Opinião

O maior mistério do país chama-se Tomás Correia

Por que é que o Governo e o Partido Socialista têm protegido Tomás Correia ao longo dos anos? Que favores lhe devem? Que podres pode ele conhecer?

Há muito tempo que escrevo sobre o grande timoneiro do Montepio Geral e sobre as ligações suspeitas a Ricardo Salgado, a José Guilherme e a tantos outros. Mas apesar desta minha insistência, e de já muito ter lido sobre o assunto, há uma coisa a que ainda não sei responder com exactidão: por que é que o Governo e o Partido Socialista têm protegido Tomás Correia ao longo dos anos? Que favores lhe devem? Que podres pode ele conhecer? Que trunfos é que tem? São as badaladas ligações à maçonaria? São histórias antigas de financiamento partidário? São os favores divinos do padre Vítor Melícias? Não sei exactamente o que é, mas sei que alguma coisa tem de ser.

Até ia chamar a este texto “Quem tem medo de Tomás Correia?”, mas não pude, porque descobri que Paulo Ferreira já tinha utilizado precisamente esse título há duas semanas, num artigo para o diário online Eco. Também Manuel Carvalho assinou há um par de dias um editorial que eu poderia subscrever palavra por palavra, e no qual Tomás Correia é descrito como uma “reminiscência da hoste ignóbil que se acolitou na banca e na política para enriquecer sem mérito”. É, de facto, isso mesmo que ele é. Tanto Paulo Ferreira, como Manuel Carvalho, como eu, e como tantos outros, estamos unidos na mais absoluta perplexidade: como é possível que no mundo pós-BES uma figura carregada de suspeitas gravíssimas mantenha a idoneidade para liderar a instituição que manda no Montepio Geral? Quem é que anda há anos a proteger as costas de Tomás Correia?

Este é um dos grandes mistérios do país. Essa é a história que ainda está por contar. Os jornais já se encheram várias vezes com notícias que arrasam o carácter do senhor. Só nos últimos dias aprendemos que Tomás Correia foi multado em 1,25 milhões de euros pelo Banco de Portugal devido a irregularidades cometidas enquanto presidente da Caixa Económica (2008-2015). Aprendemos também que ele não tem razões para se chatear demasiado com isso – quem tem de pagar pelas irregularidades cometidas por Tomás Correia no Montepio não é Tomás Correia, mas sim o Montepio, que além de ser mal administrado ainda patrocina a incompetência da administração. Não é uma maravilha?

Não é plausível que após anos e anos de uma Associação Mutualista oficialmente fora do perímetro do Banco de Portugal (porque não é um banco) e oficiosamente fora do perímetro do Ministério da Solidariedade e Segurança Social (por falta de capacidade técnica para avaliar a idoneidade de alguém), se faça agora uma lei para clarificar a situação do Montepio que deixa tudo mais escuro do que estava originalmente. O que espanta não é que António Costa tenha afirmado no Parlamento que o Governo irá fazer a devida aclaração da lei; o que espanta é que uma lei acabadinha de sair do forno, feita à medida do Montepio, cause tamanha confusão interpretativa – a não ser, claro está, que essa confusão fosse propositada e pretendesse enviar para daqui a longos 12 anos a avaliação da idoneidade de Tomás Correia.

A pressão política e social não tem parado de aumentar e já há quem diga que a única saída possível para o senhor é o abandono do cargo para o qual foi eleito há apenas três meses. Se assim for, despede-se com muitos anos de atraso – e uma pergunta ficará sempre por responder: por que foi tão difícil pôr Tomás Correia fora do Montepio na hora certa, e por que caminhos conseguiu ele cativar um Partido Socialista que se empenhou em protegê-lo mesmo até ao fim.