Crónica

"Oiço frequentemente a sua voz nos meus pensamentos"

Sequeira Costa (1929-2019), um dos poucos últimos exemplos do que é ser Artista num mundo de entertainers.

A minha relação com o pianista Sequeira Costa começou em 1974, quando lhe fui apresentado como possível aluno. Aceitou-me como o seu mais jovem aluno de sempre e aí começou uma relação que continuará até ao dia em que eu próprio respirarei pela última vez.

As primeiras experiências como ouvinte de Sequeira Costa, pianista, foram em Lisboa, em locais como a Fundação Calouste Gulbenkian e Teatro Municipal São Luiz. Mais tarde teria a oportunidade não só de o ouvir em vários palcos pelo mundo fora, mas também de partilhar palcos em concertos e recitais a dois pianos, inclusive duas gravações comerciais que efectuámos juntos.

Um pianista que ainda hoje é celebrado nas salas de concerto e escolas de música mais relevantes do mundo, muitas das suas interpretações continuam sendo referência. O seu Carnaval de Schumann, 24 Estudos de Chopin, Sonatas para piano de Beethoven, alguns andamentos da Suite Ibéria de Albéniz, estudos transcendentes de Liszt, sonata e lendas do mesmo compositor, obras do seu querido mestre, Vianna da Motta, mostram-nos um fiel músico totalmente dedicado à sua Arte, encontrando a excelência e o sublime na sua produção pianística e musical.

A minha época formativa como discípulo de Sequeira Costa, pedagogo, começou quando eu tinha cinco anos e, apesar de algumas interrupções, continuou até aos 21 anos.

PÚBLICO -
Foto
Sequeira Costa fotografado em 2008 Enric Vives-Rubio

Ensinou-me desde o mais básico saber como colocar as mãos no piano, independência digital, escalas e harpejos, até ao repertório mais avançado como a sonata em si menor de Franz Liszt ou o terceiro concerto de Serguei Rachmaninoff.
A sua metodologia técnica e musical são lendárias pela sua riqueza, inteligência e também exigência. Nenhum passo era dado ou tolerado sem que o passo anterior estivesse construído e compreendido de forma sólida e completa! Não nos dava meramente os resultados pretendidos, mas mostrava aos seus alunos como seguir e procurar o caminho que nos levasse a esses mesmos resultados. Um respeito, método e disciplina que hoje em dia já não são tolerados, aceites ou entendidos...

Hoje, não só quando dou aulas, mas também quando eu próprio toco em casa ou em palco, oiço frequentemente a sua voz nos meus pensamentos, repetindo ensinamentos que continuam a amadurecer dentro de mim. Sorrio quando vejo instruções suas nas minhas partituras, escritas nos anos 70 e 80, prevendo que mais tarde necessitariam de ser adaptadas de maneiras diferentes, adivinhando já nessa altura o que efectivamente hoje faço... É uma voz que me acompanha e me mantém interessado, entusiasmado, motivado, seguindo os seus ensinamentos e adaptando-os ao meu presente e futuro! É esse o legado do verdadeiro Mestre!

Ontem não só faleceu uma pessoa muito importante no meio musical internacional, morreu um dos poucos últimos exemplos do que é ser Artista num mundo de entertainers ...

Estoril, 22 de Fevereiro de 2019