Crítica

Jacques Audiard tenta ser americano na América

O cineasta francês em estilo “genérico”, sem nada a acrescentar ao western.

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É só pelos actores, mesmo quando estão em “show”, que Os Irmãos Sisters não se afunda na indiferença mais anónima
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Ver Jacques Audiard a filmar um western na América é coisa que teríamos como bastante improvável, mas o facto é que aconteceu, é este Os Irmãos Sisters. Talvez ainda mais estranho, Audiard aparece aqui como realizador “sob contracto”, porque a alma mater do projecto é John C. Reilly, que produz o filme, é um dos seus protagonistas, e presumivelmente terá sido quem se lembrou de chamar o cineasta francês para dirigir as operações. É, de qualquer maneira, e a priori, o tipo de cruzamento que desperta a curiosidade e pode produzir resultados bastante inesperados.

“A priori”, porque à Audiard terá levado demasiado perto da letra o conselho que preconiza que “em Roma sê romano”, tentando afincadamente ser americano na América. O relativo desapontamento que se vai instalando, sem regresso, ao longo do visionamento, tem que ver com isso, com a maneira como Audiard se cola a um estilo de narração que não é o seu, mantendo-o a um nível funcionalmente “genérico” e sem lhe acrescentar grande coisa — nem mesmo, embora com boa vontade se possa ver aí um certo “dedo”, nas sequências mais íntimas ou mais conviviais, onde a interacção entre as personagens aponta, mais do que verdadeiramente a concretiza, àquela impressão de espontaneidade “realista” que conhecemos dos seus filmes franceses. De resto, apesar de o filme tentar manter alguma desenvoltura pragmática (e um certo humor) também convém dizer que não é bem um western mas, como todo os filmes semelhantes feitos agora, um post-western, onde tudo se define por relação com os códigos clássicos e com a consciência deles — é por aí que o filme (na sua abordagem dos “temas”: a ganância, a família, a liberdade, etc) se enche de “comentário”, mais ou menos em subtexto, que também rima com o carácter um tanto “cartoon” das personagens (e releva da consciência que Audiard tem de estar a lidar com estereótipos, mas um nadinha demasiado satisfeito com eles). Depois há o elenco, Reilly e Joaquin Phoenix como “irmãos Irmãs”, mais Jake Gyllenhall e Riz Ahmed: é por todos eles, mesmo quando estão em show, que o filme não se afunda na indiferença mais anónima.