JONAS HOLTHAUS

Forças da natureza

Rita Azevedo Gomes, realizadora, e Ingrid Caven, actriz, nunca tinham filmado juntas, A Portuguesa reuniu-as: uma adaptação de Musil feita por Agustina, cinema de (e sobre) outros tempos para os tempos que correm. Duas mulheres juntas pela arte, para a arte, duas “bruxas” que se encontraram no momento certo, duas forças da natureza.

Elas riem-se, elas fumam, elas falam, muito, uma com a outra, uma sobre a outra, sempre com uma cumplicidade com qualquer coisa de malicioso, com um brilhozinho nos olhos. Uma canta, a outra não (para citar a Varda, que apareceria mais tarde nesta Berlinale). Uma é alemã (e pede muita desculpa de não saber falar português), a outra é portuguesa, entendem-se em francês mas, sobretudo, entendem-se através da arte, da pintura, da música. E da imagem: uma, Rita Azevedo Gomes, filma, a outra, Ingrid Caven, deixa-se filmar.

No entanto: A Portuguesa do novo filme de Rita Azevedo Gomes não é Ingrid Caven, figura singular do novo cinema alemão pós-Oberhausen e colaboradora regular de Rainer Werner Fassbinder (com quem, aliás, foi casada). Caven é, em vez disso, a nossa (muito contemporânea) “guia” por uma história que se passa na Idade Média, adaptada de uma novela de 1924 do escritor austríaco Robert Musil (O Homem Sem Qualidades); ora é coro grego que comenta a acção, ora espelho distorcido que revela os temas do filme, entoando cantigas de amigo ou melodias originais de José Mário Branco.

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Ingrid Caven fala da enorme “modernidade” do cinema de Rita Azevedo Gomes — o que, vindo de quem rodou com Fassbinder, Jean Eustache, Raul Ruiz, Syberberg ou Schroeter, quer dizer qualquer coisa

Na verdade, é a jovem Clara Riedenstein, uma das descobertas do John From de João Nicolau, a interpretar a Portuguesa do filme (cujo nome nunca saberemos). É uma dama nobre lusitana casada com um senhor da guerra, que se recusa a encaixar nas expectativas que aqueles tempos faziam de uma dama nobre casada com um senhor da guerra. Por isso, esta mulher irredutível é mal vista pelo clero, pela nobreza, que entrevêem a sua determinação e vêem o seu orgulho como um desafio, uma perdição. Há mesmo quem lhe chame “bruxa” – mas ela sobrevive, ela insiste, ela resiste. Um pouco como estas mulheres, Rita e Ingrid, que encontraram uma camaradagem no meio do seu trabalho, que precisam do risco para se sentirem vivas, que parece terem estado fadadas a encontrar-se a dada altura. Mulheres orgulhosas, apreciadoras do jogo e da liberdade e do prazer e também peremptórias quanto a serem quem são. “Bruxas”, de certo modo – e Ingrid Caven, só meio a brincar, fala delas logo no início da conversa: “A Rita tem um dom, ela adora amar as bruxas, as witches”, diz em inglês. “E eu também! E é por isso que somos irmãs!”

Por Rita, Ingrid diz ter um “enorme respeito” – “ela concentra-se em cada momento, em cada preparação de cena, de plano, de enquadramento. À sua volta tudo é confusão e desenrascanço mas ela recusa isso, recusa a confusão, e nisso é uma pedagoga exemplar para nós todos.” Em Ingrid, Rita diz adorar “a sua insegurança” – “não é um Pavarotti ou um Domingo que sabem tudo e sabem como fazer tudo. Ela sabe muito bem o que faz, mas continua curiosa, continua à procura. E não me interessa uma actriz que já seja "actriz". Não me interessa uma Juliette Binoche, que é uma actriz muito interessante mas que já é "A Binoche", já tem uma marca. Interessa-me uma Ingrid Caven - alguém que não conseguimos identificar muito bem.”

O encontro entre as duas mulheres levou tempo a concretizar, como explica ao Ípsilon Rita Azevedo Gomes (n. 1952) nesta tarde de Fevereiro no salão de fumo do hotel Savoy em Berlim; espaço vintage que parece respirar o espírito de uma certa Berlim histórica, cosmopolita, diletante. (O Savoy é o pouso regular de Aki Kaurismäki na capital alemã, o que já diz muito.) É muito apropriado para falar de um filme que parece vir de outro tempo, que se diverte a dissolver eras, que assume a sua filiação numa ideia muito clássica de cinema de autor mas que não hesita em subvertê-la quando é preciso. Ingrid Caven falará repetida e entusiasmadamente, ao longo de meia hora, da enorme “modernidade” do cinema de Rita – o que, vindo de uma figura que rodou com Fassbinder, Claire Denis, Jean Eustache, Raul Ruiz, Hans-Jürgen Syberberg ou Werner Schroeter, quer dizer qualquer coisa.

