Editorial

Uma moção de estímulo ao Governo

António Costa só pode ter ficado a rir. As greves, o abrandamento da economia, o recurso ao Estado como plataforma de propaganda do PS, ou a remodelação em circuito fechado ficaram por uns dias no congelador.

Das 30 moções de censura apresentadas desde o 25 de Abril houve de tudo - das que faziam sentido aos óbvios exercícios pirotécnicos destinados a provar a existência de alguém. Até que ontem o regime experimentou algo de novo: uma moção que tinha como alvo óbvio não o Governo mas um partido da oposição. Que era um nado morto, já se sabia por causa da proverbial hipocrisia da esquerda que diz horrores do Governo mas que lhe dá a mão sempre que o Governo quer aprovar orçamentos ou está em apuros. Que era um disparate por não ter acontecido nada de novo e por estarmos a meses de legislativas, era fácil de perceber. E que era essencialmente uma “rasteira” que o CDS decidiu pregar ao PSD ficou demonstrado sem equívocos.

Assunção Cristas e a sua brigada sabiam bem que a moção estava condenada a ficar abaixo da nota de rodapé na memória deste Governo. Mas, sabiam também que colocava um dilema ao PSD. Ou Rui Rio decidia votar a favor e ficaria sem dó nem piedade atrelado à agenda do CDS; ou votava contra e fazia recair sobre Rio o anátema do líder mole, inconsequente e incoerente, que, como o PCP e o Bloco, critica o Governo para depois fazer de morto. Ou seja, o CDS tinha tudo a ganhar e o PSD tudo a perder. A menos que Rui Rio decidisse ser diferente como promete a cada passo e baralhasse os dados do jogo.

No fim-de-semana, Rio sugeriu que poderia ir por aí. Quando denunciou o “tacticismo de curto prazo” da política, a “comunicação imediatista e superficial” dos jornais e o “bota-abaixo” dos partidos deixou pistas que a sua visão estratégica implicava a recusa de uma moção carente de prazo e pertinência. Terá pensado melhor. E, para felicidade do CDS, espalhou-se. Com o voto a favor decidido, os seus deputados não estiveram para servir de adorno às veleidades do CDS e faltaram a uma reunião crucial. Ontem, as honras de defesa da causa do maior partido da oposição ficaram a cargo de Joana Barata Lopes. Que, acusando o peso do castigo, se limitou a produzir meia dúzia de palavras anódinas.

António Costa só pode ter ficado a rir. As greves, o abrandamento da economia, o recurso ao Estado como plataforma de propaganda do PS, ou a remodelação em circuito fechado ficaram por uns dias no congelador. E ele sobreviveu ao “tacticismo de curto prazo” e ao “bota-abaixo”. Com amigos como o CDS, o PSD não precisa de inimigos. E o PS também não.

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