Opinião

Recomendações de atividade física para a população portuguesa: importância da integração dos "comportamentos do movimento"

O desenvolvimento das Recomendações Portuguesas de Movimento 24h para crianças, adolescentes, adultos e idosos baseadas na evidência científica representará uma mudança de paradigma para profissionais e organizações.

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HUGO DELGADO/PÚBLICO

Os níveis de atividade física, comportamento sedentário e sono têm importantes efeitos na saúde ao longo da vida. No entanto, os níveis populacionais destes comportamentos são do ponto de vista da saúde pública preocupantes e têm levado investigadores a interessarem-se sobre como os vários “comportamentos de movimento” (sono, comportamento sedentário e atividade física de todas as intensidades), que compõem as 24h do dia, interagem, se combinam e influenciam a saúde de forma holística. Mesmo parecendo contraintuitivo incluir o comportamento sedentário e o sono como “comportamentos de movimento”, esta opção insere-se num contexto de um continuum de movimento (desde a ausência de movimento até à atividade física de elevada intensidade) para capturar todas as componentes que perfazem as 24h do dia.

Os comportamentos de movimento têm sido tradicionalmente estudados isoladamente, ou seja, ignorando as interações intrínsecas e empíricas entre eles e consequentemente a evidência científica tem valorizado os resultados de forma idêntica. No entanto, examinar a evidência científica do efeito combinado dos comportamentos que constituem um período completo de 24h é fundamental não só para se perceber a complexidade da agregação e das interações destes comportamentos, mas também dos seus efeitos integrados na saúde. De facto, e porque as partes constituintes do dia — o sono, o comportamento sedentário e a atividade física — perfazem 24h, qualquer alteração num destes comportamentos tem de ser feita obrigatoriamente à custa de um ou mais dos outros comportamentos. Com base na evidência de que a combinação apropriada destes comportamentos de movimento é importante para alguns indicadores de saúde, um grupo de investigadores do Canadá lançou, em 2016, as primeiras recomendações integradas de 24h de movimento para crianças e adolescentes (dos 6 aos 17 anos). Mais recentemente, o Canadá, a Austrália e a África do Sul lançaram as primeiras recomendações integradas de 24h de movimento para a primeira infância (0 aos 5 anos).

Portugal não tem ainda recomendações de movimento nas 24h do dia baseadas em evidência científica, nem adotou, adaptou ou construiu de novo recomendações para qualquer um dos comportamentos de movimento. No entanto, os níveis de atividade física, comportamento sedentário e sono dos portugueses são preocupantes pelas consequências de saúde que lhes estão associadas. Assim, e uma vez que o combate aos estilos de vida pouco saudáveis das populações é complexo e exige uma abordagem multissectorial, multidisciplinar e interdisciplinar, a existência de recomendações constitui um elemento-chave orientador, fundamental.

O desenvolvimento das Recomendações Portuguesas de Movimento 24h para crianças, adolescentes, adultos e idosos baseadas na evidência científica, projeto de investigação liderado pelo Centro de Investigação em Atividade Física, Saúde e Lazer da Universidade do Porto que agora se inicia, representará uma mudança de paradigma para profissionais e organizações, uma vez que estas recomendações enfatizarão a integração de todos os comportamentos de movimento, obrigando a uma mudança de pensamento sobre o movimento, deixando para trás considerações isoladas sobre cada um dos comportamentos de movimento.

Estas recomendações representarão uma ação significativa na forma como promovemos uma vida saudável, permitindo potenciar os efeitos positivos e sinérgicos que podem ocorrer quando os comportamentos são vistos de forma holística, revigorando a forma como se promovem os estilos de vida ativos. As novas recomendações integradas servirão também de base para futuros sistemas de monitorização e vigilância da saúde da população portuguesa e criarão uma mensagem única acerca do movimento. (Em vez de várias mensagens para cada um dos comportamentos.)

Estas recomendações serão desenvolvidas com base na evidência científica, com consulta de peritos nacionais e internacionais e demais partes interessadas, num esforço colaborativo e participado em articulação com a Comissão Intersectorial para a Promoção da Atividade Física.

Os autores seguem o novo acordo ortográfico

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