Por um Portugal para os portugueses

Sejamos inteiros em tudo que fazemos, façamos mais do que sair às ruas e fazer greves e manifestações, envolvamo-nos nos processos que conduzem o nosso país.

Foto
Miguel Manso

As funções públicas, sejam elas quais forem, desde o assessor de uma Câmara Municipal ao Presidente da República, por maioria de razão, devem servir o público, o povo.

Isto parece uma verdade lógica, mas em bom rigor não tem sido compreendido. E porque não? Na minha maneira de ver as coisas, tanto nós, como constituintes de uma sociedade representada por pessoas por nós escolhidas — quiçá pela minoria de nós —, como aqueles que nos representam, têm fatia da culpa.

O povo é culpado pela sua passividade, pela abstenção e falta de consciência na hora do voto, pela vontade simplista em reduzir a política a meros jogos de intenções e propostas eleitorais esfumadas em nada, em empunhar bandeiras e hostes partidárias como se de clubes de futebol se tratassem, entre tantos outros motivos; os políticos têm culpa por variadíssimas outras razões, designadamente o facto de (alguns) se apropriarem do erário público, de laborarem para desígnios privados ao invés de públicos — como deveria ser e, não raras vezes, não é —, de contarem mentiras atrás de mentiras, de vulgarizarem a função de um verdadeiro político, assim como de fustigarem a essência da palavra “política” e promoverem o crescente desinteresse pela mesma.

A esta altura perguntar-se-ão por que razão disserto sobre isto? Passo a explanar: os jovens mais conscientes, as pessoas com maior capacidade, afastam-se das hordas da política, ora porque se sentem fora do seu ambiente, ora por não se sentirem capazes de fazer a diferença a partir da base, pois esta faz já parte do sistema corrompido e está, ela idem, conspurcada. Sente-se falta de coragem política, mas uma imensidão de ambição à mesma.

Não creio que isto devesse ser assim, acho que todos convergimos em afirmar que estamos cansados dos fados que nos são impostos por intrujões; não quero viver num país de descrédito em que jovens sejam ensinados a sabotarem outros desde as juventudes partidárias às associações de estudantes, em que este tipo de sujidade política não ocorre somente de partido contra partido, mas desde o cerne e início da vida nas funções de âmbito político.

“Este não é um país para velhos”, esses senhores e senhoras que em Abril de 1974 promoveram uma liberdade a que tanto aspiraram não estão satisfeitos com a conjuntura actual e compete-nos a nós, jovens, lutarmos por aquilo que eles pelejaram, içar a vela que serpenteia o vento deste nosso (ainda) grande Portugal.

Não desejo de todo que o meu discurso seja entendido num tom a la Marcelo Rebelo de Sousa, não pretendo agradar a gregos e troianos, mas não posso deixar de defender aquilo em que acredito. Eu acredito num Portugal melhor, sem bandeiras partidárias nem ideologias intrincadas, mas numa nação construída de baixo para cima, em que todos sejam ouvidos e tenham o mesmo pendor na sua voz, em que se cumpram os valores tabulados na Constituição da República Portuguesa. Actualmente, não existe uma verdadeira igualdade entre portugueses, não enquanto pobres paguem por ricos, não enquanto pessoas sem-abrigo paguem por bancos falidos, não enquanto não se cumpra a verdadeira função da Justiça, e de forma idêntica, não enquanto haja descrédito político e falta de valores nesse mundo.

“Não concordo com uma palavra por ti dita, mas defenderei até a morte o teu direito em dizê-las”, assim dizia Voltaire há séculos. Sejamos inteiros em tudo que fazemos, façamos mais do que sair às ruas e fazer greves e manifestações, envolvamo-nos nos processos que conduzem o nosso país, pois só quando os “bons” tiverem a coragem dos “maus” se cumprirá verdadeiramente Portugal. Que se cumpra Portugal.