Crítica

Fado e hip-hop como se fossem um só

Fado e hip-hop embatem sem estrondo pelas mãos de Stereossauro. Sem desastre. No entanto, não há maravilhamento ou deslumbramento perante esta união.

Stereossauro  cumpriu com  rigor e profissionalismo uma tarefa exigente
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Stereossauro cumpriu com rigor e profissionalismo uma tarefa exigente MIKE GHOST

Mais tarde ou mais cedo os caminhos tinham de se cruzar. E é um descanso saber que se cruzaram pela mão de Stereossauro, que lhes torceu os destinos até fado e hip-hop embaterem sem estrondo. Sem estrondo naquilo que isso tem de positivo e de negativo. Ou seja, não há desastre nenhum a acampar em Bairro da Ponte, o DJ e produtor nunca se espalha ao comprido, não incorre em opções que soam forçadas ou descabidas, faz com que as vozes de Camané, Ana Moura, Gisela João ou Carlos do Carmo pareçam tão lógicas quando deitadas sobre estes instrumentais quanto as prestações de NBC, Slow J, Capicua ou Ace. O que, convenhamos, não é coisa pouca.

Por outro lado, no entanto, não há maravilhamento ou deslumbramento perante esta união, como se Stereossauro tivesse cumprido com absoluto rigor e profissionalismo uma tarefa exigente — que envolvia partir do valiosíssimo acervo da Valentim de Carvalho respeitante a Amália Rodrigues e Carlos Paredes —, mas em que o casamento parece tão imaculado quanto a mera formalidade legal de uma ligação antiga. Parece contradição, é verdade: porque o casamento não é antigo e Stereossauro o faz soar tão natural que parece algo com que sempre crescemos. Camané e Carlos do Carmo deslizam sobre estes temas como se a sua aprendizagem nas casas de fados tivesse sido feita tanto a ouvir os maiores intérpretes do género, quanto os melhores guitarristas e beatmakers, a tocarem lado a lado. Só que essa ausência de surpresa rouba-nos o arrepio de ouvir (naqueles que são dois dos melhores temas de Bairro da Ponte) Camané a cantar Flor de maracujá ou Carlos do Carmo acompanhado por Legendary Tigerman e Ricardo Gordo a recriar o seu Cacilheiro.

É também irresistível ser apanhado em cheio pelo Nunca pares de Slow J, Papillon e Plutónio, ou pelo Código da rua de Ace, como é difícil resistir a Ana Moura num registo que parece tomar António Variações por modelo em Depressa demais, acompanhada por DJ Ride, ou Gisela João entregar-se a Vento e Capicua a espraiar-se por cima da guitarra portuguesa até desaguar na voz de Amália em Duas casas. Só que a sensação é a de que Stereossauro, talvez por excesso de talento, saltou um degrau. Não permitiu à música acolher a fricção entre géneros, limando-a até fado e hip-hop encaixarem sem dificuldade.

Seguindo uma busca pelo encontro de tradição e modernidade, Stereossauro mata com toda a limpeza um interdito que persistia na música portuguesa e em que ninguém se atrevia a pegar pela delicadeza e particularidade do que a proposta envolvia. E fá-lo com uma tal desenvoltura que ninguém se atreverá a partir de hoje a afirmar que fado e hip-hop não combinam, que são linguagens inconciliáveis ou que uma música nascida nos playgrounds de Nova Iorque não cabe na estreiteza das ruas dos bairros lisboetas que testemunharam o parto do fado.

Tendo acertado à primeira na forma de unir estas duas músicas, é possível que a única pecha de Bairro da Ponte seja, afinal, não se libertar mais desses dois legados e arriscar, como acontece em Arleking (tema com Rui Reininho) ou em Pequenino (com Holly), seguir uma música menos presa à encruzilhada que pretende explorar. Fazer uma música que vai sem precisar de dizer ao que vem.