As guitarras de Amadeo deram uma guitarra que foi a Tóquio

Adriano Sérgio foi um dos nove construtores de guitarra convidados para a mais recente edição da Feira de Arte de Tóquio. Foi a primeira vez que construtores de guitarras tiveram a oportunidade de mostrar o seu ofício em tal certame.

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Adriano Sérgio e a guitarra que levou a Tóquio MIGUEL MANSO

A guitarra é esverdeada, em mogno das Honduras, inspirada nas guitarras recorrentes na pintura de Amadeo de Souza Cardoso, cujo centenário da morte foi assinalado no ano passado. Chama-se Amarante. De Souza Cardoso e está cheia de detalhes e referências ao pintor, como janelas ou o auto-retrato que ele fazia. O seu autor, Adriano Sérgio, levou-a à Feira Internacional de Arte de Tóquio, que acaba este domingo. Foi a primeira vez que construtores de guitarras tiveram a oportunidade de mostrar o seu ofício em tal certame. Adriano foi um dos nove contemplados.

E isso esteve quase para não acontecer. “Quase cancelaram há dois meses. O responsável, à última hora, já com os voos marcados e tudo, começou a questionar-se sobre se guitarras seriam ou não arte”, explica ao PÚBLICO. Era suposto serem mais do que nove luthier. “Houve um compromisso”, conta o colega britânico Andy Manson, que tem mais de 40 anos de carreira (foi ele quem construiu a famosa guitarra/bandolim de três braços de Jimmy Page dos Led Zeppelin, por exemplo) e vive há quase uma década no nosso país, tendo uma oficina montada em Mortágua, Viseu.

Estão a falar, e a mostrar os instrumentos que levaram para Tóquio, no dia antes de partirem na LX Factory, em Lisboa. Manson continua: “Aparentemente, reduziram a nossa exposição. Não sei bem o que aconteceu, mas o resultado é que uma parte da exposição estará na feira de artes e outra numa loja de guitarras”, com alguma rotatividade, entre a feira em si e a Yamano-Music de Ginza, uma zona da cidade.

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Andy Manson, luthier britânico MIGUEL MANSO

Andy Manson leva, na cabina do avião – assegura que nunca teve problemas de transporte –, Cadência, uma guitarra acústica de ácer que “veio de um tipo romeno louco que apareceu há uns anos de carro, tinha uma encomenda de uma escola de guitarras em Espanha mas chegou lá e tinha sido cancelada, depois andou a guiar pela Europa à procura de construtores para vender”. A própria construção é uma adaptação a assinatura, em forma de guitarra, com que marca todas as criações da Andy Manson Custom Guitars.

A parte mais estranha: há apenas dez anos, ao contrário do colega, Adriano Sérgio, 52 anos, ainda nem sequer era luthier. Só em 2014 é que fundou a Ergon, mas não começou propriamente do zero. Adriano Sérgio é alguém que aprende rápido, mas isto requer bases. Aos seis anos, quando estava a crescer em Paris, “ao lado do Louvre”, filho de imigrantes portugueses que se tornaram porteiros, os pais ofereceram-lhe uma caixa de ferramentas – ainda hoje usa a marreta dos anos 1970. Em adolescente, deram-lhe o braço de um baixo e ele construiu o resto.

Em adulto, essa faceta manteve-se. Tinha duas oficinas chamadas Guitar Rehab, uma em Loures e outra Londres – ainda mantém a primeira, entretanto desistiu segunda – e era técnico de guitarras e de palco, percorrendo o mundo a resolver problemas e a certificar-se de que os concertos de inúmeras bandas corriam bem. Não era do metal, mas um convite dos Moonspell desencadeou uma série de acontecimentos que o fizeram percorrer o mundo com artistas como Kreator, Cannibal Corpse, Napalm Death, DragonForce, Dimmu Borgir, Cradle of Filth, Anthrax, Type O Negative, Machine Head ou Ozzy Osbourne. E ganhou um respeito e gosto pelo género.

“Se não tiver isto, não quero tocar”

Antes disso, foi mergulhador da marinha e depois músico, um baixista requisitado que pertenceu aos Coldfinger, teve os Cães de Crómio, os Red Nose, actuou com Três Tristes Tigres, Ithaka e Mesa, entre outros nomes – chegou a tocar com a banda de Marco Paulo, uma experiência pouco feliz –, mas desistiu quando percebeu que não era “bom o suficiente para tocar a música doutras pessoas só como executante”, como um músico de estúdio. Garante, contudo, que mesmo desta lista, os projectos mencionados que não eram da responsabilidade dele lhe davam prazer.

