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Roger McNamee, o homem que está a pôr sal nas feridas do Facebook

Roger McNamee já era um dos magnatas de Silicon Valley quando o Facebook estava a dar os primeiros passos. Nessa altura, um ainda inexperiente Mark Zuckerberg foi ter com ele à procura de conselhos e investimento. Viria a tornar-se mentor do génio da tecnologia quando este tinha 22 anos. Agora, McNamee escreveu um livro a acusar a rede social de espalhar notícias falsas e de pôr a democracia em risco.

Alguns meses após o início de uma reforma confortável, Roger McNamee decidiu embarcar numa missão que prometia alienar muitos dos seus amigos, que tinha poucas possibilidades de sucesso imediato e que podia, a longo prazo, custar-lhe uma fortuna.

McNamee encarregou-se da missão de levar um mundo complacente a defender-se do Facebook. Já outros tinham soado alarmes semelhantes, mas este investidor de 62 anos trouxe uma credibilidade pouco comum à causa e detalhes em primeira mão.

Além de ser um dos financiadores mais ilustres na história de Silicon Valley, foi um dos primeiros a investir no Facebook, foi mentor de Mark Zuckerberg e foi uma figura fundamental na contratação da “número dois” da rede social, Sheryl Sandberg, autora do manifesto feminista Lean In.

Demorou pouco para o Facebook deixar de ser a única preocupação de McNamee. Quanto mais investigava, mais o investidor começava a perceber que o Google, que não conhecia tão bem, tinha de ser pelo menos tão perigoso para a democracia, saúde pública, privacidade e economia em geral como a outra plataforma da Internet. E mais: McNamee suspeitava de que ambas podiam estar a explorar “elementos frágeis da psicologia humana” para obter lucros de formas que só se iam tornar mais assustadoras.

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Roger McNamee Rob Kim/Getty Images

Estas conclusões — que McNamee e um grupo chegado de aliados passaram os últimos dois anos a partilhar com políticos, procuradores de Justiça, telespectadores e líderes de tecnologia — são agora detalhadas no novo livro do investidor, Zucked: Waking up to the Facebook Catastrophe (Despertar para a Catástrofe do Facebook; o livro, lançado no dia 5 de Fevereiro, ainda não foi traduzido para português).

São conclusões que o têm levado ao desespero. “Algumas das coisas que descobri deixaram-me de coração partido”, diz McNamee, sentado numa sala de estar ampla forrada com painéis de madeira, a uma hora e meia a sul de São Francisco, nos EUA. “Esta tem sido a experiência mais decepcionante de toda a minha vida”, acrescentou, medindo cada palavra cuidadosamente, para lhes dar ênfase. “Cada detalhe tem sido arrasador. Passei a minha carreira inteira a construir empresas assim. E agora tenho de desafiar duas delas por quem tive o maior respeito durante imenso tempo. Que empregam muitas pessoas com quem eu gostei mesmo de trabalhar.”

McNamee ganhou muito dinheiro com investimentos na fase inicial do Facebook e do Google e mantém-se “incrivelmente orgulhoso” do trabalho que fez com ambas as empresas. O magnata de Silicon Valley mantém acções significativas no Facebook como prova de que não está a agir em prol de interesses financeiros. Até há pouco tempo, ainda considerava Zuckerberg — “Zuck” para o seu círculo mais chegado — e Sandberg amigos. Foi por isso que, quando começaram a surgir as primeiras provas de que o Facebook estava mesmo “a causar enormes danos”, McNamee ficou chocado com a relutância de ambos arcarem com as consequências.

Em 2017, o Facebook admitiu que 126 milhões de utilizadores tinham sido expostos a interferências orquestradas pela Rússia nas eleições norte-americanas. Em Fevereiro de 2018, o procurador especial Robert Mueller acusou formalmente 13 cidadãos russos e três organizações em casos que mostraram a facilidade com que Facebook, Instagram e Twitter foram usados para espalhar desinformação, semear a discórdia e suprimir votos nas eleições presidenciais norte-americanas em 2016, que deram a vitória a Donald Trump.

