paulo pimenta
Sergio Ramírez

Da revolução como coisa íntima ao regresso à condição de escritor

Sergio Ramírez, nicaraguense, Prémio Cervantes, ex-guerrilheiro, antigo vice-presidente de Ortega de quem denuncia o “regime criminoso”. Isso está na sua literatura, feita longe do poder, porque, diz ele, no poder não é possível fazer literatura. Já Ninguém Chora Por Mim é um retrato sem complacências da corrupção. Com muito humor.

No princípio da conversa, Sergio Ramírez está a pensar numa folha e branco. A imagem foi-lhe sugerida por um verso de Sophia de Mello Breyner. “Tão nítido e preciso era o vazio”, do poema No Ponto Onde o Silêncio. O escritor nicaraguense, Prémio Cervantes em 2017, confessa que não conhecia a escritora portuguesa. Leu a obra de Sophia só depois de saber que teria de partir de uma frase dela para se apresentar na mais recente edição das Correntes d’Escritas, a vigésima, que terminou domingo, na Póvoa do Varzim. A folha em branco na mente de Ramirez reflecte uma urgência. Política, mas no seu caso sobretudo literária porque a literatura, afirma, é a sua condição. Ex-guerrilheiro ao serviço do exército sandinista na luta contra o governo de Anastasio Somoza, seria vice-presidente da Nicarágua entre 1986 e 1990, até se distanciar de Daniel Ortega, ao lado de quem combateu. Quase trinta anos depois de deixar o poder é uma das vozes de denúncia de um regime que considera criminoso.

Sempre que sai de Manágua, onde vive, sabe que lhe irão perguntar pela situação do seu país e sobra a sua desilusão com Ortega. “Foi um amigo. Trabalhei com ele dez anos. Partilhámos muitas experiências e converteu-se nessa coisa terrível, um ditador, como qualquer outro na América Latina. A grande tragédia de Daniel Ortega é a de saber como irão vê-lo no futuro. Ele pensa na posteridade. Creio que para ele deve ser terrível pensar que não o vão ver como um reformador ou como um revolucionário, mas como alguém que provocou tantas mortes, tanta desgraça, tanta dor. Que é responsável por crimes contra a humanidade. Isso é uma tragédia.” 

Sergio Ramirez tem 76 anos, nasceu em Masatepe, cidade num planalto a 50 quilómetros de Manágua. É autor de quase três dezenas de obras de ficção, entre conto e romance, e de 18 volumes de memória e ensaio. Jornalista, formado em Direito, cronista, veio de uma família de músicos populares e foi educado para também ser músico, mas, diz a brincar, seria declarado surdo. “Surdo, neste caso, é aquele que não tem ouvido musical. Fui declarado surdo, mas acredito que tenho um ouvido musical que reproduz.” Essa faceta está na sua escrita onde trabalha para que a poesia apareça como “substância da prosa”, pelo ritmo, por uma melodia que quer sentir e dar a sentir. “Se a prosa não tem uma música não há escrita. Tento descobrir essa música lendo em voz alta.”

Chega a Portugal acompanhado por Dolores Morales, natural de Manágua onde nasceu em 1959, também um antigo guerrilheiro, ex-polícia, dirigia o departamento de investigação de drogas, foi expulso devido a um caso que “desagradou” às mais altas autoridades do país. É agora detective privado com especialização em pesquisa de adultérios. Morales é o protagonista de Ninguém Chora Por Mim, o mais recente romance de Ramírez, um policial negro com acção na actual Nicarágua, um tempo de “mudanças políticas transcendentes”.

Dolores Morales é uma personagem de ficção recuperada de outro romance, El Cielo Llora Por Mí (2009). Regressa dez anos depois. “Não sou um escritor de romance negro, mas criei esta personagem e achei que ela merecia outro romance. Uma personagem de um romance negro como o inspector Morales não vive só de um livro, tem de ter uma sequela”, justifica o escritor sobre esta figura inspirada em polícias que conheceu que começaram a questionar-se sobre se tinha valido a pena o envolvimento na luta armada. “Muita gente começou a pensar em tudo o que se passara e se tinha valido a pena. Pessoas que tinham perdido uma perna, um braço, um olho na guerra. E o facto é que Morales também é um alter-ego meu, porque partilho muitas das suas decepções.” E, acrescente-se, do seu humor.

