Editorial

Não subestimem o “artista”

O homem ganha quando perde. Mesmo a descer nas sondagens, Costa só não ganhará as eleições se for incompetente.

“Se o PSD não ganhar as eleições é porque somos incompetentes.” Manuel Castro Almeida, vice-presidente do PSD, defendeu esta segunda-feira, em entrevista ao Jornal de Negócios, que a ideia da maioria absoluta do PS já se tinha esfumado e que o Governo entrou em contraciclo. O PS foi bafejado por uma conjuntura favorável a vários níveis, desde o desgaste dos anos da troika a uma recuperação económica empurrada por um inesperado boom turístico, que resultou num ambiente de menor crispação.

É verdade que o Governo atingiu o pico de popularidade em 2017, a meio do mandato, e que desde aí se têm sucedido peripécias pouco abonatórias para a governação. Os trágicos incêndios de 2017, a comédia do assalto a Tancos, a interminável contestação social (já foram entregues 112 pré-avisos de greve desde 1 de Janeiro) ou um eventual abrandamento económico vieram comprometer o passeio triunfal de António Costa.

“Rio será muito melhor primeiro-ministro do que líder da oposição.” Não custa acreditar em Castro Almeida. Até aqui, o líder do PSD tem gasto todo o seu tempo e energia a lutar contra a oposição no seu próprio partido. Quanto ao resto, a moção de censura de Assunção Cristas é uma oportunidade para alargar o seu espaço, enquanto o PSD se mantiver na modorra, e antes que venham daí a Aliança e o Chega. Mas não é expectável que o PS se pulverize nas próximas europeias e que o PSD cresça e se multiplique, de modo a garantir a devida tranquilidade até às eleições de Outubro. Acresce que não há, até ao momento, um motivo razoável para fazer de Rio uma alternativa convincente. Rio nem faz oposição, nem a lidera.

As sondagens não são tranquilizantes para a maioria absoluta que Costa não diz que quer: o primeiro-ministro continua a ser o líder partidário mais popular, mas os seus níveis de popularidade têm vindo a descer, ao contrário do que acontece com Rio. O mesmo acontece, de resto, com Marcelo. Mas não subestimem o “artista”. O homem ganha quando perde. E o melhor que Rio conseguirá será mais um ou outro acordo sem importância, acerca de temas de grande importância, para épater le bourgeois e com sentido de Estado. Mesmo a descer nas sondagens, Costa só não ganhará as eleições se for mesmo muito incompetente.

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