Afinal, o que (não) é coaching?

A International Coach Federation organizou uma sessão de esclarecimento para falar sobre o que não é coaching. Defende que a actividade deve ser reconhecida e regulamentada. A Ordem dos Psicólogos Portugueses considera que esta é uma actividade do domínio da psicologia.

Foto
Unsplash/ Etienne Boulanger

Comecemos pelo inverso: o coaching não é aconselhamento, consultoria ou formação, nem tão pouco terapia. Pelo menos, segundo a definição da International Coach Federation (ICF). A profissão tem cerca de duas décadas. Está na moda, mas não é regulamentada: os ingredientes perfeitos para um mercado confuso, com desinformação, serviços que não são aquilo que anunciam ser e profissionais com credenciais duvidosas.

Sob este mote, a ICF, uma organização de credenciação de coaches profissionais a nível mundial, organizou recentemente uma sessão de esclarecimento com o objectivo de explicar o que é que não é o coaching. “É uma área muito mal tratada, por ser fácil dizer que qualquer coisa é coaching”, declara Aida Chamiça, presidente da estrutura em Portugal da ICF. Por isso, defende que a actividade deve ser reconhecida e regulamentada. Já a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) considera que esta é uma actividade do domínio da psicologia. 

Na sua mais simples acepção, o coaching é uma “parceria com o cliente, através de um processo estimulante e criativo que o inspira a maximizar o seu potencial pessoal e profissional”, define a ICF. Tipicamente parte de objectivos como aumentar a produtividade ou melhorar a comunicação — daí ter tido tanto sucesso na sua fase inicial no ambiente empresarial. Mas hoje já é bastante comum que pessoas recorram a estes profissionais a título individual. Segundo a ICF, o coach deve fazer perguntas e guiar o cliente para que o próprio consiga perceber o que tem de fazer para obter os resultados pretendidos. No entanto, não deve dar conselhos nem impor qualquer tipo de sabedoria, salvaguarda Aida Chamiça. “O coach é equivalente a um treinador de atleta. Quem tem o talento é o atleta”, exemplifica.

Uma das principais preocupações da ICF assenta na existência de um número de serviços que se apresentam como coaching, mas que na verdade exercem outro tipo de actividade. A questão é que, tratando-se esta de uma actividade não regulamentada, qualquer pessoa pode apresentar-se como coach. O consumidores que não estão bem informados tornam-se alvos fáceis. Já as grandes empresas tendem a fazer escolhas mais ponderadas, dado que têm departamentos de recursos humanos. 

O ICF apresenta-se como uma organização "isenta", no sentido em que não vende formação aos coaches — antes acredita cursos de formação e credencia profissionais. A nível internacional tem 32 mil membros, 28,8 mil dos quais são coaches credenciados. Segundo o site da ICF, estão inscritos, em Portugal, 81 membros credenciados. A organização reconhece três níveis de credenciação: Coach Associado (ACC), Coach Profissional (PCC) e Coach Master (MCC).​ Além de formação em coaching acreditada, precisam de cumprir um número mínimo de horas de experiência — que vai das 100, no caso da primeira, às 2500, no caso da última.

Tal como a ICF — que define a actividade com base em 11 competências-chave da formação dos coaches — existem outras organizações internacionais (como a European Mentoring and Coaching Council) com uma actuação semelhante, sendo que esta primeira é talvez a maior. Independentemente disso, não sendo uma actividade regulamentada, qualquer pessoa cria uma organização e começa a certificar profissionais — uma situação que é bastante frequente, de acordo com a líder da estrutura da ICF em Portugal. Para grande parte dos consumidores, será difícil distinguir uma certificação credível de outra que não é.

Por isso, a missão da instituição é informar. “Queremos ajudar o público, em geral, a saber o que é o coaching, em que situações é que é aplicável e, sobretudo, perceber como é que podem ter critérios para escolher um coach, que trabalhe de forma rigorosa, profissional e ética”, afirma Aida Chamiça. Ao mesmo tempo, continua, "gostaríamos de ter o espaço para podermos começar um trabalho de fazer a regulação da profissão e a legislar sobre esta profissão. Teria de haver vontade política de reconhecer uma actividade que existe e já tem um nível de amadurecimento". A presidente da ICF afirma que a nível internacional "estão a dar-se passos neste sentido".