Estamos a dois passos do venerando cinema Delphi, “sede” da secção paralela Forum durante a Berlinale, onde na véspera A Portuguesa tinha sido exibido perante uma plateia esgotada e muito calorosa (“nem sabes como me senti aliviada por as pessoas terem mostrado tanto amor pelo filme,” confessará Ingrid a dada altura). O Delphi, com a sua arquitectura de anfiteatro clássico e perfume de outros tempos, é outro encontro perfeito de filme e local, de passado e presente, outra metáfora para o encontro entre a actriz e a cineasta. Rita – que “nunca tinha pensado ser possível chegar a filmar com ela...” – já tinha desejado Ingrid para o seu documentário sobre a relação entre Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena, Correspondências, mas não foi possível na altura.

Quando chegou A Portuguesa, mesmo assim, não foi um encontro fácil, como nos diz a realizadora. “Eu tentava explicar-lhe uma coisa inexplicável – o papel que lhe queria propor não era bem um papel, antes uma coisa um bocado intangível. E ela estava um bocado às cegas”. Acabou por ser um quadro a ligar Rita e Ingrid à personagem sem nome que atravessa A Portuguesa quase como um “coro contemporâneo”, nas palavras da realizadora. Foi Angelus Novus (1920) de Paul Klee, “o pequenino desenho do anjo com umas asinhas que é levantado por umas ventanias sobre o qual o Walter Benjamin escreveu um texto”, a célebre “nona tese” das Teses sobre a Filosofia da História onde o filósofo falava da figura de Klee como o “Anjo da História”. “Quando vê todo o mundo em ruínas, todos os destroços que a humanidade nos apresenta diariamente, ele quer repôr tudo, reconstruir a partir das ruínas.”

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Uma história que se passa na Idade Média, adaptada de uma novela de 1924 do austríaco Robert Musil

Foi aí que as coisas começaram a fazer sentido – “ela começou a conseguir criar qualquer coisa, tinha um alimento”. Para Ingrid Caven (n. 1938), que entretanto se juntara à mesa, que estudou e ensinou arte e é há longos anos companheira de um escritor, falar de Klee e Benjamin fazia todo o sentido: “Esta mulher conhece belezas de muitos séculos, pintura, música, tem uma escola de cineasta séria… Ela tem um dom. É a primeira vez que trabalho com uma mulher que me esqueço que é mulher. Tenho uma relação com ela como a que tinha com Fassbinder ou outros homens, e não uma relação de género.”

“Não é a feminilidade que é a relação mais forte entre nós,” concorda Rita. “É a ousadia, o prazer, o divertimento. Sempre que vejo um filme com a Ingrid, ela entra e já não consigo olhar para mais lado nenhum. Só tenho olhos para a Ingrid Caven. É uma força da natureza, é muito rara.” “Somos orgulhosas!” gargalha Ingrid. “E nem eu nem ela nos sentimos contentes a encaixar num modelo. Somos muito mais exigentes do que todas essas actrizes hollywoodianas a quem dizem desde muito cedo como se devem apresentar. Nós partilhamos o prazer, a liberdade. Chama-se a isto jogar, brincar, tal como as crianças o fazem. Não sabemos o que vai acontecer, estamos a brincar. Eu também não sei, e não quero sabê-lo. Sou muito mais egoísta do que a Binoche e do que essas actrizes, porque a mim não me basta ser actriz.”

Mesmo assim, Ingrid diz que teve dúvidas quanto à justeza da sua presença em A Portuguesa: “Juro que nunca tive tanto medo por um realizador, porque a ideia dela era maravilhosa, completamente genial: meter alguém no filme que não está dentro da história, alguém que observa e comenta de fora. Ela foi nessa direcção, à procura de alguém que se mexesse como um electrão livre. Mas eu tinha genuinamente medo que a minha presença desse cabo do filme. Ela não: ela tinha certeza absoluta, e correu um risco enorme ao pôr em prática o conceito que tinha no argumento. Mas nunca recuou. É a marca de uma grande artista.”

