Morreu Arnaldo Matos, fundador do MRPP

Advogado e activista político tinha 79 anos.

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Arnaldo Matos LUSA/ANtónio cotrim
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Arnaldo Matos (à direita na foto) não tinha qualquer cargo no partido que fundou MARILYN MARQUES

O fundador e líder do partido maoísta PCTP-MRPP, Arnaldo Matos, morreu na madrugada desta sexta-feira, em sua casa, em Lisboa, vítima de uma crise cardíaca, confirmou ao PÚBLICO a sua cunhada Violante Saramago de Matos.

Arnaldo Matias de Matos nasceu em Santa Cruz, Madeira, a 24 de Fevereiro de 1939 — estava a dois dias de fazer 80 anos, e os seus amigos e familiares tinham preparado uma homenagem para essa data — e continuava ligado ao partido que fundou, apesar de já não desempenhar qualquer cargo. Sofria de doença pulmonar obstrutiva crónica provocada pelo tabaco, embora já tivesse deixado de fumar. A notícia da sua morte foi avançada esta manhã pelo Jornal da Madeira.

"É com uma profunda tristeza e um enorme vazio que vimos informar que faleceu há poucas horas o nosso querido camarada Arnaldo Matos, fundador do PCTP/MRPP e um incansável combatente marxista que dedicou toda a sua vida ao serviço da classe operária e a lutar pela revolução comunista e por uma sociedade sem classes", escreve o partido numa nota enviada à Lusa.

Na nota intitulada "Honra ao camarada Arnaldo Matos" (1939-2019), o PCTP/MRPP diz que a sua obra e o seu exemplo "perdurarão para sempre na memória dos operários e dos trabalhadores portugueses e constituirão um guia na luta do proletariado revolucionário e dos comunistas pelo derrube do capitalismo e do imperialismo e pela instauração do modo de produção comunista e de uma sociedade de iguais".

Da clandestinidade ao PREC

Arnaldo Matos começou por ser um oposicionista ao regime de Salazar durante a juventude. A 18 de Setembro de 1970, fundou, juntamente com Vidaúl Ferreira, João Machado e Fernando Rosas, o MRPP - Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado, por defender que o Partido Comunista Português adoptara uma ideologia "revisionista" e deixara de ser o "partido do proletariado".

Arnaldo Matos era o secretário-geral do movimento, cujo órgão central foi sempre o jornal Luta Popular, lançado em 1971 (ainda no tempo da ditadura). O MRPP foi muito activo antes do 25 de Abril de 1974, especialmente entre estudantes e jovens operários de Lisboa e sofreu a repressão das forças policiais, reivindicando como mártir José Ribeiro dos Santos, um estudante assassinado pela polícia política durante uma reunião de estudantes da academia de Lisboa no então Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF) em 12 de Outubro de 1972.

No pós-25 de Abril, começou a ser conhecido por ser “delegado do Comité Lenine”, que era o Comité Central do MRPP, movimento que se legalizou em Fevereiro de 1975 e se transformou, em Dezembro de 1976, no Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses – Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado, o PCTP/MRPP. 

Logo após a legalização do movimento, em 18 de Fevereiro de 1975, Arnaldo Matos foi preso pela primeira vez em Mirandela, pelo COPCON, e foi a partir dessa data que todo o país ficou a saber o seu nome. “Libertação imediata do camarada Arnaldo Matos!”, gritaram então alguns militantes e simpatizantes no Rossio, em Lisboa.

"Nesses meses, de um Verão quente que começa antes do Verão e que se prolonga Outono dentro, o MRPP é a força hegemónica da extrema-esquerda", escreve o jornalista Miguel Marujo, citando um dos fundadores, Fernando Rosas, na obra Morte aos traidores! A história improvável do mais controverso partido político português, lançado em Novembro pela Matéria-Prima edições. 

Essa ideia mediática impõe-se, segundo o autor, "talvez por acção dos nomes que militam no partido e acabam por marcar a sociedade democrática portuguesa em vários momentos da sua história". Nomes como Ana Gomes, Agostinho Branquinho, Diana Andringa, Fernando Rosas, José Freire Antunes, José Lamego, José Manuel Durão Barroso, José Saldanha Sanches, Maria João Rodrigues, Maria José Morgado, Romeu Francês ou Vítor Ramalho, alguns dos quais foram presos em Maio de 1975, em pleno PREC (Processo Revolucionário em Curso), depois de o partido ter sido suspenso.

A primeira participação em eleições, em 1976, "é um estrondoso fracasso para o MRPP", apenas recebe 36.200 votos (0,66%) e é um duro golpe para o líder, Arnaldo Matos. Em 40 anos, em todas as eleições em que participou, o PCTP/MRPP nunca elegeu qualquer deputado.

A guerra com Garcia Pereira

Entre 1982 e 2015, Arnaldo Matos, denominado de grande educador da classe operária, deixou o partido, justificando na altura esta decisão com a ideia de que a contra-revolução tinha ganho, passando por isso a considerar o papel do partido na nova sociedade inútil. António Garcia Pereira ficou então à frente do PCTP/MRPP, sendo seu candidato presidencial e cabeça de lista às legislativas por diversas vezes. Até 2015, altura em que sai do partido em ruptura com Arnaldo Matos com acusações mútuas de "traição”.

Em Outubro desse ano, após as eleições legislativas, e apesar de não possuir nenhum cargo no PCTP/MRPP, Arnaldo Matos dá ordem de suspensão a todos os membros do Comité Permanente do Comité Central, o que inclui António Garcia Pereira, líder do partido e seu amigo pessoal. Começa uma luta interna que não terminou com a demissão de Garcia Pereira do Partido, em Novembro de 2015, e que pôde ser acompanhada no jornal online Luta Popular. Em Maio de 2017, Garcia Pereira quebrou o silêncio e publica oito textos num site intitulado "Em nome de verdade", com o objectivo de repor a verdade dos factos.

Desde então, Arnaldo Matos manteve a sua influência junto do partido. A última prova disso mesmo foi a nota à imprensa enviada pelo PCTP/MRPP em seu nome, há precisamente um mês, em reacção aos acontecimentos no Bairro da Jamaica, em que assina um texto intitulado Ninguém põe termo às agressões bárbaras da Polícia?!, no qual exige a demissão do ministro da Administração Interna e o julgamento e punição exemplares dos polícias intervenientes. com Márcio Berenguer