Com Morales, Ramírez constrói um livro sobre o poder num país alicerçado na corrupção. Como complemento à nota biográfica do detective com que abre o romance, é dada ao leitor informação sobre as tais mudanças políticas transcendentes naquele país da América Central: “Na época em que se dedica à investigação privada verificam-se profundas mudanças políticas na Nicarágua, uma vez que em 2006 o comandante Daniel Ortega, que presidira ao governo durante a década revolucionária de oitenta, regressa ao poder, graças a um pacto com Arnaldo Alemán, seu antigo adversário. Ortega permanece na presidência através de reeleições sucessivas, a terceira das quais em 2016, altura em que a sua mulher, dona Rosário Murillo, primeira-dama e cabeça executiva do governo, é eleita vice-presidente da República. À medida que o casal consolida o seu poder familiar, consolida-se também uma nova classe de capitalistas provenientes das próprias fileiras da FSLN [Frente Sandinista de Libertação Nacional] ou da sua periferia...”

A revolução como coisa íntima

Eis a síntese do contexto da Nicarágua onde vivem Morales e Ramírez, o autor que no discurso da cerimónia de entrega do Prémio Cervantes – o primeiro para um centro-americano –afirmou: “um escritor natural é aquele que sabe do que fala”. Ele sabe de guerrilha, de política, da desilusão, de uma realidade dramática que contamina a sua literatura. Ou seja, que contamina a imaginação. Sergio Ramírez sorri. “Para mim, a política foi a revolução. Para mim, não teria existido a política sem a revolução e, essa sim, foi muito pessoal. A revolução foi muito íntima. Mudou a minha vida. Pela revolução abandonei a minha família, abandonei a minha vida de escritor, abandonei tudo o que eu queria, porque tive um grande amor pela revolução. Deixei a minha família à sua própria sorte na Costa Rica [para onde tinha ido viver] e, fui para a Nicarágua. Deixei a escrita! Estive dez anos sem escrever. Não se pode pedir mais nada a um escritor a não ser abandonar a escrita. É uma renúncia. E isso sem deixar de ser escritor.” Quer dizer com isto que nunca se converteu num político. “Continuava a ser um escritor. Sabia que um dia iria regressar à escrita porque, para mim, entre escrita e poder não havia alternativa. Nunca iria deixar a escrita por um projecto de poder. Mas os projectos de revolução não têm prazo. Só que a revolução acabou e regressei ao que era meu. Era escritor e voltei à escrita. E dei graças, porque muitos dos meus companheiros não se puderam reinventar, não encontraram um caminho. Daniel Ortega não teve outro caminho que não o do poder. Isso é uma condenação.

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Ex-guerrilheiro do exército sandinista na luta contra o governo de Anastasio Somoza, foi vice-presidente da Nicarágua entre 1986 e 1990, até se distanciar de Daniel Ortega, ao lado de quem combateu. Trinta anos depois de deixar o poder é uma das vozes de denúncia de um regime que considera criminoso paulo pimenta

Já Ninguém Chora Por Mim abre com uma encomenda: um homem poderoso pede a Dolores Morales que investigue o desaparecimento da sua enteada. Nesse processo, Ramírez descreve a malha social, política, cultural de Manágua e, mais genericamente, do país de Ortega, num misto de nostalgia, crítica social, sátira e muita ironia. Sempre com a sombra e os comentários provocadores, insolentes, pícaros de Lorde Dixon, alcunha do subinspector de Morales, um caribenho metralhado pelos cartéis de droga. Morto Dixon, o seu fantasma aparece como uma espécie de consciência cómica e diabólica de Morales.