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“Mas o que eu gosto em ti é a maneira como carregas as coisas, como mostras as tuas ideias, as tuas hesitações, as inseguranças…“, contrapõe Rita. “Adoro que nunca estejas segura, que sejas inesperada, surpreendente. A cumplicidade que tenho contigo vem de te ter visto em todo o teu trabalho e da tua vontade de ousar sempre fazer algo.” Ingrid retribui os elogios à sua directora: “Ela tem aquele olhar… Está sempre atenta. Está sempre ali com a câmara, deixa-nos sossegados, mas está lá sempre que é preciso. E nunca faz disso um lugar-comum. É difícil, mas ela recusa o conformismo. Nisso, é um exemplo. É muito belo, e muito raro.”

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Muito belo, muito raro, também muito arriscado – A Portuguesa é um projecto que Rita Azevedo Gomes transportava há cerca de uma década antes de o rodar em produção “de autor” através da sua casa Basilisco Filmes. A origem do filme remonta à colaboração da cineasta com Agustina Bessa-Luís na curta de 2005 A Conquista de Faro – foi depois disso que Agustina trabalhou nos diálogos da adaptação, cuja cristalinidade epigramática é inconfundível – mas só em 2017 o projecto conseguiu ser levado a bom porto. Além do mais, Rita é uma cineasta rara: esta é apenas a sétima longa-metragem numa carreira iniciada em 1990 e que foi sempre sendo feita um pouco “nas margens”.

“Claro que é um risco enorme continuar a filmar assim,” diz Rita. “Mas o risco está sempre presente. Não sei bem porque continuo a fazer filmes. Porque não? Mas sei que não seria capaz de os fazer de outra maneira. Não saberia como. Fico bloqueada.” A realizadora compreende que A Portuguesa seja directamente colocado na “descendência” de Manoel de Oliveira, figura tutelar que convocou repetidamente para o seu cinema (e que a presença de Agustina apenas reforça), como o poderia ser na descendência estilizada de Jacques Rivette ou João César Monteiro. Mas, diz sorrindo, “se eu tivesse nascido na Suécia diriam que sou uma discípula de Bergman...”. “Na verdade, sou tão discípula de Bergman como de Oliveira ou de Dreyer ou de Schroeter ou de Ticiano ou de Caravaggio… Acontece apenas que, quando estou atrás da câmara, eles não estão presentes na minha cabeça. E no cinema do Manoel, ele deixava o tempo passar, mas aqui neste filme o tempo é também ele um protagonista, uma maneira de dar a imagem que faço da Idade Média.”

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É uma questão central para o filme, e uma questão que Rita faz questão de deslindar: “O tempo era outro [naquela altura]. Escrevia-se a alguém e a carta levava meses a chegar, não havia nada destas coisas do e-mail. O tempo é uma ilusão, porque não existe, somos nós que o fabricamos. O nosso tempo, entendido como métrica das vidas, é diferente hoje do que já foi. E o tempo no meu filme é também uma maneira de representar o ritmo de uma outra vida. Não há aqui nada de gratuito.”

Ingrid subscreve. “As pessoas têm um desejo do novo, de uma beleza nova, e de serem enquadradas [para compreender essa beleza]. O cinema é muito importante para isso. E não é por acaso que o teu filme, e outros como os teus, têm uma lentidão e um tempo muito preciso, pedem-nos tempo para nos colocar no nosso tempo. Ela faz parte das raras pessoas que têm faro para isso.” “É algo de muito intuitivo,” explica Rita. “Sou eu que monto os meus filmes, do primeiro ao último dia, não deixo a minha obra nas mãos de outra pessoa!,” ri-se. “Sou eu o primeiro espectador, e as coisas têm de me agradar a mim primeiro. Se não gosto é porque há qualquer coisa que não está bem, então tento experimentar e arranjar maneira de me agradar.” “E tens razão!” entusiasma-se Ingrid. “Tens prazer nisso! E ao mesmo tempo, tratas as pessoas com seriedade, porque levas a sério o desejo de uma beleza nova. Nós estamos aqui para trazer mensagens modernas às pessoas. O teu filme é acessível, divertido, picante, e trata os espectadores como adultos! Mas já chega, tu é que tens de falar sobre o teu filme,” diz, dirigindo-se a Rita. “Mas eu gosto muito mais de te ouvir do que de ser eu a falar,” ri-se a realizadora. “Eu também adoro ouvir-me a mim mesma!”, gargalha Ingrid.