Crónica

Morrer é mau. Viver no artifício é pior

Agora temos a fantasia de que somos livres por termos muito por onde escolher.

Antigamente é que era. Nascia-se, estudava-se e entrava-se na faculdade. Era-se engenheiro e doutor ou professora e enfermeira. Casava-se com alguém do sexo oposto, tinha-se dois filhos, comprava-se um carro e aguentava-se a família. Escolhia-se entre a URSS e EUA, 1.º e 2.º canal, Stones ou Beatles e era-se feliz para sempre.

Ironizo. Mas não há muitos anos o ideal de vida era esse. O mundo aparentava ordem. Havia menos escolhas. As decisões pareciam fáceis. Agora temos a fantasia de que somos livres por termos muito por onde escolher. No hipermercado cada prateleira é um enredo. Azeite virgem, refinado ou puro, bom para o cérebro ou para a pele, enquanto os preservativos são de látex, plástico, de tripa de ovelha, às cores, bolinhas, temáticos.

A compra de umas vulgares calças de ganga é uma odisseia. Skinny, straight cut, boot cut, semi-boot cut, slim, superskinny, regular, tight leg, low rise, flare jeans, plus size e sei lá que mais. Dá vontade de desistir. Chega-se a um ponto em que se respira fundo, fecha-se os olhos, assume-se que as certezas absolutas não existem e leva-se umas calças quaisquer.

E as relações? Casar, não casar, juntos, separados, coabitando, convivendo maritalmente, homem e mulher, homem e homem, mulher e mulher, poliamor e mais um sem-número de modelos e identidades, com filhos biológicos, adoptados, através de inseminação artificial, barriga de aluguer, enfim, não vamos por aí, de contrário daqui não sairemos. E parceiros? Está ao nível de procurar apartamento. Há muitos, mas os melhores estão entregues. Antes os pais elegiam-nos o parceiro, agora são os algoritmos. Às vezes funciona. Muitas das vezes dá merda.

Existem muitos caminhos. Mas ao mesmo tempo fechamo-nos mais. Perante a quantidade, criamos ansiedade. Ficamos indecisos, paralisados, com medo de errar e regressamos quase sempre ao que é mais seguro. As expectativas são tão desmesuradas, pelas muitas hipóteses, que supomos que a escolha ideal existe. Não nos queremos enganar, mas nesse movimento temos dificuldade em lidar com a inevitável frustração, porque não vamos conseguir tudo a que aspiramos.

O mais difícil para um professor é permitir o erro do aluno. Quer que ele responda ao solicitado. Seguindo os passos predeterminados por quem ensina, acerta-se. Mas quem ensaia e experimenta, inevitavelmente, erra, saboreando a elaboração da ideia, da crítica, do pensamento reflexivo. Só nos tornamos adultos quando perdemos o medo de falhar. Não somos apenas a soma das escolhas, mas também das renúncias. Crescer é escolher e saber conviver com a dúvida. É por isso que o erro devia ser valorizado. Afinal, o que seria de nós sem ele?

As utopias, por exemplo, só são possíveis sem o receio de falhar. Acreditamos nelas. Fazemo-nos ao caminho. Tentamos erguê-las. E sempre que o fazemos desiludimo-nos, inevitavelmente, porque nunca vamos conseguir tudo o que idealizámos. Mas se não o ousássemos o mundo seria um lugar ainda mais estranho do que já é. É preciso não recear os procedimentos em aberto, a desarrumação e as contradições que se apresentam à nossa frente, deixarmo-nos envolver por novas possibilidades.

De resto, só a morte física é definitiva. O restante é a normalidade de se morrer várias vezes numa única existência, na forma de fracassos e frustrações. Perante eles, há quem se torne amargo e fechado e quem consiga passar por essas experiências, tornando-se mais consciente e livre. Depende. Mas viver a sério pressupõe não ter medo de errar, falhar, morrer simbolicamente. Pode ser doloroso. Mas viver artificialmente dói ainda mais.