O novo mundo de Miguel Oliveira no topo da pirâmide do MotoGP

O português chega a uma dimensão diferente: motos com o dobro da potência, um certame com o triplo do prestígio e um campeonato com o quádruplo da dificuldade.

Oliveira nos testes de pré-temporada.
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Oliveira nos testes de pré-temporada. LUSA/FAZRY ISMAIL

Miguel Oliveira estreia-se neste domingo no MotoGP, “categoria rainha” do motociclismo, e terá quase tudo contra si: uma moto menos potente do que as dos rivais, a exigência de um país pouco tolerante, o estatuto de novato nos bastidores e um colega de equipa mais experiente. A seu favor tem o talento, a juventude e a humildade de quem é elogiado pela vontade de aprender desde que dava voltas e quedas em Palmela, ainda imberbe, com o tão estimado capacete do Homem-Aranha.

O português está, agora, num mundo com motos mais potentes – ultrapassam os 300km/h, bem longe dos 200km/h que, em Moto3, já assustavam a avó Fátima –, num certame de visibilidade mundial e, sobretudo, com uma concorrência que apela à compreensão e paciência dos portugueses, numa primeira temporada de aprendizagem. Em traços gerais, será este o panorama do rookie Miguel, apostado em fazer, pelo menos, um top-10 na primeira metade da temporada. Tudo isto será sem o habitual número 44 na moto (já ocupado por Pol Espargaró), mas sim com o mais redondo 88.

“Faltou um título para lhe dar estatuto”

Ao PÚBLICO, Armindo Araújo, piloto de ralis que passou por um processo semelhante ao de Miguel Oliveira quando entrou no WRC, analisa aquelas que serão as principais dificuldades do português: “Isto é subir ao topo da pirâmide. Somos a elite das elites. Somos avaliados desportivamente, mas também por factores políticos das movimentações de bastidores que se fazem neste patamar. Temos de ser hábeis a trabalhar a parte desportiva, mas também vender bem a imagem e o trabalho que fazemos”, explica, lamentando que Oliveira não chegue ao MotoGP com um estatuto diferente: “É uma pena o Miguel não ter chegado ao MotoGP com um título que lhe desse outro estatuto. Este primeiro ano é um passo decisivo na continuidade dele no MotoGP e, mesmo sem a melhor moto, vai ser obrigado a fazer um bom resultado aqui ou acolá.”

Em matéria de resultados, entra, depois, a exigência nacional. Armindo Araújo alerta para o facto de Portugal não ser “amigável” com o processo de crescimento faseado dos seus atletas: “Portugal não é fácil e os portugueses são muito exigentes. Vão pensar que, se ele está no MotoGP, tem de bater o Rossi ou o Márquez. Portugal não dá muito espaço de crescimento aos seus atletas.”

O próprio Miguel Oliveira fez questão de “arrefecer” o entusiasmo de um país que nunca teve representante no topo do motociclismo. “Aqueles que pensam que vou começar já a ganhar em MotoGP não percebem bem o universo desportivo em que estou inserido. As expectativas têm de ser controladas. Vai ser um ano em que, provavelmente, não vai haver pódios ou vitórias. Só posso pedir aos portugueses que tenham calma”, afirmou o piloto português, em declarações veiculadas pela Lusa.

“Ai é? Agora é que vão ver”

Em MotoGP, Miguel Oliveira vai reencontrar o rival de sempre, Maverick Viñales. O espanhol que chegou a ser colega de equipa do português, nas categorias de iniciação, e que, um dia, como relatado na biografia do piloto, fez despertar em Oliveira a frustração de ser o segundo piloto da equipa. “A equipa chamou-nos ao camião e disse-me que, como o Maverick estava à frente no campeonato, eu teria de fazer um “jeitinho” para ele ser campeão. Eu pensei: 'ai é? querem que eu fique atrás dele? Agora é que vão ver'”. O que viram foi Miguel Oliveira terminar a corrida com nove segundos de vantagem para Viñales, uma diferença que não abriu sequer a discussão sobre uma possível “ajudinha” ao companheiro de equipa. Neste ano, em MotoGP, Oliveira voltará a lidar com o estigma de ser o menos consagrado da equipa. O companheiro do português, na KTM, será o malaio Hafizh Syahrin, piloto que já tem um ano de experiência na categoria.