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Cem réplicas do patrão do Facebook, Mark Zuckerberg, com uma t-shirt com o slogan "fix fakebook". O protesto foi organizado pela AVAAZ, em frente ao Capitólio, em Washington DC, em Abril de 2018 MICHAEL REYNOLDS/EPA

No mês seguinte, as Nações Unidas revelaram que a falta de controlo e proliferação do discurso de ódio na Birmânia no Facebook tinha desencadeado “uma limpeza étnica” no país (as notícias falsas na rede social — que culpam a minoria muçulmana rohingya dos males do país — levaram militares da Birmânia a atacar, violar e assassinar membros dessa comunidade).

Dias mais tarde, surgiram notícias que revelavam que a consultora britânica Cambridge Analytica — que trabalhou com a campanha presidencial de Trump e com a equipa que fez campanha para a saída do Reino Unido da União Europeia — tinha recolhido indevidamente dados de até 87 milhões de pessoas com conta no Facebook. A rede social tinha encoberto o problema durante dois anos.

Desde então, as más notícias têm continuado a atingir o Facebook. E também o Google, que no mês passado foi multado com um valor recorde de 50 milhões de dólares (cerca de 44 milhões de euros) pelo Governo francês por causa da forma como usa os dados dos utilizadores.

“As plataformas da Internet aproveitaram-se de 50 anos de confiança e boa vontade construída pelos seus antecessores”, escreve McNamee no seu livro. “Aproveitaram-se da vantagem da confiança [dos utilizadores] para espiar todas as nossas acções online e fazer dinheiro a partir dos nossos dados pessoais. No processo, fomentaram o discurso de ódio, teorias da conspiração e desinformação e permitiram interferência eleitoral. As empresas escolheram inflacionar os seus lucros artificialmente ao diminuírem a responsabilidade cívica. As plataformas têm prejudicado a saúde pública, enfraquecido a democracia, violado a privacidade dos utilizadores e, no caso do Facebook e do Google, ganho poder monopolístico. Tudo em nome do lucro. E ninguém a trabalhar do lado de dentro das plataformas da Internet contestou estes efeitos o suficiente para tomar uma posição pública contra.”

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Para McNamee, a melhor solução passa por fragmentar aquelas empresas e está a tentar convencer reguladores e políticos a levar por diante esta ideia.

Tecnologia e música psicadélica

McNamee tem sido um evangelista da tecnologia. É também um capitalista dedicado, embora com “um sistema de valores hippie” autodefinido, que reflecte o seu outro grande interesse: tocar guitarra numa banda de rock psicadélica.

O empresário de Silicon Valley nunca procurou desempenhar o papel de activista: “Estão a ver aqueles filmes de comédia em que todos os rapazes da tropa aparecem numa fila e quando alguém procura um voluntário dão todos um passo atrás menos um? Foi basicamente assim que isto começou. Eu estava a olhar para esta coisa e a pensar: ‘Bem, quem é que se vai levantar e fazer algo sobre isto?’ E percebi que a minha biografia podia ser muito útil. Fui analista toda a minha vida. Sou muito bom a reconhecer padrões. E confio nos meus instintos. Confio em pessoas. E estou disposto a aceitar que apenas conheço uma pequena fracção daquilo de que preciso saber sobre isto.”

O homem que está a enfrentar duas das maiores e mais poderosas empresas na história lembra que já “sobreviveu a dois enfartes, uma operação de coração aberto e a uma cirurgia para salvar a vida aos dez anos”. Isto para além de, a meio dos 30 anos, ter acordado “com o quarto a arder na manhã de Natal” e de ouvir um médico dizer-lhe: “Quase de certeza que vai desenvolver um cancro no estômago. Tem de alterar radicalmente a sua dieta.” McNamee fez uma pausa na enumeração: “Eu sou uma pessoa que já teve de absorver uma tremenda quantidade de más notícias.”

O Facebook tinha apenas dois anos quando McNamee conheceu Mark Zuckerberg. O futuro titã da Internet tinha então 22 anos, estava a meio de “uma crise existencial” e à procura de alguém que o aconselhasse. McNamee, que na altura tinha 50 anos, era um dos líderes da Elevation Partners, uma empresa de capital de risco em tecnologia e media digitais que tinha fundado em conjunto com Bono, o vocalista dos U2, e uma mão-cheia de luminárias de Silicon Valley.