O construtor de guitarras lembra-se do dia exacto em que quis deixar de ser músico profissional a tempo inteiro. Estava no Festival Paredes de Coura, em 2002, a tocar com Coldfinger, a banda a que pertencia, num dia em que os cabeças de cartaz eram os Morcheeba. “Nos ensaios, antes de começar, improvisávamos sempre à volta de umas bases, dava-me um prazer enorme e indescritível”, conta. Nesse dia, disse aos colegas: “Vamos fazer o que fazemos na sala de ensaio”. Eles disseram que não. Ele avançou na mesma, o que obrigou os parceiros de banda a continuar. “Não tiveram coragem de me parar”, comenta. “De repente, vi muitos daqueles milhares de pessoas a desfrutar de uma coisa que nunca tinham ouvido na vida. Estava a tocar e pensei ‘se eu não tiver isto, como músico, não quero tocar’.”

E foi aí que percebeu que, em Portugal, era difícil ter isso constantemente. “Optei por fazer uma carreira técnica e só tocar a música que queria” e “não era bom o suficiente ao fazer aquilo que não gostava de fazer”, explica. Fez 46 espectáculos em 46 dias com os Moonspell e, depois de um ano sem nenhum convite, num dia em que estava a tocar com os Lisbon City Rockers, recebeu uma chamada a convidá-lo para uma digressão de Kreator, a banda alemã de thrash metal, e Cannibal Corpse, os nova-iorquinos do death metal. Iam tocar ao Hard Club, no Porto, tinham despedido o técnico de guitarra em França, e precisavam de alguém. “Não disse nada aos outros músicos, fiz o concerto, acabámos e disse que me ia embora”, partilha. A sua esposa levou-o ao Porto. “Fiz o concerto e a partir daí nunca mais acabou. No espaço de dois anos estava fora de casa de 10 a 11 meses. Isto durou até há dois anos”, resume.

A música, essa, não o abandonou. “Cada vez vou tocando mais, neste momento na minha oficina tenho o meu contrabaixo e um baixo eléctrico para poder tocar quando sentir falta”, conta. Não são criações dele: como trabalha por pedidos e encomendas, não guarda stock, mas vai começar a fazer guitarras acústicas em breve e guardar uma para ele. Cada vez que completa uma guitarra, que demora entre quatro e cinco semanas, toca um bocado para testar e, apesar de achar que toca “mal” esse instrumento, está com cada vez mais vontade de tocar, seja guitarra ou baixo. “Há qualquer coisa que me diz que tenho de tocar mais”, prossegue, “o Andy toca e tem um grupo de amigos que se encontram semanalmente em Mortágua, já me comprometi a ir lá de uma em uma ou duas em duas semanas desfrutar de tocar música só por prazer, mas ainda não aconteceu”.

A arte de ir a Tóquio

O convite para a Feira de Arte de Tóquio foi inesperado para ambos os representantes que vivem em Portugal. Foi um convite inesperado para ambos. “Não conseguia acreditar, comecei a chorar”, explica Adriano Sérgio. Já Andy Manson comenta que é “um pouco surreal": “Passei anos a ir a espectáculos e feiras de guitarras, na maioria cansas-te, é a mesma velha história vezes e vezes sem conta. Há muito tempo que ando a pensar que queria ir para outra área diferente de só fazer guitarras e bandolins normais. Não é como se estivesse aborrecido, mas não me sentia tão desafiado. Depois veio isto e outro projecto com o Adriano, que é igualmente paralelo ao percurso normal, e acho que as minhas preces foram respondidas”.

Esse projecto é o Guitar Barrel Project, que surgiu quando, por mero acaso, Adriano descobriu em Santarém barricas antigas de vinho que terão pertencido ao Marquês de Pombal. Eles os dois e mais luthiers – quatro dos envolvidos vão a Tóquio – farão guitarras a partir do mogno dessas barricas, numa colaboração com a Villa Oeiras. O resultado será apresentado em Setembro deste ano com uma demonstração de um guitarrista famoso e dará um filme de Luís Filipe Rocha.

E a questão do reticente organizador, sobre se o que eles fazem é ou não arte? “No meu dicionário, a primeira definição de ‘arte’ é ‘habilidade’. Há uns anos, meti-me num projecto, fazer uma escultura com o meu meio, construir guitarras, para fazer uma pessoa de tamanho real, uma sereia com um braço de guitarra. Era arte? Para mim, o produto final não interessa, é a transformação e a experiência que tens enquanto estás a trabalhar na peça”, conta Andy Manson. O colega português continua: “Não posso dizer que sou um artista, mesmo se o pensar fico desconfortável. Há quem diga que sou, cabe às outras pessoas pensar no que fazes”. No fim, “será o público da Feira a decidir” se fazer guitarras é ou não arte.