Opinião

A lista de convidados para os anos de António Costa

Será preciso recuar até ao reinado de D. Carlos para encontrar uma corte com o nível de consanguinidade do governo de António Costa. Portugal é, neste momento, a república mais aristocrática do mundo ocidental.

A lista de convidados para os anos de António Costa, também conhecida como Governo de Portugal, continua a impressionar-me a cada remodelação. Não sei se hei-de louvar a autoconfiança do primeiro-ministro ao fazer estas nomeações, se criticar o seu descaramento. Talvez com a ilustre excepção da Casa Branca de Donald Trump, não há certamente outra democracia ocidental que tenha o número de relações familiares do Conselho de Ministros da República Portuguesa – e se alargarmos a análise dessas relações a toda a família socialista, os resultados são de cair o queixo. Será preciso recuar até ao reinado de D. Carlos para encontrar uma corte com o nível de consanguinidade do governo de António Costa. Portugal é, neste momento, a república mais aristocrática do mundo ocidental.

Embora já tenha feito este exercício há ano e meio, vale sempre a pena actualizá-lo para memória futura. Ele demonstra na perfeição porque é que o termo “oligarquia” se tornou a expressão favorita de tanta gente, e porque é que o Partido Socialista, mais do que um herdeiro da Primeira República, é devedor de um certo espírito monárquico (veja-se a postura do presidente-rei Mário Soares, cujo filho também fez parte deste governo até prometer muito aristocraticamente um par de bofetadas marialvas a Augusto M. Seabra e a Vasco Pulido Valente), que o ajuda a olhar para si próprio como o verdadeiro, o autêntico e o genuíno dono da democracia portuguesa. O PS nem sempre está no governo, é verdade, mas quando não está faz questão de sublinhar que os outros não têm a necessária legitimidade, e quando está faz questão de provar que os outros não têm a necessária hereditariedade.

Vamos, então, à menos republicana lista do partido que mais se orgulha de ser republicano. Mariana Vieira da Silva, ministra da Presidência, é filha de José Vieira da Silva, ministro da Segurança Social. João Gomes Cravinho, ministro da Defesa, é filho do ex-ministro João Cravinho. António Mendonça Mendes, secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, é irmão de Ana Catarina Mendes, secretária-geral adjunta do PS. Eduardo Cabrita, ministro da Administração Interna, é marido de Ana Paula Vitorino, ministra do Mar. Ana Paula Vitorino, ministra do Mar, escolheu recentemente o advogado Eduardo Paz Ferreira para presidir à comissão que vai renegociar a concessão do terminal de Sines (em cima da mesa: 100 milhões de euros para expansão do terminal). O advogado Eduardo Paz Ferreira é marido da ministra da Justiça, Francisca Van Dunem.

Maria Manuel Leitão Marques, que agora deixou o governo, irá ocupar em Junho o cargo de deputada do PS no Parlamento Europeu. Esse cargo já antes foi ocupado pelo seu marido, Vital Moreira. A mulher do eurodeputado Carlos Zorrinho, Rosa Matos Zorrinho, deixou de ser secretária de Estado da Saúde, mas foi, entretanto, nomeada para presidir ao conselho de administração do Centro Hospitalar Lisboa Central. Guilherme Waldemar d’Oliveira Martins, filho do ex-ministro Guilherme d’Oliveira Martins, também deixou agora de ser secretário de Estado das Infraestruturas, após António Costa ter nomeado para ministro do Planeamento o seu amigo Nelson de Souza. Nelson de Souza vai juntar-se no governo ao grande amigo Pedro Siza Vieira, ministro-adjunto. Há ainda outro grande amigo, Diogo Lacerda Machado, que nunca quis ir para o governo, mas foi ajudando bastante, até acabar administrador da TAP. Pergunto: alguém acha isto normal?