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“Se eu apenas conseguir passar uma mensagem, que seja a de que estas plataformas dependem de nós” Rob Kim/Getty Images

Nesse primeiro encontro, Zuckerberg e McNamee sentaram-se, sozinhos, a cerca de um metro de distância numa sala de reuniões. McNamee começou por fazer um pequeno discurso em que antecipava que “se ainda não aconteceu”, em breve, a Microsoft ou a Yahoo (na altura, o portal online era outra das grandes empresas da Internet) iriam oferecer 500 milhões de dólares pelo Facebook e que todos iriam pressionar Zuckerberg para a aceitar. Mas o acordo devia ser rejeitado.

“O que se seguiu foi o maior dos silêncios que já tive de aguentar numa reunião num registo de um para um”, escreve McNamee. “O Zuck estava perdido nos seus pensamentos, a exibir toda uma gama de poses de ‘reflexão’… Finalmente, relaxou e olhou para mim. Disse: ‘Não vais acreditar nisto… Mas uma das duas empresas que mencionaste quer comprar o Facebook por mil milhões de dólares. E basicamente todos reagiram da forma que previste. Acham que eu devia aceitar. Como é que sabias?”

McNamee gostou de Zuckerberg. Nos três anos seguintes, iria aconselhar este jovem rapaz, que descreve como “intenso”, várias vezes por mês. McNamee admite que havia outros mentores no processo, “muitos com um papel bem maior”, mas entre 2006 e 2009 Zuckerberg seguiu os conselhos de McNamee mais frequentemente do que o contrário.

A intervenção com mais impacto veio em 2007, quando Zuckerberg revelou a McNamee que queria contratar alguém que poderia vir a ser um “número dois” forte na empresa. McNamee pensou logo em Sherlyn Sandberg, que na altura era uma executiva do Google que o tinha apresentado a Bono uns anos antes.

Nem Zuckerberg, nem Sandberg estavam certos da combinação, mas McNamee organizou uma reunião entre os dois. E Sandberg juntou-se a Zuckerberg como directora de operações do Facebook em Março de 2008. Por essa altura, McNamee, Bono e outro parceiro da Elevation tinham feito investimentos pessoais no Facebook.

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Mark Zuckerberg Stephen Lam/Reuters

Outras oportunidades surgiram para a empresa comprar mais acções da rede social e, por ocasião da oferta pública inicial do Facebook (IPO, na sigla inglesa), que quebrou recordes em 2012, documentos oficiais revelavam que a Elevation Partners detinha 1,5% da empresa.

Saltando na história até Outubro de 2016, McNamee já não estava directamente envolvido no Facebook desde 2009, mas continuava a descrever-se como “um enorme fã”. Durante a tumultuosa campanha presidencial nos EUA naquele ano, porém, começou a ficar cada vez mais preocupado com os algoritmos da plataforma, que pareciam estar a acentuar a polarização política no país.

McNamee estava particularmente alarmado com relatos sobre suspeitas de interferência russa nas eleições. Questionava-se se a Rússia estava entre os agentes a usar o Facebook para espalhar notícias falsas e semear a divisão.

A hierarquia do Facebook parecia estar a ignorar o problema. McNamee escreveu um memorando com os seus receios, mas, antes de o publicar num blogue de tecnologia, enviou-o a Zuckerberg e Sandberg, por sugestão da sua mulher, Ann.

No texto, que nunca chegou a ser publicado, McNamee dizia aos dois executivos do Facebook: “Estou desiludido. Estou envergonhado. Tenho vergonha.” E motivava-os a “ser mais socialmente responsáveis”.

Tanto Zuckerberg como Sandberg responderam ao email horas depois de ser enviado. McNamee foi aconselhado a falar com o responsável do Facebook pelas parcerias de media, que ouviu pacientemente as suas preocupações durante semanas, mas “nunca se mexeu”.

Em Fevereiro de 2017, McNamee concluiu que o Facebook era um “perigo claro e presente para a democracia” liderado por uma equipa em negação.

