Crónica

A África nossa do Instagram

Boom! Em poucos minutos, o deputado David Lammy passou a chamar-se “porco gordo racista” — ao que parece, a Internet não estava preparada para esta discussão.

É um facto confirmado pela ciência que só há três certezas nesta vida: a morte, os impostos e aquela fotografia com uma criança negra ao colo que as pessoas brancas partilham no Instagram assim que põem o pé abaixo do deserto do Saara.

Calma. Deixemos as irritações com o politicamente correcto, o marxismo cultural e a ideologia de género a descansar por uns minutos naquela ilha do Pacífico onde os unicórnios e os dragões vivem em liberdade e harmonia, e vamos todos fazer um exercício que já não fazemos há muito tempo: pensar em conjunto e sem pedras na mão.

No dia 23 de Fevereiro, a britânica Stacey Dooley, uma conhecida jornalista de investigação, realizadora de documentários e estrela do programa de dança “Strictly Come Dancing”, partilhou no Instagram uma fotografia tirada no Uganda, durante as filmagens para uma campanha da associação de solidariedade social Comic Relief. Na imagem, Dooley carrega ao colo uma criança negra, que tem aquela expressão que as crianças fazem quando não parecem estar muito interessadas em subir ao colo de alguém.

Na legenda, a britânica escreveu “OB.SESSSSSSSSSSED” e juntou-lhe a imagem de um coração negro partido ao meio.

Stacey Dooley não fez nada que muitas outras figuras — mais públicas e menos públicas — não façam todos os dias. Mas, desta vez, o deputado do Partido Trabalhista David Lammy, um britânico filho de naturais da Guiana, achou que devia falar sobre isso.

“O mundo não precisa de mais salvadores brancos. Isto perpetua estereótipos gastos e inúteis. Em vez disso, vamos promover vozes de todo o continente africano e lançar um debate sério.”

Boom! Em poucos minutos, o deputado David Lammy passou a chamar-se “porco gordo racista” — ao que parece, a Internet não estava preparada para esta discussão.

“Isto não é pessoal e eu não ponho em causa as boas intenções dela”, disse Lammy. “O meu problema com as celebridades que são levadas de avião pela Comic Relief para gravarem estes filmes é que isso transmite uma imagem distorcida de África, que perpetua uma velha ideia da era colonial.”

Por esta altura, a Internet já estava partida em dois, como o coração negro na legenda da fotografia de Stacey Dooley: metade apoiava David Lammy, e a outra metade nem queria ouvir o que aquele “porco gordo racista” estava para ali a dizer. Um efeito também conhecido pelos cientistas como “um dia normal no Twitter e no Facebook”.

Como é óbvio para qualquer pessoa que passe mais de cinco minutos por dia na Internet, o deputado britânico cometeu um erro ainda maior: apresentou factos.

“A esperança média de vida subiu mais de 10% em 37 países africanos; o aumento percentual do Produto Interno Bruto nos onze maiores países subsarianos foi mais do dobro do que a média mundial; e as remessas da diáspora africana representam mais nove mil milhões de dólares [oito mil milhões de euros] do que o total enviado em ajuda internacional.”

A melhoria da situação em muitos países africanos tem sido impulsionada pelo esforço diário de milhões de africanos que ficam de fora das fotografias partilhadas no Instagram. E, ao serem representados por jovens britânicos com crianças negras e pobres ao colo, esses milhões de africanos não conseguem mudar a narrativa transmitida pelas fotografias do Instagram: as crianças africanas precisam de ajuda porque os políticos do continente são todos uns ditadores corruptos, e só os brancos podem salvá-las.

É claro que nem Stacey Dooley, nem a esmagadora maioria das celebridades que posam no Instagram com crianças negras ao colo — e nem os anónimos que organizam desfiles de Carnaval com crianças mascaradas de estereótipos andantes — têm más intenções. Mas quem tem boas intenções também arranja tempo para ouvir quem se diz incomodado ou ofendido. E para pensar e respirar fundo antes de gritar “politicamente correcto”.