Para Armindo Araújo, um dos “segredos”, para além de não haver precipitações e de ter a “ponta de sorte” sempre necessária, será conseguir acompanhar o colega de equipa: “Ele terá sempre o barómetro importante do colega de equipa, que será a bitola de comparação.”

Questionado pelo PÚBLICO sobre se uma primeira temporada sem resultados importantes poderá gerar frustração em Miguel Oliveira, levando-o a cometer mais erros, Armindo Araújo deixou um alerta: “Ele tem de ser muito forte mentalmente e saber que, em princípio, não lutará por pódios e campeonatos como nos últimos anos e isso causar-lhe-á estranheza. Não irá conduzir a melhor moto do pelotão e terá dificuldades para acompanhar os mais fortes. Tem de estabelecer as suas metas, mais modestas, porque é difícil lutar apenas pelo top-10 depois de estarmos habituados a lutar por pódios.”

Para já, como motivação, Oliveira pode contar com Valentino Rossi e Marc Márquez. O lendário piloto italiano – cuja argola na orelha chegou a justificar o brinco usado por Miguel, na adolescência – elogiou a “força e rapidez” do português, enquanto Márquez se alongou na análise aos pontos fortes do rookie. “É muito forte, é rápido e pode ser um grande piloto de MotoGP, porque nunca comete erros. Este ano não fez qualquer erro e não teve nenhuma corrida a zero. Conheço o Miguel há muitos anos, porque ele cresceu no campeonato espanhol (…) é muito trabalhador e, quando trabalhas bem nos teus objectivos, isso é meio caminho andado”, disse o espanhol.

Oliveira, o homem da KTM

Na subida ao MotoGP, Oliveira “porá as mãos” numa KTM RC16, da equipa Tech 3. Uma moto bem diferente da Suzuki 50cc de quatro rodas que recebeu com dois anos ou da Metrakit com que se iniciou nas duas rodas, “máquinas” que o acompanharam nos “mergulhos” às valas de água, na Charneca de Caparica, e cuja utilização dependia da promessa de ser bem-educado, bem-comportado e estudioso. Neste ano, Oliveira vai tornar-se o primeiro piloto a conduzir uma KTM em todas as categorias: Rookies Cup, Moto3, Moto2 e MotoGP.

Hervé Poncharal, patrão da equipa, também procurou esfriar as expectativas, alertando para as diferenças que Miguel Oliveira sentirá nesta primeira temporada de MotoGP: “A moto tem o dobro da potência, por exemplo. Aquela com que ele correu até agora, em Moto2, tem 130 cavalos. A de MotoGP tem 270. O peso também é um pouco maior e os travões são diferentes, pois somos obrigados a utilizar discos de carbono, enquanto em Moto2 são de ferro. Na categoria intermédia a electrónica é muito básica, mas em MotoGP é muito avançada”, detalhou, abordando os objectivos: “Um pódio, para já, é impensável. Se fizermos um top-10 com o Miguel, na primeira metade da época, será fantástico. As pessoas em Portugal não devem ficar desapontadas se ele terminar as primeiras corridas na 15.ª posição ou mesmo fora dos pontos”.

Antes de terminar o mestrado em medicina dentária e de arranjar, no futuro, a dentição de um “velhinho” Valentino Rossi, Miguel Oliveira tem, à sua frente, uma carreira no topo do motociclismo. Em Moto2, Oliveira era o único piloto da grelha que arrancava de pé esquerdo pousado no chão. Resta ao português fazer com que o seu arranque, na aventura do MotoGP, seja feito de pé direito.