Conan Osiris: um original sem filtros

O artista que ganhou, como já se antecipava, o Festival da Canção parece estar entre os que divide as águas — é daqueles que se ama ou se detesta. Para uns tem um som único, um estilo próprio. Para outros desafina, mas pode chegar lá. Ouvimos um programador, dois músicos e um realizador habituado a olhar para a música portuguesa.

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Conan Osiris tem hoje 30 anos e dois álbuns no mercado,Conan Osiris tem hoje 30 anos e dois álbuns no mercado Nuno Ferreira Santos,Nuno Ferreira Santos
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Conan Osiris no sábado na final do Festival da Canção LUSA/PEDRO PINA
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Conan Osiris em Paredes de Coura Paulo Pimenta
Conan Osiris tem hoje 30 anos e dois álbuns no mercado
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Conan Osiris Nuno Ferreira Santos

É um artista genuíno — o mesmo no palco e fora dele — que é capaz de fazer música com qualquer coisa. Todos os sons podem interessar-lhe, diz quem o conhece. E se à partida causa estranheza, pela forma como se apresenta ou pelo facto de ter ganho no sábado à noite o Festival da Canção, apesar de parecer um músico nascido para se apresentar perante públicos de nicho, é só à primeira vista.

Sérgio Hydalgo, programador da ZDB, uma sala lisboeta por onde passam projectos musicais mais alternativos, conhece bem o trabalho de Conan Osiris. Foi neste espaço, aliás, que o músico se estreou ao vivo, com alguma relutância, há precisamente um ano. Tinha acabado de lançar o seu último álbum, Adoro Bolos, e fez a primeira parte do concerto da artista brasileira Linn da Quebrada, que então se apresentava em Portugal pela primeira vez.

“Nessa noite percebi rapidamente que teríamos esgotado só com o Conan Osiris”, diz o programador musical ao PÚBLICO. “Vi logo ali que ele se podia transformar num fenómeno. Pela sua linguagem muito própria, mestiça, mas também pela sua cultura visual e de moda bastante fortes, pela sua personalidade marcante dentro e fora do palco, pela capacidade que tem de dividir opiniões: ou se gosta ou se detesta…” Um pouco como aconteceu, salvaguardadas as devidas distâncias, com B Fachada, o músico de Viola Braguesa, Há Festa na Moradia ou Criôlo. “É quase impossível não os comparar porque, tal como com o B Fachada, também com o Conan Osiris as pessoas se dividiram entre as que o rejeitaram logo, as que tentaram e tentam compreender e as que se deixaram logo seduzir pela figura algo misteriosa… Tanto um como outro se expõem muito no trabalho que fazem.”

Talvez por isso não tenha sido fácil convencer Tiago Miranda, nome com que nasceu Conan Osiris,  a apresentar-se ao vivo. Sérgio Hydalgo compreende as reservas iniciais do artista: “Ele tinha dúvidas, não sabia como passar para palco a música instrumental de um disco que ele tinha composto no computador, gravado no computador. Mas acabou por encontrar uma forma muito sua, genuína, de o fazer. O Tiago é exactamente a mesma pessoa dentro e fora do palco. Sem filtros.”

O que faz a originalidade de Conan Osiris, garante o programador do ZDB, é a junção de uma série de referências culturais na música — “o fado, especificamente Amália, com a quizomba, a electrónica, a música oriental…” — com uma imagem forte, com “letras que à partida são nonsense mas que têm várias camadas de leitura”. A ambição do artista — uma ambição que está presente até no tema que levou ao festival, Telemóveis — é alterar mentalidades e hábitos sociais através da música. “Se virmos a ‘TED Talk’ que ele tem no YouTube e ouvirmos algumas das suas letras com atenção percebemos que o que ali está tem a ver com a vida a um nível bem profundo – ele fala de género, de identidade, de vulnerabilidade. Mesmo na Telemóveis ele está a dirigir-se a um ser superior e pergunta ‘quem mata quem’ numa canção que vai ser ouvida em Telavive…”

Tal como Hydalgo, também o músico, compositor e produtor Vítor Rua defende que Osiris será um óptimo representante na Eurovisão. E diz mesmo que, com ele, Portugal está em condições de ficar entre os três primeiros. Rua viu a prestação do artista na noite de sábado e reconheceu-lhe o talento habitual: “Se tenho alguma pena é que ele esteja a participar no festival… Não precisava. Mas estando lá ele cumpre perfeitamente tudo o que se exige.”