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Para além da tecnologia, o outro grande interesse de McNamee é tocar guitarra numa banda de rock psicadélica Scott Dudelson/Getty Images

Manipulação e espionagem

Quase dois anos mais tarde, estou sentado ao pé daquele que tem de ser o maior fogão a lenha que já vi numa sala de estar para visitas, na casa de McNamee. Fica numa colina verdejante num dos enclaves de Silicon Valley que ainda não foi dominado por escritórios de tecnologia ou pela expansão suburbana. Nas paredes, há quadros do Stanley Mouse, que também está por detrás da arte da Moonalice, a banda de McNamee. E há um cobertor de recordação de uma digressão de Paul McCartney deitado por cima do sofá de couro à nossa frente.

Um dos quartos ao fundo do corredor, que foi eleito para a sessão fotográfica com McNamee, está recheado com mais livros e mais arte psicadélica. Por cima, há toda uma galeria de modelos em tamanho real do Tintin, Capitão Haddock, Yoda, R2-D2 e Jery Garcia (guitarrista, vocalista e letrista da lendária banda de rock psicadélico Grateful Dead).

McNamee entra lentamente na sala. O cabeço grisalho está dividido ao meio, por cima de óculos à John Lennon. Senta-se, abre uma lata de Coca-Cola Light e explica-me a base do seu argumento. “O problema com o Facebook e com o Google está no modelo de negócio que os obriga a manipular a atenção.” McNamee olha-me directamente nos olhos: “E para manipular atenção precisam de dados, o que os obriga a estar no negócio da espionagem.”

“Quando manipulamos a atenção das pessoas na área da publicidade, que é como o Facebook e o Google têm feito isto, está-se essencialmente a dar aos anunciantes o acesso aos mais profundos sentimentos e emoções de dois mil milhões de pessoas.”

E, para todos os efeitos, esses segredos estão mesmo à venda. Em 2016, os russos estavam entre os compradores. “A linha entre a manipulação de atenção e a manipulação do comportamento é muito ténue. Não acredito que o Facebook ou o Google estejam conscientemente a tentar manipular o nosso comportamento. O que acredito é que criaram plataformas que permitem aos anunciantes fazer isso”, diz McNamee.

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Sheryl Sandberg Yves Herman/REuters

Os algoritmos do Facebook também favorecem a desinformação acima da precisão e mensagens com uma linguagem extrema acima de mensagens neutras, porque são aquelas que geram uma maior atenção e ligação dos utilizadores e, com isso, uma maior receita publicitária.

Os utilizadores têm pouca consciência da extensão com que abdicaram da sua privacidade e da sua vontade própria. Enormes sistemas de análise de dados estão por detrás de ambas as plataformas e seguem os utilizadores ao longo das suas pesquisas na Internet, “quando [se usam estas plataformas], pensamos que estamos a usá-las para ver cachorrinhos ou comprar um martelo, mas na realidade estamos a jogar xadrez tridimensional contra uma gigantesca rede de inteligência artificial que não só sabe tudo sobre nós, como pode avaliar o nosso estado emocional com base na forma como arrastamos o rato do computador”.

Sem o Facebook, argumenta McNamee, “não há sequer uma hipótese de tanto o 'Brexit', como o resultado das eleições em 2016 [vitória de Trump] terem acontecido”.

As ameaças à saúde pública e à democracia estão intrinsecamente ligadas. “O Facebook e o Google causam danos à saúde pública ao criar hábitos que podem evoluir para vícios comportamentais”, disse McNamee.

Estes vícios comportamentais começam com crianças pequenas, capazes de encontrar vídeos hiperestimulantes na Internet, que não são apropriados à sua idade. Depois, passam a pré-adolescência e adolescência a ver bullying na rede, desenvolvem um profundo medo de ficar de fora e de perder experiências “únicas” graças àquilo que vêem nas redes sociais (em inglês, o fenómeno é conhecido pela sigla FOMO, Fear Of Missing Out).

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Sheryl Sandberg/Reuters

O processo culmina com adultos que são empurrados para “bolhas de filtros e bolhas de preferências”: uma espécie de Truman Show personalizado em que consomem apenas notícias e opiniões que servem para reforçar preconceitos que já têm, movimentando-os para “visões cada vez mais extremas”, com consequências catastróficas para o discurso público.

Ambas as empresas acreditavam que as suas missões — “recolher toda a informação do mundo, no caso do Google; unir o mundo inteiro, para o Facebook” — eram tão importantes que “justificavam todos os meios para atingir os fins”. E ambas as empresas fizeram os possíveis para eliminar qualquer “fricção”, tornando os seus serviços grátis e o mais convidativos possíveis.

