Editorial

As pressões sobre a Huawei precisam da resposta do Governo

Bem sabemos que o Governo e a Presidência andam enlevados com a sedução dos yuans. Mas, se não ajudarem a esclarecer o que está em causa, ou se insistirem que só se trata de um negócio, estarão a inquinar com suspeição o que tem de ser uma relação transparente.

Quando o embaixador e um alto funcionário da Administração dos Estados Unidos chamam os jornalistas em Lisboa para lhes dar conta de “riscos” sobre a segurança das comunicações numa conversa que por norma ocorre nos bastidores, há razões para nos preocuparmos.

Aquilo que nos foi anunciado como mais um entre os 17 acordos celebrados no âmbito da visita do Presidente chinês, Xi Jinping, a Portugal pode ser afinal mais do que um negócio “celebrado entre empresas”, como há uns meses o Governo se apressou a comentar a relação entre a Altice e a Huawei. Com a Comissão Europeia a pressionar os Estados-membros a não conceder as redes de 5G aos chineses, com os americanos a pedir o chumbo do negócio, fica no ar a sensação de que algo de grave se está a passar.

À partida, o domínio de uma infra-estrutura sensível como as redes móveis de quinta geração por uma empresa chinesa pode ser vista com neutralidade. Afinal, depois dos casos escandalosos de entrega de dados privados por parte da Google ou da Facebook, os americanos têm muito pouco a ensinar ao mundo sobre segurança ou privacidade.

Mas tudo muda de figura quando se sabe que a Huawei foi fundada por ex-funcionário da secreta do Exército Vermelho; quando se tem a certeza de que as empresas chinesas não se movem num quadro legal e cultural que trave a sua subordinação aos interesses do Estado; e quando se constata que o actual regime chinês está a dar passos em direcção a um feroz controlo autoritário sobre os cidadãos.

Faz por isso sentido a iniciativa do PSD que pretende levar ao Parlamento o acordo entre a Altice e a Huawei. Se fosse só a Administração de Trump a fazer pressão, podíamos suspeitar de um capítulo na guerra comercial entre os EUA e a China. Mas quando a União Europeia se junta aos receios, ou quando a Austrália ou a Nova Zelândia afastam os chineses das redes 5G, pode-se fazer tudo menos assobiar para o lado.

Bem sabemos que o Governo e a Presidência andam enlevados com a sedução dos yuans. Mas, se não ajudarem a esclarecer o que está em causa, ou se insistirem que só se trata de um negócio, estarão a inquinar com suspeição o que tem de ser uma relação transparente. Digam, portanto, senhores ministros, o que pensam fazer para podermos ignorar os remoques de Washington e os avisos de Bruxelas.