Para Vítor Rua, Conan Osiris é um original, alguém que criou um estilo próprio muito antes de chegar ao Festival da Canção, nos discos de 2016 (Música, Normal) e 2017 (Adoro Bolos). “Há músicos — Jimi Hendrix, Thelonious Monk, Miles Davis — que reconhecemos ao fim de um ou dois minutos, em qualquer lado. O Conan Osiris faz o mesmo, à sua maneira. Tem um som próprio e só isso é de louvar. Há músicos que andam a vida inteira atrás disso e não conseguem.”

E como chegou ele a essa originalidade? “Com uma mescla de sons que cria e selecciona, com uma marca autoral muito grande. Para ele parece que todos os sons são bons para fazer música”, diz Vítor Rua. As sonoridades dos seus temas são o reflexo de uma “linguagem mestiça” que combina a “urgência da pop” com a “intensidade do fado” e a “música que ele ouvia na rua no Cacém”, acrescenta por seu lado Sérgio Hydalgo.

Além de ser um bom compositor, sublinha Rua, Conan Osiris é também um bom produtor, alguém que trabalha milimetricamente cada segundo da sua música. Uma atitude meticulosa, artesanal, que este compositor e produtor que esteve na fundação de projectos como GNR e Telectu e tem em Do Androids Dream Of Electric Guitars? (2017) o seu último álbum, elogia sem reservas. “O Conan Osiris usa a música como se fosse um pedaço de barro que ele amassa, molda, estilhaça, esmaga”, diz, juntando-lhe uma “voz única com inflexões orientais” e uma forma de vestir que parece nascer de “um humor hiper-realista”.

Sérgio Hydalgo compara-o a António Variações, Vítor Rua só aceita fazê-lo se for para sublinhar as diferenças entre ambos, não as semelhanças: “Eu produzi e toquei todos os instrumentos, excepto a bateria, no primeiro LP do Variações e, por isso, estou em condições de dizer que são muito diferentes. Em primeiro lugar porque o Conan não desafina, em segundo porque tem noção de ritmo e de tempo e, por último, porque o Conan não precisa de músicos e produtores para que a música que ele faz não seja terrível.”

José Cid não conhecia o trabalho de Conan Osiris antes de ter visto a sua participação no Festival da Canção. “A ideia que me deu pela vocalização é que vem muito de trás, do António Variações, o que é positivo. Mas faltou-lhe afinação e a dicção foi fraquinha, muito fraquinha. Mas se ele tiver tempo ainda para melhorar a dicção e a afinação a canção acaba por ser interessante e um bocadinho rebelde”, disse o músico ao PÚBLICO. “Eu francamente gostei.”

Cid gostou de ouvir cantar Matay e os “miúdos de cara pintada”, os Madrepaz, a quem faltou, no entanto, “dinâmica rítmica”, diz. “A Eurovisão é completamente uma roleta russa. Nunca se sabe o que acontecerá”, acrescentou, lembrando o abismo que existe entre “a interpretação fabulosa” de Salvador Sobral (2017), e a “qualidade da sua canção”, e o tema de Israel que veio a ganhar no ano seguinte. Quanto à de Conan Osiris, e contrariando o músico e produtor Vítor Rua, reitera: “A canção é interessante, tem uma ligação ao mundo e à música árabes. É um tema nitidamente de mestiçagem e ele a cantar vem muito na linha do António Variações. Se melhorar bastante a dicção e a afinação, então sim.”

Quando telefonámos a Tiago Pereira, o videasta e autor do projecto “A Música Portuguesa a Gostar dela Própria” remeteu para um post que publicou neste domingo no Facebook a que deu precisamente o título “Porque fiquei eu triste com o festival da canção!”: “Eu gosto do Conan Osiris, respeito-o muito, sempre o fiz, por isso essa parte está arrumada para mim. Ele ganhou. Podia ganhar qualquer outro, ganhou ele, ainda bem. Essa é a parte boa. A parte que me entristece é ver que eram tantos que o não respeitavam e maldiziam, a mudar de opinião assim de repente”, escreveu.

Ao PÚBLICO reafirmou que não se sente representado por um Festival da Canção, que é um produto de entretenimento. “Conheço milhares de músicos e de canções e portanto a minha atitude é que gostava que houvesse cobertura mediática da mesma maneira para todas as outras canções e músicos que não têm o mesmo acompanhamento porque de repente parece que toda a gente é míope e só vê o Festival da Canção.”

O seu post terminava com um desabafo: “Sinto-me sempre o Robin dos Bosques, com complexo de Noé, da música portuguesa e isso entristece-me. Cada vez me entristece mais.”

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