, da Aliança Animal, pode tornar alguns activistas mais intolerantes — “essas pessoas não conseguem estar com a família à mesa [porque] onde antes viam comida normal, passam a ver um pedaço de corpo e isso torna-se sinistro”.

Elisa, que é vegan há cinco anos, lembra-se de um dia ter pensado: “As pessoas têm pedaços de cadáveres dentro de casa. Esta frase soa muito mal, não soa? Mas é verdade. Temos no congelador pedaços de cadáveres esquartejados. Quando tomamos consciência disso precisamos de um tempo para acalmarmos.” Alguém que se torna vegan “passa a estar em sofrimento e a ter uma consciência constante de uma realidade que os outros não têm”.

O que percebeu quando se tornou activista dos direitos dos animais foi que tentar forçar os outros a ver essa realidade quando eles não querem não tem eficácia. É fundamental perceber como se pode fazer um activismo que seja eficaz. Só assim, acredita, se poderá realmente ajudar os animais. Por isso, o tempo hoje já não é o de exibir nas ruas cartazes com imagens chocantes, de animais a serem mortos e esquartejados. O tempo é de dialogar.

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A fundadora da Aliança Animal acredita que com este “activismo vegan eficaz” estão a conseguir-se muitas mudanças

 “Muitos vegan ficam com raiva das outras pessoas porque não entendem como é possível saberem a verdade e não mudarem de comportamento, apenas porque querem ter dez minutos de prazer”, explica. “E isso gera conflitos tremendos.” É difícil aceitar que aquilo que as pessoas consideram ser o seu direito ao prazer de comer um pedaço de carne “possa ser superior à vida de um animal”. Daí que não lhe pareça fazer sentido que, por muito extremas que possam ser algumas acções de activistas, este possam ser classificados como extremistas. “Não é possível que quem está a pedir para que aquele sofrimento termine seja considerado extremista. Extremista é degolar animais.”

Esta advogada do Porto, nascida em Trás-os-Montes, passou pelo processo todo, por isso tem consciência de toda a série de emoções que ele provoca. Durante grande parte da sua vida foi carnívora. Depois de uma fase, na infância, em que esteve um período sem comer carne, voltou a ser capaz de o fazer desde que não pensasse no assunto. “Tinha que bloquear o pensamento. Nunca comi coelho, leitão, cabrito, pato, aqueles animais com os quais já tinha criado empatia por achar que eram fofos. Mas o porquinho adulto, a vaca ou as galinhas estavam lixados comigo”, conta, bem-humorada.

Conhecia alguns vegetarianos, mas era um modo de vida que não lhe agradava — e, confessa, “tinha muito medo de passar fome”. Sentiu sempre, no entanto, uma ligação forte com os animais. “Defendia todos menos aqueles que comia.” A mudança começou precisamente por causa de um protesto contra as touradas. “Foi o meu primeiro activismo”, recorda. Conseguiu, com várias outras pessoas, substituir a tourada por um festival de música onde estava previsto que houvesse comida, e, subitamente, surgiu a pergunta: “Então vamos defender uns animais e comer outros? Acabámos de salvar seis touros e vamos papar uma vaca?”

Não fazia sentido, e Elisa foi sensível a isso. “Comecei a participar nas acções mas os activistas eram poucos e ainda estavam muito presos à ideia de mostrar a verdade e não sorrir, porque o assunto é sério. Eu, que sabia como se via o activismo de fora, fui das pessoas que mais impulsionaram a mudança.”

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“Muitos vegan ficam com raiva das outras pessoas porque não entendem como é possível saberem a verdade e não mudarem de comportamento, apenas porque querem ter dez minutos de prazer”

Activismo inclusivo

Hoje a trabalhar já a nível nacional, a Aliança Animal nasceu no Porto por iniciativa de Elisa e de Maria Aragão, autora de Omeletas Sem Ovos e vegan há 15 anos. “Surgiu precisamente da necessidade de fazermos um activismo mais inclusivo, que seja fácil de receber pelas pessoas”, explica Elisa.

Um dos projectos em que mais se têm empenhado nos últimos tempos é o programa E o seu restaurante já tem? que ajuda restaurantes a terem uma oferta de pratos vegetarianos/vegan, a partir de receitas trabalhadas por Maria Aragão com a preocupação de não se afastarem dos sabores portugueses mais tradicionais.

“Nós contactamos alguns restaurantes, outros contactam-nos a nós e damos todas as informações que eles precisem. Se o restaurante tem francesinhas, vai tê-las também vegan, se é gourmet, vai ter opções gourmet, se os não vegetarianos comem bolinhos de bacalhau, os vegan comem bolinhos de ‘bicalhau’, com grão-de-bico em vez do bacalhau”, conta Elisa. Até agora, todo este trabalho tem sido gratuito, mas está prevista uma taxa para despesas que ainda não começou a ser aplicada. Para já, o projecto abrange cerca de 40 restaurantes no Porto e começou há pouco tempo a ser lançado em Lisboa.

