Crítica

Duas faces da música vienense num concerto emocionante

A Orquestra Juvenil Gustav Mahler está de regresso à Gulbenkian para mais uma residência. O primeiro concerto, dirigido por Tobias Wögerer, contou com obras de Mozart e Schoenberg.

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O jovem maestro Tobias Wögerer merece ser seguido com atenção Reinhard Winkler

A Orquestra Juvenil Gustav Mahler (OJGM) está de regresso à Gulbenkian para mais uma residência artística, ponto de partida de uma digressão que contempla várias cidades ibéricas e que terminará, a 16 deste mês, no Musikverein de Viena. A parceria com a Gulbenkian desta formação de excelência, criada por Claudio Abbbado em 1987 e composta anualmente por mais de uma centena de jovens músicos seleccionados entre mais de dois mil candidatos, conta já com um sólido percurso, do qual fazem parte quatro residências anteriores (em 2010, 2013, 2015 e 2017) e vários outros concertos que deixaram fortes memórias musicais. É também gratificante verificar que Portugal se encontra representado por 11 instrumentistas, sinal da crescente qualidade dos jovens músicos portugueses.

Os programas da OJGM costumam ser compostos por obras de grande exigência técnica e estética, susceptíveis de elevar ainda mais o nível dos seus instrumentistas. O primeiro concerto desta residência em Lisboa não foi excepção e permitiu apreciar na primeira parte do programa a qualidade dos naipes dos sopros numa obra-prima de Mozart (a Serenata nº 10, K. 361, conhecida como Gran Partita). Depois do intervalo foram as cordas a estar em destaque, com A Noite Transfigurada, op. 4, de Schoenberg, na versão para orquestra de 1943 (a partitura original, de 1899, destinava-se a um sexteto). Estas duas obras compostas em Viena à distância de mais de um século, com estilos bem diferentes, constituíram também um desafio à versatilidade da orquestra.

Na Serenata n.º 10, de Mozart, cuja descrição do belíssimo Adagio do 3º andamento por Salieri dá vida a uma das mais inesquecíveis cenas do filme Amadeus, de Milos Forman, os músicos da OJGM mostraram agilidade técnica e uma sonoridade cristalina, que pôs em evidência a sedução tímbrica dos instrumentos da família das madeiras, bem como uma apreciável clareza de linhas e fraseados elegantes. Desta obra, que constitui um ponto culminante da tradição da Harmoniemusik (música para ensemble de sopros) de finais do século XVIII, emergiu o verdadeiro espírito da música de câmara através de um equilibrado diálogo entre os vários intervenientes, os quais souberam caracterizar com nitidez os diferentes mundos musicais: dos andamentos de carácter dançante ou jocoso às secções mais introspectivas, passando pelas imaginativas variações que antecedem o virtuosístico final.

A luminosidade do Classicismo mozartiano deu lugar, depois do intervalo, aos exacerbados sentimentos que povoam A Noite Transfigurada, de Schoenberg, obra programática baseada num poema de Richard Dehmel, que nos conduz do Pós-Romantismo ao Expressionismo. Numa noite de luar intenso, um casal apaixonado caminha pelo bosque olhando a lua; a mulher, que está grávida, confessa o seu tormento por ter dentro de si o fruto de outro homem. Esta partitura plena de ambientes descritivos, conseguidos através de uma exploração requintada da instrumentação, das ousadias harmónicas e de fraseados e motivos musicais que se entrelaçam numa teia contínua, contou com uma direcção atenta aos detalhes e nuances dinâmicas sem perder a noção do fluxo ininterrupto do discurso musical – mérito de Tobias Wögerer, jovem maestro que convém seguir com atenção. Foi também a ocasião para mostrar a coesão e a plasticidade expressiva dos instrumentistas de cordas da OJGM, tanto em conjunto como nas belas linhas solísticas que emergem da textura.

Na próxima semana, a OJGM dará mais dois concertos em Lisboa, dos quais fazem parte a Sinfonia nº 3, de Mahler (dia 5); as Três Peças para Orquestra op. 6, de Berg, os Rückert-Lieder, de Mahler (pela meio-soprano Elena Zhidkova); e a Sinfonia nº 15 de Chostakovitch (dia 6), sob a direcção de Jonathan Nott. A não perder!

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