Para McNamee, este processo de “eliminar fricção” é essencialmente “eliminar todas as barreiras de segurança que poderiam preveni-las de causar danos”. “E é por isso que se rejeitam críticas quando chegam acusações legais ou de regulação; é por isso que se pede desculpa, que se promete fazer melhor… E segue-se em frente.”

No caso do Facebook, “estas não são más pessoas”. “O problema aqui é que falharam em reconhecer que havia um nível acima do qual já não se pode evitar assumir responsabilidades pelas nossas acções. Não interessa o que a lei diz.”

Até ao dia depois das eleições norte-americanas, McNamee diz que “estava disposto a dar-lhes uma oportunidade”, porque achava que “nunca lhes tinha ocorrido que as coisas que estavam a acontecer nas suas plataformas poderiam influenciar o resultado de eleições”. “Acho que não tinham noção do poder que tinham. Mas, depois de saberem, o jogo mudou dramaticamente.”

Em Novembro de 2017, “já não se podia plausivelmente alegar ignorância” sobre o impacto negativo da plataforma. Foi nesta altura que Chamth Palihapitiya, um antigo vice-presidente do Facebook, disse, num discurso na Universidade de Stanford: “Acredito que criámos ferramentas que estão a rasgar o tecido a partir do qual a sociedade funciona.”

Zuckerberg e Sandberg podiam ter respondido de forma positiva, escreve McNamee no seu livro. Podiam ter dito: “Fizemos asneira! Vamos fazer tudo ao nosso alcance para resolver os problemas e reconquistar a confiança.” Só que não o fizeram. “Ao não aproveitarem o arrependimento de Palihapitiya como um momento de aprendizagem, o Facebook quis evitar responsabilidade pela interferência russa nas eleições, bem como todos os outros problemas que estavam a chegar à tona.”

“Um miúdo esquisito”

Para uma criança que cresceu no meio de uma grande e feliz família de classe média no norte de Nova Iorque, McNamee não fazia barulho nem tinha grandes ambições. A infância foi marcada por um grave distúrbio digestivo aos dois anos e um coágulo de sangue quase fatal depois de uma queda aos dez. Tudo isto cimentou a sensação de ser um estranho.

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O livro de McNamee

Os pais eram muito activos na política e na luta pelos direitos cívicos. Tornando-se cada vez mais “um miúdo esquisito”, McNamee foi infeliz durante toda a educação secundária e passou o último ano em França.

Em termos académicos, “despertou tarde” para os estudos, mas conseguiu entrar em Yale e adorou. Só que em 1977, o pai morreu de cancro deixando na corda bamba as finanças da família. Não havia dinheiro para McNamee terminar os estudos. Trabalhou em vendas de publicidade durante dois anos e meio até conseguir dinheiro suficiente para voltar a Yale, onde se juntou a uma banda de rock e conheceu a sua futura mulher.

Seguiu-se uma formação numa escola de administração de empresas, e um trabalho numa empresa de gestão de investimentos. “Comecei a minha carreira no primeiro dia do ‘bull market’ [fase positiva do mercado financeiro] de 82”, lembra McNamee. “Deram-me tecnologia [como sector para cobrir].”

Foi o começo de 35 anos de prosperidade a nível pessoal que McNamee atribui a “sorte pura e dura”, os desafios de uma infância que o deixaram “confortável em ser diferente” e à capacidade de tocar guitarra, que o tornaram parte do tecido social de um novo sector de tecnologia que estava a emergir.

Quando McNamee chegou, Silicon Valley era um lugar muito diferente daquilo que é hoje. Ao longo da segunda metade do século XX, limites no poder dos processadores, memória, armazenamento e capacidade da Internet moldaram os valores do sector de tecnologia existente. As recompensas iam para engenheiros com experiência, capazes de encontrar soluções funcionais e fazer compromissos.

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"Não acredito que o Facebook ou o Google estejam conscientemente a tentar manipular o nosso comportamento. O que acredito é que criaram plataformas que permitem aos anunciantes fazer isso” Robert Galbraith/Reuters

Como consequência, a maioria dos líderes já tinha 40 anos ou mais quando McNamee começou a cobrir o sector em 1982. Steve Jobs e Bill Gates — empreendedores que McNamee conheceu no começo das suas carreiras — destacavam-se porque a sua juventude tornava-os “completamente fora do baralho”. “Os constrangimentos daquele tempo impuseram limites à arrogância e à ignorância.”