A fundadora da Aliança Animal acredita que com este “activismo vegan eficaz” estão a conseguir-se muitas mudanças. A Aliança está ligada à ProVeg, associação internacional que tem como um dos rostos principais a activista Melanie Joy. “Queremos passar a mensagem, mas apresentando soluções. Não adianta apenas mostrar o problema, porque as pessoas dizem ‘e agora?’”. A ProVeg, conta Elisa, iniciou já um diálogo com as grandes empresas e está a mostrar-lhes que “há aqui uma coisa que era um nicho de mercado, mas que agora é o futuro”.

Há um ponto de partida que a activista quer deixar claro: “Nós não queremos que quem vende leite, salsichas ou fiambre vá à falência.” Acreditam que pode ser feita uma transição. “[As empresas] vão ter tempo de fazer as suas investigações, de desenvolver novos produtos e, [nessa altura] se as pessoas começarem a diminuir radicalmente o consumo de produtos de origem animal, as empresas podem começar a aumentar a produção dos que já têm de origem vegetal. Já há talhos em Espanha a vender seitan.”

A ideia é ser construtivo e não destrutivo. “Há muita gente que fica chocada com o que os animais passam e sem espaço para pensar nos problemas dos humanos. [A situação dos animais] é uma realidade tão horrorosa que é capaz de ser a pior coisa que nos vem à cabeça que possa existir no mundo.” É por isso que alguns activistas vegan pensam que não pode ser comparável com os custos económicos do fim da produção de carne e derivados: “O que é uma pessoa ficar sem emprego em comparação com o holocausto maior, esse sofrimento que é infligido e aplaudido?”, interrogam-se.

A Aliança Animal e a ProVeg acreditam que “com essa conversa não se muda o mundo”. “Estamos a falar dos hábitos das pessoas e elas sentem-se atacadas porque estamos a dizer que fazem parte desse holocausto — e ninguém gosta de ser acusado de participar na violência.”

Espanha é um dos países onde a ProVeg já está a trabalhar. “E há-de chegar a Portugal”, garante Elisa, explicando que há um grande apoio à organização, mesmo de não-vegan que se identificam com a causa. “Existem fluxos de apoio a nível mundial e a ProVeg está a canalizar esse dinheiro, grande parte do qual vem dos Estados Unidos, para os vários países onde já entrou.” Isto permite, entre outras coisas, ter activistas que já não precisam de ser voluntários porque são pagos.

A ideia é tornar a transição, para quem a desejar, mais fácil. “São criados programas de conversão dos produtos para se implementar uma transição gradual, de forma a manter os empregos.”. Elisa está convicta que não demorará muito a chegar a Portugal. “Há cinco anos não tínhamos activistas sequer para nada disto. E agora começamos a ter.” A manter-se esta tendência, podemos imaginar um cenário, propõe: “Se daqui a 20 anos metade da população do mundo for vegetariana, aí a resistência das pessoas vai ser muito diferente. E havemos de chegar a um ponto em que comer carne começa a ser mal visto.”

A questão começa também a tornar-se política. “Os programas de conversão das empresas”, defende, “não deviam partir dos activistas mas dos próprios Estados. Deviam-se aplicar impostos mais caros aos produtos vindos de fora e usar esse dinheiro para promover os produtos de origem vegetal. O país é o Estado e somos nós. É preciso abrir as portas, conversar com quem já está dentro e criar essas condições.”

A Aliança — que se assume “autónoma” em relação ao partido PAN – Pessoas, Animais, Natureza, e defende que “a causa animal deve ser uma preocupação das pessoas da esquerda e da direita — trabalha também na área do Direito. “O direito do animal é um ramo que está a crescer”, diz, lembrando que foi criada no ano passado a primeira pós-graduação nessa área na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

Mas não são precisos radicalismos. Elisa deixa um exemplo: “Uma das coisas que as pessoas [que estão a tentar tornar-se vegan] mais dificuldade têm em deixar é o queijo. Dizem, nunca vou conseguir, portanto nem vale a pena. Nós sugerimos go vegan except for the cheese. Deixa o que podes, muda o que podes.”

“O que estamos a fazer é um caminho”, acredita esta activista. “A nossa sensibilidade está a mudar. Dantes as mães também aceitavam que os filhos fossem para a guerra. Hoje não deixam. Já mudámos e cada vez vamos exigir sermos mais sensíveis, porque é essa a evolução do ser humano. Viemos das cavernas e evoluímos até aqui. Por que é que havíamos de estagnar agora?”