PÚBLICO -
Foto
Unsplash/rawpixel

Reconhecer a actividade

Paulo Fonseca, coordenador do Departamento Jurídico e Económico da Deco​, lembra que, "em primeiro lugar, não existe nada que não tenha uma regulamentação". "O que acontece é que para algum determinado tipo de modelos de negócio existe regulamentação específica que incide sobre o mesmo", explica ao CULTO. Nas restantes, "aplicamos sempre aquilo a que chamamos regras gerais, as regras do Código Civil". Tendo em conta que se tratam de "regras muito amplas", têm de ser analisados caso a caso e por vezes "há questões mais difíceis de aplicar". Por oposição, certas actividades "precisam de uma maior clareza e uma maior certeza na aplicação do direito".

O que leva, então, uma actividade a necessitar de uma legislação própria? De acordo com o jurista, tem a ver com o "interesse público" da mesma. "Ou seja, situações que pela sua importância para o consumidor, pela sua importância para a economia do país, pela sua importância para a segurança, para o tráfego jurídico, é importante que exista uma legislação específica — até porque podem estar em causa direitos do consumidor, como por exemplo a saúde, a segurança."

O jurista lembra o caso das terapêuticas não convencionais, que cujo exercício foi regulamentado em 2013, pela lei n.º 71/2013, que define por exemplo critérios de acesso a estas profissões. "Começou por existir determinado tipo de terapêuticas e chegou-se a um consenso de que era necessário uma formação idónea para que os profissionais estivessem aptos a poder comercializar as suas prestações. Mas aí estava em causa uma questão de saúde e de segurança para consumidor".

Aida Chamiça afirma que "nas sessões de coaching a pessoa fica muito exposta”. Além da mais óbvia repercussão de o cliente pagar por um serviço que não está a ter, a presidente da estrutura da ICF em Portugal alerta para a existência de pessoas ditas coaches com “abordagens que podem ser lesivas do saúde e integridade do cliente” ou “que fragilizam o cliente ao não respeitarem as suas formas de pensar, impondo soluções”. Aponta ainda para situações em que o suposto coach “comenta o conteúdo da sessão com chefias [quando é praticado em empresas] ou com outros terceiros”, algo que, “mesmo com boa intenção, pode prejudicar gravemente [o cliente].”

"Se um profissional não tem compromisso com o código de ética [da ICF, neste caso] e não há nenhum dispositivo para o cliente activar em caso de quebra de ética o cliente fica mais vulnerável", aponta.

O coaching e a psicologia

A OPP definiu há vários anos uma especialidade de coaching psicológico — que actualmente mais de 70 psicólogos praticam. De acordo com o bastonário da OPP Francisco Miranda Rodrigues, "as metodologias de coaching são claramente do domínio da psicologia". Por isso, defende que para se ser coach tem de ser primeiro formado em psicologia. E considera que "a prestação de serviços psicológicos por profissionais não qualificados coloca uma ameaça à saúde pública".

"Sendo uma metodologia, o coaching não é uma profissão e não necessita de regulamentação acrescida. O que precisa é que se cumpra a lei e apenas os psicólogos o pratiquem", defende. "Quanto muito seria útil uma clarificação dos actos", continua.

Para o bastonário, "o coaching pode ser entendido como a aplicação sistemática da ciência comportamental à melhoria da experiência de vida, do desempenho no trabalho e do bem-estar dos indivíduos, grupos e organizações, que não apresentam problemas de saúde mental clinicamente significativos ou níveis muito elevados de sofrimento". Assim, situa-o na intersecção da psicologia clínica, do desporto, organizacional e da saúde. Lembra ainda que "a psicologia não é apenas para intervenção quando existe um problema, mas também preventivamente e do ponto de vista do desenvolvimento da pessoa".

O bastonário afirma que quem recorre a um psicólogo tem do seu lado o "conhecimento baseado na evidência científica" e a consciência de que o profissional em questão "é escrutinado". "Neste momento, o coaching é pautado por muitas pseudo-qualificações, acreditações sem significado e grandes nomes auto-reconhecidos como líderes na matéria", critica. Sobre o sistema de acreditações do ICF comenta que "têm o valor que o mercado lhes dá".

Aida Chamiça reconhece que "os limites entre o coaching e as intervenções psicoterapêuticas devem ser mantidos", mas insiste que coaching não é psicologia. "Não explora informação do passado, pelo contrário, está firmemente enraizado no presente, para construir o futuro. Coaching não é sobre patologias, não é sobre temas de saúde mental, nem é terapia. Qualquer tentativa de utilizar o termo coaching para estes objetivos será uma utilização inadequada deste termo", comenta.

Remete ainda para um documento elaborado no âmbito do Comité Económico e Social Europeu (CESE) e assinado pela ICF, pelo EMCC, pela Association for Coaching e pela Société Française de Coaching, que define estatutos da actividade. "O coaching é um fenómeno sem precedentes que requer novos paradigmas de pensamento", remata.