A indústria também beneficiou de décadas de uma fé pública acumulada em torno do desejo de progresso tecnológico, como foi exprimido de forma memorável por Ronald Reagan no seu discurso em 1989 em Londres, pouco antes da queda do Muro de Berlim. “O Golias do totalitarismo vai ser derrubado pelo David do microchip”, antecipou Reagan. “Acredito que mais do que exércitos, mais do que diplomacia, mais do que a melhor das intenções das nações democráticas, a revolução da comunicação vai ser a maior força no desenvolvimento da liberdade humana que o mundo já viu.”

E tudo mudou. Por volta de 2000, assim que a primeira bolha da Internet rebentou e se desbravou terreno para uma nova geração de negócios, os limites que tinham sempre limitado as empresas de tecnologia “finalmente desapareceram”, diz McNamee.

Já não eram precisos 100 milhões de dólares para construir a infraestrutura de uma empresa de software porque se podia alugar esse software à hora e, ainda assim, conseguir atingir objectivos de crescimento impensáveis.

Jovens empreendedores com boas ideias já não precisavam de ter uma equipa de veteranos grisalhos em redor.

Muitos dos recém-chegados vinham inspirados pelo etos libertário da equipa que começou o serviço online PayPal, colectivamente conhecida como “a máfia do PayPal”. Os membros do serviço de pagamento tinham seguido em frente para fundar empresas como a Tesla, SpaceX, Linkedin, YouTube e Yelp ou para fornecer parte do financiamento inicial do Facebook e de muitas outras empresas.

Aos olhos de McNamee, foi o momento em que Silicon Valley deixou de estar preso às raízes utópicas da contracultura da década de 60. Steve Jobs, apesar de todas as suas falhas de carácter, via a tecnologia como uma força humanitária e via o computador como “uma bicicleta para a mente”. Bill e Melinda Gates já estavam a dedicar a fortuna a lutar contra a pobreza e doenças em todo o mundo.

O libertarianismo provou-se “francamente muito atraente no Valley, porque a possibilidade de ser-se absolvido das consequências das nossas acções era incrivelmente conveniente.”

McNamee começou a reparar que o mundo em que se movimentava tinha mudado. E que agora estava a lidar com empresários com um sistema de valores tão diferente do seu que “não podia, de boa fé, investir”. O problema é que não podia estar a gerir um fundo de investimento se “não estivesse disposto a apostar no melhor que Silicon Valley tinha para oferecer”.

Rejeitou oportunidades para investir no Spotify (“algo que vai prejudicar músicos”) e na Uber (porque funciona “com uma falta de preocupação para com as comunidades em que opera e as pessoas que conduzem os carros”).

Apesar do seu lema inicial (“ser rápido e partir coisas”), o Facebook parecia ser uma excepção, diz McNamee. “Quando fiz o investimento, foi exclusivamente porque eu pensava que o Mark era diferente.”

Continua a pensar assim.

“Não estou a dizer que ele é um ser humano perfeito; estou só a dizer que ele não é um mau ser humano. A Sheryl também não é uma má pessoa. Mas têm pontos cegos, e estão a receber péssimos conselhos de pessoas que lhes deviam dar melhores conselhos.”

Ainda há mais para fazer

O activismo de McNamee começou no início de 2017. Em Abril daquele ano juntou forças com Tristan Harris, um antigo informático no Google que deixou a empresa para construir uma organização dedicada a defender uma abordagem mais humana à tecnologia.

Em Julho, foram juntos a Washington DC para uma primeira reunião com Mark Warner, da Comissão dos Serviços Secretos do Senado, uma das entidades a investigar a possibilidade de interferência russa nas eleições de 2016. Mais tarde nesse ano, um antigo colega de escola de McNamee juntou-se ao grupo: Jim Steyer, o fundador da Common Sense Media (uma organização norte-americana que se dedica a informar pais sobre os efeitos da tecnologia e dos media).

Foi Steyer que conseguiu uma reunião entre McNamee e Eric Schneimerman, que naquela altura era o procurador-geral de Nova Iorque. Em poucos meses, 37 outros procuradores começaram a investigar o Facebook.

