Reportagem

"Não queremos comparações. Para o ano seremos ainda mais”

Estavam marcadas manifestações para várias cidades, neste Dia Internacional da Mulher. No Porto, a Praça dos Poveiros encheu-se.

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Nicolau (“só Nicolau”, diz) trouxe a filha Mariana, de um ano, à manifestação convocada pela Rede 8 de Março, que nesta sexta-feira encheu a Praça dos Poveiros, no Porto. Ele, com 32 anos, diz que às vezes se vê a ter comportamentos machistas que não sabe de onde vêm e que essa é uma das razões por que está ali, com a miúda de olhos bem abertos presa ao peito. “É bastante óbvio que o feminismo ainda é necessário”, diz. Pelos dias de hoje, pelo futuro de Mariana. “Tentarei ao máximo que ela saiba o seu valor, que se respeite a ela própria e se faça respeitar. Que não opere sobre ela nem sobre as suas pares esse machismo que é fruto mais da cultura do que das pessoas.”

À sua volta cresciam pessoas, cartazes e adereços a lembrar que neste Dia Internacional da Mulher ainda há muito por fazer pela igualdade de direitos. Mas era também evidente que os casos de violência doméstica que têm marcado este ano serviram de motor para muitos dos que ali estavam saírem de casa. “Mexeu com uma, mexeu com todas” foi o primeiro grito colectivo a irromper. 

Lá no meio estava Inês Vasconcelos, 20 anos. Veio sozinha, não conseguiu convencer uma amiga a acompanhá-la, e fez o seu próprio cartaz. “Somos a voz daquelas que a violência calou”, lia-se. “Acho importante que toda a gente se faça ouvir”, diz. Porque há sempre uma história para contar. Como a dela, que um dia teve um homem a tocá-la persistentemente num transporte público e ainda hoje diz sentir “alguma insegurança” sempre que se desloca assim. “Eu gritei, mas as pessoas ficaram só a olhar e eu saí do autocarro. Quem devia ter saído era ele.”

Antes da marcha que ia levar os manifestantes até à Praça de D. João I, Andrea Peniche, da Rede 8 de Março — que convocou o protesto, a que se associou o Bloco de Esquerda e o Movimento Alternativa Socialista, havendo também bandeiras do Livre a flutuar —, mostrava-se satisfeita com a adesão no Porto e em Lisboa. “Que amanhã seja o início de uma nova era”, desejava, rejeitando comparações com manifestações internacionais que levaram às ruas muitos milhares de pessoas nesta sexta-feira. “Temos uma história diferente, tradições diferentes. Não queremos comparações. Para o ano seremos ainda mais”, disse.

Greve sem números

O dia foi marcado também por uma greve feminista, convocada por cinco sindicatos — Sindicato das Indústrias, Energia, Serviços e Águas de Portugal (Sieap), Sindicato Nacional do Ensino Superior (Snesup), Sindicato dos Trabalhadores de Saúde, Solidariedade e Segurança Social (STSSS), Sindicato dos Trabalhadores de Call-Center (STCC ) e Sindicato de todos os Professores (STOP). 

Sem números de adesão para apresentar, os sindicalistas realçaram que a greve teve um carácter mais “simbólico” do que outra coisa. “Não estamos a recolher dados, nem queremos entrar nesse tipo de questões. Esta é uma greve essencialmente simbólica”, disse Gonçalo Velho, do Snesup.

Da parte do STSSS Joaquim Espírito Santo dava conta de alguns casos de “greve efectiva” em locais como o Centro Social de Ermesinde ou a APPACDM de Matosinhos. “Não foi uma greve convocada por razões sindicais”, ressalvou, adiantando: “Esperamos é que seja uma grande concentração.”

Também Aurora Lima, do STOP, fala em “greve simbólica” e diz que será difícil contabilizar a adesão a nível nacional porque, diz, “houve boicote e muita resistência” dos sectores mais tradicionais. “Apesar de tudo, houve professoras e professores a fazer greve em todo o país e vão estar presentes nas manifestações”, disse.

Quem não faltou foi Margarida Bordadágua, 66 anos, que diz ter vivido, em criança, numa casa em que a violência doméstica perpetrada pelo pai era constante. “Estas questões continuam e já não deviam estar a acontecer”, lamentou. A amiga, Maria Cerqueira, 62 anos, diz mesmo que sente estar a viver-se por cá “um retrocesso civilizacional”. Pelos jovens que aceitam a violência no namoro. Por decisões judiciais que classifica como “uma desgraça”. “São as mães e as avós que estão a ser mortas. Os jovens deviam estar aqui”, defendia. Vários estavam e gritavam bem alto: “A nossa luta é todo o dia. Somos mulheres e não mercadoria.”

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