“Não consigo pensar na escrita sem humor, sem o riso. Aprendi isso com os meus tios músicos. Eram muito cómicos. A igreja era em frente à casa dos meus pais. O meu pai tinha uma loja onde se vendia tudo. E o meu avô e os meus tios antes de irem tocar à igreja, juntavam-se na minha casa e era uma festa; conversavam e riam de quem passava pela rua, de gente que contava histórias inverosímeis, de adultério, engano... Aí, dei-me conta de uma coisa fundamental no humor: é que eles riam-se de si mesmos. Sem isso não há humor. Se não somos capazes de rir de nós próprios não somos capazes de rir dos outros. É falso”, defende Ramirez que se diz muito influenciado pela chamada geração do boom latino-americano, de que fazem parte nomes como Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes ou Julio Cortázar, e que afirma que Pedro Páramo, de Juan Rulfo, é uma bíblia. “Aprendi muito com essa geração. É muito próxima da minha, fui amigo de todos. Comecei a minha amizade com eles lendo-os. Todas as transformações que fizeram da forma de narrar vinham de uma aprendizagem que tinha demorado a acontecer na América Latina, a de pôr em dia a literatura com o que tinha sido escrito pelo menos meio século antes. Os monólogos interiores, a fórmula de Faulkner, a literatura de Hemingway; tudo o que estava reprimido foi trazido pelo Boom. Isso foi uma grande aprendizagem. Havia os casos de [Alejo] Carpentier ou de Rulfo, que também está muito próximo do boom, ou de [Miguel Ángel] Asturias que tinha feito experiências com a língua, mas o que eu tinha no meu ouvido aos seis anos, quando comecei a escrever, era a ressonância da literatura vernácula. Por um lado, a literatura de denúncia, contra o imperialismo e, por outro, a que falsificava o mundo rural e o mundo indígena. Isso foi rompido primeiro por Rulfo. Rulfo não falava de cima, como um académico como faziam então os escritores. Veio cá abaixo, falar como as pessoas. Essa foi uma mudança radical retomada pelos do boom. O quotidiano da vida e da língua. A língua surge na vida como alguma coisa dela decorrente e não como uma coisa que vem de cima. Foi uma verdadeira transformação.”

Em Já Ninguém Chora Por Mim, Sergio Ramírez anda pelas ruas de Manágua. Com Dolores Morales entra no Mercado Oriental, um lugar onde “o mínimo que se pode esperar é que lhe perfurem o fígado à facada”, diz Fanny, a amante de Dolores, que seguia na pista de Marcela, a enteada do todo-poderoso Soto. Vale a pena ler a descrição do mercado. Os detalhes, o ritmo, os sons e os odores são apresentados de forma clara, sincopada e o cenário surge entre a miséria e a sordidez, com cheiro a café e uma rádio com músicas pedidas, uma profusão de alcunhas e sobreviventes do submundo.

Na conversa, Ramírez volta à geração do boom. “Há uma vantagem nessa geração: todos escrevem de maneira diferente e por isso podíamos aprender coisas diferentes. García Márquez era a imaginação desbocada, o exagero, o Caribe. Eu venho do Caribe e o que García Márquez conta é normal para nós. Que chova um ao inteiro? É muito normal. Quando li pela primeira vez Cem Anos de Solidão vi que muitas coisas, verdade ou mentira, já estavam na minha cultura. Quando ele fala dos médicos invisíveis... na minha aldeia os médicos invisíveis eram muito populares. Era natural alguém dizer que a dor passara porque tinha sido operado por um médico invisível. De Mario [Vargas Llosa] aprendi técnicas, muitas.” Por exemplo? “O uso do espaço e do tempo, a maneira como intercala espaço e tempo ou como conta diferentes histórias aos mesmo tempo. E, com Cortázar, o humor. Rayuela é um romance bastante humorístico. Até o dramático tem humor. Isto é gente que nunca fala nada a sério. Falam de patafísica e nunca se levam a sério, nem a si mesmos. Acho que isso é uma coisa da América Latina, não se levar a sério a si mesma. Na Nicarágua ri-se das piores desgraças. Ir buscar o humor na desgraça é muito natural.” 

