Cinco propostas para descobrir a Lezíria do Tejo

Há pratos incontornáveis, como o sável ou as enguias, mas há também museus, quintas históricas e provas de vinho. Roteiro para passeios à beira Tejo - ou navegando por ele.

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A criação de cavalos é um dos motivos de interesse na Quinta da Lagoalva Nuno Monteiro Ferreira

O Telheiro da Lúcia

Na aldeia avieira das Caneiras pode-se comer comida regional genuína no Telheiro da Lúcia, pelo qual até passou Mário Soares na altura da sua Presidência Aberta. A história começou com o pai de Lúcia, a quem chamavam Manuel Maçaroca, que há muitos anos aqui fez uma esplanada para quem vinha para a zona pescar ou caçar. “A minha mãe, a Ti Júlia Maçaroca, começou a fazer pão, a fataça na telha e o pessoal começou a vir”, conta Lúcia.

Hoje já não vive muita gente nas Caneiras – as novas gerações foram deixando a aldeia (embora o filho de Lúcia, Manuel, tenha ali aberto o seu próprio restaurante, A Tertúlia do Manel). Mas Lúcia ainda se lembra de quando as mulheres dos pescadores iam todos os dias a pé até ao mercado de Santarém onde “havia uma zona só de peixe do rio” e com o dinheiro que ganhavam compravam açúcar para fazer arroz doce – que ela aqui serve sempre, como sobremesa, depois da famosa sopa de peixe e do que mais houver nesse dia.

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Lúcia, a cozinheira de mão cheia do Telheiro da Lúcia, nas Caneiras Nuno Ferreira Monteiro

Museu Agrícola de Benavente

No antigo Matadouro Municipal de Benavente funciona agora o Núcleo Museológico Agrícola, onde a exposição O Calendário Agrícola conta a história da produção na região – do papel dos touros bravos que, depois de corridos eram transformados em bois da terra, castrados e levando um chocalho ao pescoço, aos ranchos de trabalhadores sazonais contratados pela Casa Agrícola e conhecidos como beirões, gaibéus ou ratinhos.

A parte final da exposição relata o processo de mecanização, que acabará por fazer desaparecer completamente o mundo que ali vemos em belas fotografias a preto e branco, com carroças puxadas a bois e homens e mulheres agarrando fardos de palha contra um céu de nuvens sempre dramáticas.

Cristina Gonçalves, da Câmara Municipal de Benavente, explica que “a tradição rural e a criação de gado são marcantes neste território”, e que há uma aposta na valorização desta identidade, com a preparação da candidatura do campino a património cultural imaterial e com um trabalho em torno do arroz carolino, para que este seja cada vez mais utilizado nos restaurantes da região – o que já acontece, por exemplo, no Santo Gula (em Santo Estevão), na Coudelaria (o restaurante da Companhia das Lezírias, em Samora Correia) e o Chico do Porto (em Porto Alto).

A partir de Benavente, outra possibilidade é fazer a Rota das Lezírias, um percurso pedestre e ciclável, parcialmente nos valados dos rios Almansor e Sorraia – são 20 quilómetros de um percurso circular, que pode ser iniciado em Benavente ou em Samora Correia.

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Uma das salas do Núcleo Agrícola do Museu de Benavente Nuno Ferreira Monteiro

Casa dos Patudos

Projecto do arquitecto Raul Lino, a Casa dos Patudos, em Alpiarça, foi a residência de José de Mascarenhas Relvas, agricultor, ministro e primeiro-ministro no início do século XX – e o homem que proclamou a República da varanda da Câmara Municipal de Lisboa, no dia 5 de Outubro de 1910. É um dos exemplos maiores do que era uma grande casa agrícola no Ribatejo e que, doada à Câmara depois de José Relvas ter morrido sem deixar descendentes (os três filhos morreram antes dele), é hoje um importante museu municipal, com um enorme espólio de pintura, escultura, mobiliário, artes decorativas, além de albergar um valioso arquivo com 50 mil documentos que, como explica o director Nuno Prates, permite traçar parte da história do país nos inícios do século passado.

Armando Fernandes, autor da Carta Gastronómica da Lezíria do Tejo, convida-nos a visitar a Casa dos Patudos (o nome vem dos patos bravos que aqui existiam) pelo que ela nos pode revelar da forma de comer da classe mais alta da região. Esta era uma grande casa de produção agrícola e ainda hoje se mantém, nas mãos da Câmara de Alpiarça, como produtora sobretudo de vinho e azeite.

Um dos pontos mais interessantes da visita “gastronómica” a esta residência com 101 quartos é a cozinha, que foi recuperada e aberta ao público em 2013 (o resto da Casa dos Patudos funciona como museu já desde a década de 60 do século passado). Numa das paredes da cozinha – onde podemos ver os objectos utilizados na época, desde o fogão, feito propositadamente para este espaço, até à bonita caixa do pão, da antiga Casa José Alexandre – está uma fotografia tirada por José Relvas a cinco dos 14 empregados da quinta.

