Crítica

Um castelo com surpresa dentro

Desafiada a encenar conjuntamente a ópera de Bartók e La Voix Humaine, de Poulenc/Cocteau (1958), a coreógrafa Olga Roriz optou por uma solução rara, a de tratar a segunda obra como uma extensão da primeira.

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Miguel Manso
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A nova produção de Teatro Nacional de São Carlos, apresentada no CCB, é tão desafiante e memorável como, lamento dizê-lo, o respectivo programa impresso é rotineiro e olvidável. Sobre a obra-prima de Bartók, O Castelo do Barba-Azul (1911), decidiu-se aí traduzir do francês o que, em 1994, já tinha sido traduzido para o mesmo palco, a que se adicionou, não um texto objectivo e esclarecedor como o que foi então encomendado a uma perita na obra do compositor húngaro, mas um comentário ligeiro e especulativo, que nem sequer faz jus às capacidades do comentador. É incompreensível que a dignidade musicológica dos programas de ópera tenha descido tão baixo, numa altura em que a musicologia em Portugal está mais profissionalizada do que nunca. Felizmente, isto não afecta a qualidade do trabalho artístico apresentado. Desafiada a encenar conjuntamente a ópera de Bartók e La Voix Humaine, de Poulenc/Cocteau (1958), a coreógrafa Olga Roriz optou por uma solução rara, a de tratar a segunda obra como uma extensão da primeira. Esta opção muda completamente o horizonte de compreensão da partitura de Poulenc, a qual tem um único personagem, anónimo: uma mulher que, na sua casa, fala ao telefone com o amante, prestes a abandoná-la, despoletando uma tensa e ininterrupta montanha-russa de emoções; uma mulher aprisionada num amor impossível, mas sobretudo desigual no sentimento e no poder. Ao assimilar este personagem a uma das mulheres de Barba-Azul, aprisionadas por outros tantos amores impossíveis e desiguais numa sala do seu Castelo, Olga Roriz nega realismo dialógico a este monólogo, que aparece, ao invés, como expressão de fantasia e de loucura de uma mulher levada ao limite.

Esta loucura, que borbota da angústia e da desesperança, seria o reverso da coisificação a que o Barba-Azul submete as suas amadas. O seu Castelo é a sua mente, que se divide em várias salas, em cujas paredes prega as imagens ideais das suas mulheres, às quais nega, portanto, a possibilidade de existir num tempo interactivo e evolutivo. Judite, a quarta mulher, surge no Castelo em estado de paixão e de entrega, mas essa entrega é também uma exigência de reciprocidade. Até que ponto pode ela forçar a entrada nas salas mais reservadas da personalidade do Barba-Azul? Este vai-lhe cedendo as chaves do seu universo mental, até que ela o força a revelar a sua incapacidade de ver a mulher para além da imagem que dela constrói, ou seja, o seu egocentrismo, que o leva a sacrificar o amor no altar da momento passional, passível de congelamento fotográfico, coleccionável e revisitável, num cerebral cartão de memória; uma frieza que se ergue do sangue e das lágrimas das parceiras em relações inevitavelmente goradas.

O simbolismo do libreto, com o seu ambiente claustrofóbico, é adequadamente captado pela música e submete o ouvinte a um permanente estado de tensão, mas a partitura, a cada gesto repetido e a cada porta que se abre, abre-se também ela em sugestões orquestrais subtis: o roçar metálico das lâminas e os tópicos militares na sala das armas, a cintilação fornecida pelos sopros na sala do tesouro, as alusões pastoris no variegado jardim florido, e sobretudo, a majestade harmonicamente clara, cheia e sonora na visão da largueza do reino, o vértice estrutural da ópera.

Infelizmente o artista João Pedro Fonseca, que assinou, como um dos cenógrafos, o vídeo que anima visualmente as paredes do castelo, foi surdo à beleza e à força da partitura nalguns dos seus momentos-chave: a sala do tesouro é figurada através de prédios arruinados com borrões de amarelo, o delicioso jardim das flores surge como uma só flor em cinzento, e a visão gloriosa do reino é reduzida a uns tantos pinheiros vistos de baixo e com névoa no lugar do céu.

Acresce que as transições entre imagens são frequentemente bruscas, contrariando de forma inoportuna a fluidez musical. Já na ópera de Poulenc, ritmicamente muito mais recortada, e portanto muito mais passível de intervenções contrastantes, as imagens vão-se sucedendo imperceptivelmente, sem história a contar, entregando toda a responsabilidade da animação, durante 45 minutos, à única intérprete, a soprano Alexandra Deshorties, impressionante na sua ductilidade cénica, no seu poder expressivo e no seu rigor musical: um tour-de-force.

Os solistas que a precedem em palco, o jovem baixo Marcell Bakonyi (Barba-Azul) e a meio-soprano Allison Cook (Judit), foram igualmente excelentes, sabendo representar quer a fragilidade, quer a força dos seus personagens, com vozes seguras e intencionais, em encontros e desencontros, beijos e zangas, cedências e desesperos espacializados com mão de mestre por Olga Roriz. A Orquestra Sinfónica Portuguesa, sob a igualmente sábia batuta de Joana Carneiro, esteve exemplar na transparência, na precisão e na adequação dramática. É bom quando mulheres criativas se juntam, no palco ou fora dele, para pôr mulheres sofridas, por interposto autor, a falar-nos ao coração, assim.