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Megafone

Bach, Tupac e Anitta entram num bar

É que o problema do Rui Veloso não foi apaixonar-se por uma moça que não ouvia a mesma canção que ele. Foi empenhar o anel de rubi antes de perceber que ela não era capaz de fazer o esforço para gostar. A pressa sempre foi má conselheira.

Há em mim um irreprimível fraquinho por discussões infrutíferas que podem levar horas à roda, à roda, à roda, transformando-se num agradável passeio entre interlocutores, ainda que por vezes a minha falta de orientação para chegar a um destino em comum se torne um aborrecimento insuportável.

Um dos temas que mais me apraz esmiuçar é a preferência pessoal da ordenação consciente de som num intervalo de tempo específico, vulgo gosto musical, decorrente em primeiro lugar da melomania e de seguida porque há poucas discussões tão inconsequentes como aquelas que se podem terminar à partida aplicando a incontestável lei que postula que os gostos não se discutem. Assim, sempre que tenho oportunidade, ignoro a lei e sem qualquer pejo torno-me um feliz transgressor.

A música é uma forma de arte praticamente ubíqua — e não só porque a partir de um momento as tecnologias nos permitiram transportar connosco toda a música que desejamos para qualquer lugar, como se pode observar por todo o mundo. Ao longo da História, em diversos contextos, esta forma de expressão surgiu espontaneamente provinda de um impulso íntimo que nos compele a contar histórias, amplificar mensagens, celebrar a alegria, agradecer a felicidade e, até, expurgar a dor através dela.

É sem dúvida fascinante observar as diferentes sonoridades ao longo do tempo e diversas culturas, mas isso é um trabalho digno de um profissional com credencias próprias para o fazer, portanto eu fico-me por analisar as relações do indivíduo com a música com que este se depara no momento.

Cada um se relaciona com a música de forma particular, tendo as suas predilecções formadas pelo seu juízo estético, que pode ser mais racional ou emocional. A parte racional merece-me pouco interesse, pois normalmente apenas é defendida acerrimamente por um bando de matemáticos com instrumentos que lhe dão um estilo acima da média, introduzindo demasiados critérios objectivos numa conversa que se quer subjectiva, normalmente demonstrando um desprezo pela própria discussão devido à soberba característica de quem acha que tudo sabe.

O emocional, por outro lado, alimenta disputas apaixonadas que não alteram em nada a opinião irredutível dos intervenientes, mas cria uma aproximação entre estes através do que as suas preferências revelam sobre si.

Bastantes vezes manquejam as palavras para veicular com clareza o que define o âmago do nosso ser, sendo a música um excelente cartão de visita, currículo e até biografia completa. Acredita-se que a música que se ouve na adolescência marca profundamente os gostos futuros, pois é a fase em que se procura sofregamente uma identidade que se possa assumir sem hesitações, que se explora com mente aberta, moldável e quase infantil, desenvolvendo uma capacidade crítica embrionária, procurando activamente tudo conhecer até começar aos poucos a criar laços fortes, por vezes com uma multiplicidade de géneros, por vezes criando laços tão fortes que se começa aí a criar as barreiras para futuras experiências. Não é de admirar que seja nessa altura que se comece a fazer parte das chamadas tribos urbanas que costumam ter um estilo específico de música associado, além dos uniformes que vestem para se diferenciarem.

Como com o avançar da idade se vai perdendo o tempo, a paciência e, principalmente, o tempo, para procurar novas experiências que retirem do conforto onde se está refestelado. Com o reconhecimento de que nunca se consegue conhecer tudo, procura-se insistentemente refúgio no conhecido e, tal como a avestruz, tenta-se ignorar o que não seja familiar ou capaz de nos embevecer em nostalgia. Mas quando por vezes aparece algo com que não conseguimos evitar o contacto, com o medo de se ficar de fora de algo que custa à nossa personalidade apreender, acaba-se por se estabelecer uma postura de combate, tentando desprezar a identidade dos outros de forma a acabar com um espaço onde não se pertence, um espaço concorrente, que por acidente se torna paralelo.

É que não há problema em ficar indiferente ou até de não gostar, nem sequer para dançar ou bater o pé. Alturas há em que, por muito que o Pessoa afirmasse, não é possível ultrapassar a primeira impressão de estranheza, e nunca somos atraídos pelas sensações do desconhecido que nos tenta cativar. Mas, apesar de já se ter os gostos bem definidos com todo um catálogo de escolhas seguras às quais recorrer, que a preguiça e a desconfiança faça torcer o nariz ao novo e diferente, nunca é tarde demais para fazer cair alguns preconceitos e dar um salto de volta ao tempo da descoberta.

É que o problema do Rui Veloso não foi apaixonar-se por uma moça que não ouvia a mesma canção que ele. Foi empenhar o anel de rubi antes de perceber que ela não era capaz de fazer o esforço para gostar. A pressa sempre foi má conselheira.

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