Por volta de Janeiro de 2018, era claro que os esforços do trio McNamee/Harris/Steyer começavam a atrair atenção em Silicon Valley.

Andrew Bosworth, um membro da equipa de gestão do Facebook, escreveu no Twitter: “Há 12 anos que trabalho para o Facebook e tenho de perguntar: quem raio é Roger McNamee?” Esta a mensagem fez as delícias do alvo: “Foi um favor e tanto, certo? Tinham-nos ignorado o ano anterior. A revelação de que nos tinham ignorado naquele momento em particular não poderia ter sido mais útil.”

McNamee não vê quaisquer hipóteses de os gigantes da tecnologia aceitarem a responsabilidade de mudarem eles mesmos e acredita que a intervenção dos governos é o caminho mais provável para que isso aconteça.

A equipa de McNamee alertou tanto “elementos-chave na administração Trump”, como Nancy Pelosi, a presidente democrata da Câmara dos Representantes nos EUA. “Não se pode resolver o problema até se mudar o modelo de negócio”, diz McNamee, acrescentando que tanto o Google como o Facebook chegaram a uma escala monopolística que é pouco competitiva e má para a economia.

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"Algumas das coisas que descobri deixaram-me de coração partido" Rob Kim/Getty Images

É um argumento que toca tanto políticos conservadores a favor do empreendedorismo, como liberais socialmente conscientes.

“A razão pela qual o Google e o Facebook são duas das empresas mais lucrativas de sempre é porque estão a causar todos estes estragos e não estão a pagar por nada”, diz. “Da mesma forma que as empresas de carvão nunca pagaram pela poluição e os problemas de saúde que causaram… São grandes empresas porque não se responsabilizaram pelas suas acções.”

“Se eu apenas conseguir passar uma mensagem, que seja a de que estas plataformas dependem de nós”, diz McNamee. “Sem utilizadores não são nada. Nós temos o poder de provocar a mudança. A questão é: do que é que estamos dispostos a abdicar para tornar o mundo num sítio melhor?”

McNamee já abdicou de muito. Há “muitas pessoas que já não querem estar associadas a mim, porque Silicon Valley é como um clube e não é lucrativo falar mal das maiores pessoas no Valley.” O investidor também teve de aprender a deixar de estar “enormemente, enormemente ligado, de uma forma comportamental, às plataformas”, ao eliminar temas políticos do feed de notícias do Facebook e ao evitar usar o Google (usa o DuckDuckGo, um motor de pesquisa criado em 2008 que não recolhe nem partilha dados dos utilizadores, nem mostra anúncios personalizados)

Roger McNamee continua a receber “ondas” de ataques pessoais “vindos do Facebook” sobre a sua campanha. A empresa está actualmente a tentar desacreditar o seu livro. Um porta-voz do Facebook disse ao New York Times: “Levamos as críticas a sério. Ao longo dos últimos dois anos, mudámos seriamente a forma como operamos com o intuito de melhor proteger a segurança das pessoas que usam o Facebook. A realidade é que o Roger McNamee não está envolvido com o Facebook há uma década.”

Mas o Facebook também está a lutar para reconquistar a confiança dos utilizadores e investidores depois de ver o valor das suas acções cair um terço desde Julho. Na cimeira de Davos, no mês passado, Sandberg disse que a empresa “não tinha antecipado todos os riscos de ligar tantas pessoas”. E reconheceu que é preciso “voltar a ganhar a confiança”.

McNamee não se arrepende de ter tomado uma posição. E ainda não acabou. “Dizer a verdade a quem está no poder é uma coisa pesada para qualquer pessoa. É melhor que seja alguém como eu. Sou mais velho. Estou numa posição melhor para perder do que muitas pessoas, e tenho uma personalidade de quem está habituado a ter todos a ignorarem-me ou a não gostarem de mim. Se é uma boa sensação? Nop. Nunca foi. Mas de certa forma, aprendi a viver com isso.”

McNamee sorri convicto: “Todos os dias acordo e pergunto-me, ‘Ainda estou a fazer isto?’ Todos os dias, penso sobre o assunto, normalmente por pouco tempo, e digo, ‘Yep, há mais que tem de ser feito.”