Nuno Prates enumera: “Temos o Possidónio, que ia todos os dias à vila comprar o que pudesse faltar, a cozinheira Natividade, a ajudante, Felicidade, a Clara, que era uma criada de dentro, e a mulher que sabia tudo sobre a história desta casa, a Aurélia Xavier, a governanta”. Esta era, explica Armando Fernandes, “uma casa de posses, opulenta, produtos não lhes faltava, tinham-nos aqui à volta, e tinha também alguma influência internacional, sobretudo da cozinha francesa”.

Infelizmente, não chegou até nós algum livro de receitas, mas no arquivo de José Relvas encontram-se várias ementas de jantares, almoços, ceias e até piqueniques que mostram o que comiam as classes altas na época – uma ceia de 1905 no Real Paço da Ajuda, por exemplo, começa com um Filet de bouef à la Bohémienne, passa para uma Mousse de foie-gras à la Diplomate e, depois de vários outros pratos de influência francesa, termina com um Gateau Savarin.

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A cozinha da Casa dos Patudos Nuno Ferreira Monteiro

Quinta da Lagoalva

Propriedade senhorial pertencente à Casa Palmela, a Quinta da Lagoalva de Cima fica a cerca de dois quilómetros de Alpiarça. Comprada em 1834 por Henrique Teixeira de Sampayo, 1º conde da Póvoa, passou mais tarde para D. Maria Luísa Noronha de Sampaio, que casa em 1946 com D. António Maria Pedro de Souza e Holstein, 2º Duque de Palmela.

A casa teve, no passado, um grande número de trabalhadores que aqui habitavam, e a estrutura da propriedade ainda revela isso, com as 42 casas do pessoal, junto ao Tejo (que antigamente era navegável nesta zona e servia de via de escoamento para a produção agrícola, além do transporte de pessoas), a antiga escola para os filhos dos trabalhadores, o forno comunitário ou a “casa das sopas”, que era o antigo refeitório.

Hoje a Lagoalva continua a ser uma das maiores propriedades da região, com a produção centrada nos cereais (milho e trigo, assim como luzerna e colza), mas também com gado bovino e ovino (chegaram a ter touro bravo, mas hoje já não), e também o vinho (desde 1888, ano em que apresentou 600 cascos de vinho na Exibição Portuguesa de Indústria), com 45 hectares de vinha e Diogo Campilho e Pedro Pinhão como enólogos, e ainda o azeite do olival plantado há 200 anos pelo 2º Duque de Palmela.

Além da produção agrícola, os proprietários da quinta fazem também criação de cavalos lusitanos e estão abertos a visitas turísticas, que incluem uma grande variedade de actividades, desde uma ida em carro de cavalos ao campo, seguida por visita à adega, à capela e ao picadeiro, às provas de vinhos ou até a almoços tradicionais numa das salas de refeições desta casa senhorial cheia de história, e onde a “tia Luciana”, que, com o sr. Zé, constitui o casal de trabalhadores mais antigo ainda a morar na propriedade, nos mostra como se fazia o pão no forno comunitário.

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Quinta da Lagoalva de Cima Nuno Ferreira Monteiro

O Escaroupim

Na ementa há enguias fritas com arroz de feijão, ensopado de enguias, caldeirada de enguias. Estamos no Mês da Enguia e até final de Março esta iguaria vai atrair muita gente ao Escaroupim, o restaurante de Ricardo Andrade, à beira-Tejo, junto ao cais onde atracam os barcos de três empresas que fazem passeios nesta parte navegável do rio, na aldeia avieira de Escaroupim.

Ricardo lembra que, apesar de a Câmara de Salvaterra de Magos declarar Março como o mês da enguia (“é o melhor mês da casa, seguido por Agosto”, garante), elas existem na carta todo o ano, ao contrário da lampreia e do sável que, esses sim, só aparecem nas épocas próprias. Mas há mais especialidades neste restaurante aberto desde 2004 e uma das que tem mais sucesso é o arroz de bacalhau com farinheira.

Sendo esta uma terra de arroz, Ricardo orgulha-se de usar o carolino, explicando que, como “todos os pratos são confecionados ao momento, o arroz vai malandro para a mesa e depois vai apurando”. Aconselha também os linguadinhos pequenos, de rio – os chamados “folha de louro” – com arroz de feijão ou de tomate.

Antes ou depois do almoço, pode-se fazer um passeio de barco pela Rota dos Avieiros. Júlio Martins, da Região de Turismo do Alentejo/Ribatejo e nosso interlocutor durante o almoço no Escaroupim, conta que foi ele quem, há uns anos, iniciou nesta zona uma outra rota, a dos mouchões, pequenas ilhas que são outro fenómeno muito interessante do rio. “O mouchão é como um ser vivo, que cresce pelo depósito de sedimentos que, quando vêm à superfície, servem de base para o aparecimento de vegetação. O que não quer dizer que não venha uma cheia e destrua tudo” – o que significa que a paisagem do rio pode não ser igual de uma visita para a outra, por isso podemos aqui voltar várias vezes e descobrir um Tejo diferente.

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Cais junto ao restaurante O Escaroupim Rui Gaudêncio