Volta-se ao início, à página em branco, à ideia de literatura enquanto "milagre convocado", que Ramírez também levou à cerimónia do Cervantes, ao que acontece até a página se encher de palavras, de sentido... de harmonia. “Quando o leitor lê de seguida, sem paragens, é porque não existem defeitos; quando o leitor lê fácil é porque o escritor escreveu difícil”, diz. Sobre os temas de sempre da literatura. O poder, a morte, a loucura, o amor. E, aqui, o ênfase está na corrupção, mas, insiste, “vista de uma perspectiva crítica, a de alguém que não está metido nesse mundo; está a olhá-lo de fora. Não podia ter escrito este livro quando estava no poder. Há necessariamente limites. Literatura e poder são totalmente incompatíveis. Literatura e política são totalmente incompatíveis. Se um escritor entra na política está a renunciar à literatura. Um escritor no poder não pode escrever sobre o poder. Se o fizer é relações públicas, está a defender o sistema de poder a que pertence. Está a defender a sua própria ideologia, os seus ideais e isso faz com que o que escreva perca substância porque perde matizes e não há literatura sem matizes. A escrita tem de assumir uma neutralidade técnica. A literatura conta histórias e constrói personagens na sua própria complexidade. Converter um romance numa arma de propaganda política é torná-lo uma arma morta. A propaganda nunca deixou nada transcendente.” Faz uma pausa, ri, concede: “... à excepção de Casablanca.”

Ramirez escreve sobre o presente. Como muitos autores da sua geração, de gerações anteriores e actuais na América Latina, tem uma proximidade com o jornalismo. Tudo isso se explica com as particularidades de um continente, de um país. Já Ninguém Chora Por Mim só poderia ter sido escrito por alguém latino-americano; ou melhor, centro-americano; talvez ainda de forma mais precisa: um nicaraguense.

“Vivemos num país anormal. Se eu fosse um escritor dinamarquês seria um escritor de outros temas. Eu não quero ser um escritor dinamarquês. Onde estão aí os meus temas? A corrupção, o abuso de poder, falta de institucionalidade? Na América Latina as eleições despertam todas as paixões, há fraude eleitoral, e tudo isso está na literatura. Há uma cena de amor e ela está contaminada de tiros na rua. Não se pode separar a cama da rua. É assim se formos um escritor de temas contemporâneos. Mas também é assim se fomos ao passado: guerras civis, golpes de estado, exílios, migrações. Como se pode saber da história da Argentina se não através de assassinatos, mortes, desaparecimentos, exílios? Tem sido essa a história da América Latina. No início do século XXI houve uma corrente com escritores jovens que não queriam escrever sobre os mesmos temas de sempre da América Latina, rejeitavam tudo o que tinha que ver com García Márquez, com a droga, etc. Queriam temas diferentes, mas acabaram por voltar ao mesmo.” Porque era falso? “Sim. Agora todos estão com a corrupção, as migrações, a opressão contra os indígenas, o crime. Isto está lá e não é possível fechar os olhos diante disso. Claro que muda a linguagem, a maneira de contar, a literatura que cada um faz com isso.”

E que pertencerá ao tal mistério, em que, no início de tudo, há uma página em branco e “alguém sentado sozinho, num cubículo, numa sala, fechada a escrever”. É isso que faz todas as manhãs, bem cedo, na sua casa de Manágua de onde quase não sai, por razões que também são políticas e de segurança. Alguém a escrever em solidão, todas as manhãs “como numa oficina, no sentido mais mecânico da palavra. “Ouço falar muito fala da literatura, dos livros que se fazem nos cafés. Não entendo. Não consigo escrever com ruído, porque para mim a rua é muito atractiva. Fico distraído. A escrita, para mim, resulta de uma solidão absoluta, de silêncio, de desligamento, como se estivesse numa cápsula espacial. Estou fechado com os meus fantasmas e tenho em frente uma página por preencher.”