Há quase 2000 bactérias nos nossos intestinos que desconhecíamos

Foram identificadas 1952 bactérias novas para a ciência que vivem nos intestinos humanos. O objectivo deste trabalho, que tem um investigador português como primeiro autor, é criar um mapa das espécies bacterianas do microbioma intestinal.

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Spencer Phillips/EMBL

No nosso intestino vivem milhares de bactérias. Agora foram aí identificadas precisamente 1952 bactérias novas para a ciência. Esta investigação foi conduzida no Instituto Europeu de Bioinformática do Laboratório Europeu de Biologia Molecular e no Instituto Wellcome Sanger (ambos no Reino Unido), tendo o investigador português Alexandre Almeida como primeiro autor. A equipa analisou as bactérias intestinais de indivíduos de várias partes do mundo com o objectivo de criar um mapa das espécies bacterianas do microbioma intestinal humano – conjunto de bactérias presentes nos intestinos.

“Das 1952 bactérias, conseguimos atribuir 98% e 94%, respectivamente, ao filo e à classe, e 91% a uma ordem conhecida. Curiosamente, 26% não foram atribuídas a uma família e quase metade (40%) não foram classificadas com um género conhecido”, explicita o artigo científico sobre o trabalho publicado na revista Nature. Estes resultados mostram que uma percentagem significativa destes microorganismos ainda desconhecidos pode pertencer a novas famílias e novos géneros, acrescenta o artigo.

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“Conhecendo todas as espécies pertencentes ao microbioma intestinal, podemos fazer estudos com muito mais precisão. Se certas bactérias (até agora por identificar) estão associadas a determinadas doenças, temos agora um mapa (uma referência) que podemos usar para as identificar”, explica ao PÚBLICO Alexandre Almeida, mestre em genética forense pela Universidade do Porto e que agora está no Instituto Europeu de Bioinformática. “É como fazer compras no supermercado: cada produto tem um código de barras associado. Agora temos o código de barras de todas estas bactérias e podemos encontrá-las muito mais facilmente em estudos futuros.”

O investigador português de 30 anos trocou o Porto pelo Reino Unido, tendo passado ainda por Paris para fazer o doutoramento na área da genómica microbiana. “A genética e a microbiologia têm sido os fios condutores da minha carreira”, conta Alexandre Almeida. Agora no pós-doutoramento no Instituto Europeu de Bioinformática passou do estudo de apenas alguns genes num reduzido número de amostras para “perceber a ecologia de comunidades microbianas”. Mas o seu trabalho não fica por aqui, uma vez que pretende continuar a estudar o microbioma intestinal, perceber as interacções entre as diferentes bactérias deste local e a forma como influenciam a saúde humana.

Apesar de o universo estudado ser referente ao microbioma intestinal completo (intestino delgado e grosso), o cientista português notou ainda que “estamos a analisar amostras fecais, por isso é possível que haja um enviesamento para as bactérias presentes no intestino grosso”.

Uma descoberta mais ocidental  

Foram analisados os microbiomas intestinais de cerca de 12.000 indivíduos de várias partes do mundo – América do Norte, América do Sul, Europa, Ásia e África. No entanto, apenas cerca de 10% das amostras eram de indivíduos de origem asiática, africana ou sul-americana. A grande maioria de bactérias analisadas pertencia assim a indivíduos da América do Norte e da Europa (cerca de 52% e 36%, respectivamente) por existir uma maior disponibilidade de dados dessas regiões. Por isso, as bactérias que compõem o microbioma intestinal da população desses dois continentes já foram identificadas quase na totalidade e apresentam semelhanças que os cientistas interpretam pela existência de uma dieta similar.

No lado oposto, as outras regiões do mundo continuam com um grande número de bactérias por descobrir. “Nas amostras fora da Europa e da América do Norte ainda continuam a detectar-se novas espécies não cultivadas [em meio de cultura no laboratório] numa taxa consistente. Estes resultados mostram a importância de obter amostras de regiões pouco representadas para continuar a descobrir a diversidade global das bactérias do intestino humano”, nota o artigo científico.

Este enviesamento dos dados por regiões geográficas dificulta o trabalho dos investigadores em criar um modelo do intestino humano alargado à população mundial. Assim, este estudo aponta para a necessidade de uma maior cobertura de dados. Só assim será possível atingir o objectivo da investigação de “criar um mapa das espécies bacterianas que pertencem ao nosso microbioma intestinal, identificar aquelas que ainda não foram cultivadas e tentar perceber porquê”, explica Alexandre Almeida.

Neste estudo, os investigadores ainda estão a trabalhar na identificação dos géneros e das espécies das bactérias agora descobertas – que se juntam às cerca de 500 ou 600 espécies de bactérias diferentes já conhecidas de estudos anteriores, segundo o investigador português – e a tentar compreender o seu papel na saúde humana. Ainda assim, esta investigação realça a forma como a composição das bactérias nos intestinos difere de região para região e a importância de recolher dados de todos os cantos do mundo para conseguir uma informação mais completa.

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O investigador Alexandre Almeida DR

A relevância deste estudo recai também na identificação e no tratamento de doenças gastrointestinais. “Investigações como esta estão a ajudar-nos a criar um modelo do intestino humano, que no futuro nos ajudarão a compreender melhor a saúde humana e as doenças e até poderão vir a ser orientadores do diagnóstico e tratamento de doenças gastrointestinais”, aponta um dos coordenadores do estudo, Trevor Lawley, do Instituto Wellcome Sanger, citado num comunicado sobre o trabalho.

Depois dos quase 2000 “códigos de barras” adicionados às bactérias intestinais, esta investigação ainda agora começou. Os cientistas querem agora perceber quais, entre estas bactérias, são as mais importantes para a saúde humana e melhorar o tratamento de doenças como o cancro intestinal.

Texto editado por Teresa Firmino