Escultura de Felipe VI não foi vendida na ARCOmadrid

No próximo ano, a ArcoMadrid volta a ter um tema principal, desta vez inspirado na obra do artista Félix González-Torres.

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A escultura de Felipe VI na galeria italiana Ida Pisani Reuters/SUSANA VERA
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A escultura hiper-realista de Felipe VI, intitulada El Ninot/ O Boneco, da autoria dos artistas espanhóis Santiago Sierra e Eugenio Merino, não foi vendida na ARCOmadrid, a feira de arte contemporânea que terminou no domingo na capital espanhola. Numa entrevista ao jornal El País, os dois artistas explicaram que o coleccionador que comprar a obra por 200 mil euros com a obrigação de queimá-la não terá de violar a lei, uma vez que pode fazê-lo noutro país.

O comprador, que através de um contrato se compromete a queimar a obra num prazo de um ano, pode ser acusado de ofensas ao rei Felipe VI, porque a lei espanhola proíbe, por exemplo, a queima de uma fotografia do monarca.  

“O pensamento de oposição à monarquia é inerente à existência desta instituição”, disse Santiago Sierra na mesma entrevista, acrescentando que o rei “é um símbolo do nepotismo institucionalizado”. Embora reconheça que a peça não foi censurada pela feira, como aconteceu no ano passado com outra obra sua sobre o processo catalão, o artista diz que na ARCO “trabalharam sem descanso para evitar a sua venda”. A obra fazia parte do stand da galeria italiana Ida Pisani​​, numa feira com mais de 200 galerias, onde estiveram representadas 13 galerias nacionais.

A peça, defendem os artistas, não é anti-mercado e a ideia de que não a querem vender “é absurda”. “O que se vende é o prazer de queimar a peça, um momento único e histórico que oferecemos ao coleccionador para seu próprio desfrute. Isto também é mercado”, afirma Eugenio Merino, tal como Sierra um habitué das polémicas na feira, onde em 2012 expôs a obra Always Franco, uma instalação que apresentava uma escultura do ditador dentro de um frigorífico. “Há vários coleccionadores interessados e o contrato está actualmente a ser revisto. É uma peça complexa e comprá-la requer passos que não são vulgares”, acrescentou Santiago Sierra, sem especificar por que razão é necessária a revisão do contrato.

A opção de chamar à peça “boneco” em vez de escultura deve-se ao facto de ter sido pensada para queimar, lembrando os artistas a tradição ligada às festas populares ibéricas, como a queima do entrudo no Carnaval. “O boneco é uma escultura híper-realista feita com tanta precisão que faz pena queimá-la e essa tensão é estimulante”, continua Sierra, acrescentando que no seu conjunto El Ninot pode ser visto com um acto de regeneração.

Em 2020, com a ARCOmadrid a realizar-se de 26 de Fevereiro a 1 de Março, a feira voltará a ter como tema principal um conceito em vez de um país convidado — este ano foi o Peru. O tema It’s Just a Matter of Time inspira-se na obra de Félix González-Torres, um artista norte-americano de origem cubana que morreu em 1996, e tem como curadores Manuel Segade, director do CA2M de Madrid, onde está alojada a colecção da Fundação Arco, e o artista ​Alejandro Cesarco, um dos artistas-curadores da última Bienal de São Paulo.

González-Torres, que morreu aos 38 anos de sida, é um nome cuja relevância tem crescido nas últimas décadas, diz a ARCOmadrid num comunicado de imprensa, acrescentando que se trata de pensar “a arte contemporânea a partir de uma figura que renegava o princípio da autoridade”. 

A nova directora Maribel López, que já será a única responsável da feira que abrirá em Maio em Lisboa, explicou que a novidade da ARCOlisboa será a secção África em Foco, com curadoria de Paula Nascimento, como já tinha explicado na sua passagem pela cidade em Fevereiro. "Será o ponto de investigação que unificará a feira”, esclareceu recentemente ao El País. Outra novidade na Cordoaria, onde a feira se realiza de 15 a 19 de Maio, será rodear de esculturas o histórico edifício situado à beira Tejo.