Benfica acusa FC Porto de lhe ter prejudicado negócios com divulgação dos e-mails

Testemunhas dos "encarnados" referem dano à imagem e reputação do clube. "Águias" exigem indemnização de 17,7 milhões de euros.

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Luís Bernardo, director de comunicação do Benfica, à chegada ao tribunal Adriano Miranda

O pedido de indemnização de mais de 17 milhões de euros que o Benfica dirigiu ao FC Porto e à empresa que detém o Porto Canal devido aos danos alegadamente causados ao clube da Luz na sequência à divulgação de e-mails entre responsáveis benfiquistas naquela estação de televisão começou a ser julgado nesta quinta-feira.

No Tribunal do Juízo Central Cível do Porto foram ouvidas quatro das 12 testemunhas chamadas pelos “encarnados”, sendo que, deste lote, três são comuns ao FC Porto. Os réus — Francisco J. Marques, director de comunicação dos portistas, Diogo Faria, comentador no Porto Canal, Fernando Gomes, Pinto da Costa e Adelino Caldeira, administradores da SAD portista — não estiveram presentes na sala de audiências.

Miguel Bento, director comercial e de marketing do Benfica, não tem dúvidas: a revelação dos e-mails no canal detido em parte pelo FC Porto afectou gravemente o modelo de negócios traçado pelos benfiquistas, originando mesmo o afastamento de várias empresas e parceiros estratégicos: “Várias coisas aconteceram [após a divulgação da correspondência electrónica]. Nesse período um negócio que estava completamente fechado com uma empresa portuguesa de alto nível teve de ser interrompido. Tivemos de fazer viagens para justificar o que se estava a passar [aos parceiros]”.

Afastamento dos adeptos do clube

O Benfica reclama uma indemnização de 17,7 milhões aos “dragões” por danos causados à imagem do clube. O director comercial, apesar de conceder que as perdas do seu departamento ascendem aos milhões de euros, recusou quantificar com exactidão eventuais prejuízos: “Estamos a falar claramente de milhões de euros. Agora, há artigos tangíveis e intangíveis e não é possível [calcular esse valor] nas áreas dos intangíveis. Sou a favor que esse exercício seja feito com rigor”.

Para o director comercial do Benfica, a atenção dada pela comunicação social à correspondência electrónica “encarnada” foi maior do que o normal e terá levado, nas palavras do próprio, a que os adeptos “desligassem” do clube: “Tivemos na nossa loja do estádio uma quebra de 32% de clientes na loja. Aumento de desistência de sócio na ordem dos 61%. Numa época em que fizemos um inédito tetracampeonato na nossa história”.

A equipa de defesa do FC Porto — composta pelos advogados Jorge Cernadas e Nuno Brandão — questionou a testemunha do Benfica sobre se as buscas das autoridades ao Estádio da Luz no âmbito da investigação e-Toupeira também poderiam ter contribuído para a perda de confiança por parte dos patrocinadores.

 “Após esses dados que está a enunciar, não tivemos necessidade de falar com os parceiros”, respondeu Miguel Bento, reafirmando que a divulgação dos e-mails foi a principal responsável pelos maus resultados económicos da temporada transacta. O director de marketing os “encarnados” recusou confirmar se a informação presente na correspondência electrónica era ou não verídica.

“Pressão e coacção sobre os árbitros”

A voz mais crítica ouvida nesta quinta-feira foi a do director de comunicação do Benfica. Luís Bernardo apontou o dedo ao FC Porto, acusando os portistas de terem uma estratégia delineada para atacar a reputação dos “encarnados”, apontando o dedo ao homólogo do clube rival.

“Houve uma divulgação de emails truncados, falseados e descontextualizados”, afirmou Luís Bernardo, acrescentando que seria muito difícil o líder máximo dos “dragões”, Jorge Nuno Pinto da Costa, não ter aprovado a revelação da correspondência electrónica: “Um canal de um clube que tem tanto à vontade que um director de comunicação revele informação provada tem de ter autorização do presidente”.

Luís Bernardo vai mais longe e alega que o conteúdo dos emails levou a que as equipas de arbitragem prejudicassem o Benfica, com receio de serem associados à suposta teia de influências do emblema da Luz: “Havia receio dos árbitros em apitar um lance a favor do Benfica porque havia a percepção de que o clube tinha uma rede. Sentiu-se sobre as equipas de arbitragem uma pressão e coacção”.

Outro dos elementos ouvidos na sala de audiências foi Renato Paiva, treinador da equipa B do Benfica. Na correspondência electrónica furtada ao Benfica estavam presentes as metodologias de treino utilizadas pela formação dos “encarnados”. Em 2017, Renato Paiva treinava os sub-17 e garante que se apercebeu de uma aproximação da estratégia dos “dragões” aos rivais: “Em termos de estrutura, o centro de estágios do FC Porto está igual à do Seixal”.

Na sexta-feira, o tribunal conta ouvir mais cinco testemunhas dos "encarnados". Os “azuis e brancos” apresentarão as suas testemunhas a 28 e 29 de Março.