Análise

A europeização da política britânica

O “Brexit” é fundamental para encontrar uma explicação. A angústia sobre o seu desfecho está a atingir o seu ponto máximo à medida que se aproxima a data de saída sem que se vislumbre, sequer, uma pequena luz ao fundo do túnel.

1. Porquê agora? Com que efeitos sobre o desfecho do “Brexit”? São perguntas legítimas, colocadas pela imprensa britânica, perante a decisão de sete deputados do Labour de abandonarem o partido, denunciando duramente o caminho tomado pela liderança de Jeremy Corbyn. O “Brexit” é fundamental para encontrar uma explicação. A angústia sobre o seu desfecho está a atingir o seu ponto máximo à medida que se aproxima a data de saída sem que se vislumbre, sequer, uma pequena luz ao fundo do túnel. O grupo dos sete não poderia esperar mais um dia sem se distanciar de uma situação que consideram catastrófica, marcando posição na questão que hoje mais divide os dois grandes partidos britânicos. É uma jogada arriscada, que apenas fará sentido se conseguirem atrair não apenas mais deputados do seu partido, mas alguns conservadores dispostos a tentar impedir o que vêem igualmente como um desastre e mostrar, também eles, que não estão reféns da ala antieuropeia dos tories.

2. Mas o que aconteceu, mesmo que tenha como epicentro o “Brexit”, como tudo o que acontece hoje na vida política britânica, vai para além dele. O Financial Times colocava a questão nestes termos: “Estes sete deputados estão a ocupar um vazio criado no centro da política britânica, quando o Labour se virou radicalmente para a esquerda e os conservadores viraram à direita.” É, porventura, um sinal inequívoco de que o sistema de dois grandes partidos que governam o Reino Unido alternadamente, e que se tem mantido à prova de qualquer tempestade, pode ter chegado ao seu momento da verdade.

O paralelismo histórico é conhecido. Nem a emergência do Partido Social-Democrata em 1981, cortando com os mesmos tiques do Labour de que Jeremy Corbyn é o herdeiro, conseguiu alterar o domínio dos dois grandes partidos, solidamente assente num sistema eleitoral uninominal a uma volta que tem impedido qualquer “proliferação”. Os sociais-democratas dos anos 80 transformaram-se, depois, em liberais-democratas. Curiosamente, nunca chegaram a aliar-se ao New Labour, com o qual tinham visíveis afinidades, mas que os dispensou justamente por dispor de amplas maiorias no Parlamento durante os seus sucessivos governos (1997-2010). Foi apenas em 2010, quando David Cameron conseguiu finalmente vencer eleições ainda que sem uma maioria em Westminster, que acabaram por se coligar com os conservadores para, depois, fenecerem, logo que os tories regressaram às maiorias. Mas, como também salienta alguma imprensa britânica, as circunstâncias são outras e podem ditar um destino diferente.

3. O fenómeno não é apenas britânico, antes representa uma tendência geral na Europa continental, que tende a “europeizar” a política britânica, como já aconteceu em outros momentos de viragem, ou a tornar a política europeia mais “anglo-saxónica, como se verificou em outros. Como escrevia nesta terça-feira Tony Barber, também no FT, esta primeira dissensão demonstra que “o sistema político britânico está a fragmentar-se em resposta às pressões políticas, económicas e sociais de forma similar aos sistemas partidários da Europa continental”. “Com a emergência de um novo tipo de grupos de extrema-direita e de extrema-esquerda no espectro político”, deixando as forças moderadas a lutar para não perderem a sua tradicional influência. Do lado de cá da Mancha, a integração europeia também não é alheia a esta “proliferação”. Haverá um Macron disponível no Reino Unido, perguntava ontem o site Politico. A resposta é fácil: “Macrons” são coisa rara. Mas também o sistema eleitoral francês, uninominal a duas voltas, não é particularmente favorável à proliferação partidária e Macron partiu do zero para formar um partido e vencer as eleições em pouco mais de um ano.

4. Os dissidentes do Labour apresentaram razões para abandonar o partido que vão muito além da urgência do “Brexit”, mas que também significam que desistiram de uma transformação do Labour por dentro. Criticam Jeremy Corbyn por ter posto em causa as alianças estratégicas do Reino Unido e o seu modelo económico, defendendo uma política externa “antiocidental” e um programa económico anticapitalista que consideram totalmente desactualizado. A conclusão só poderia ser uma: este Labour não tem condições para governar o país. Nada disto é novo entre a facção moderada e ainda tendencialmente “blairiana” em que se incluem alguns dos sete, ainda que não todos.

Mas há um factor inesperado e perturbador nos motivos que os levaram a esta tomada de posição: o argumento de que o anti-semitismo que grassa no Labour, ou que, pelo menos, é consentido pela sua actual liderança, se tornou insuportável. Uma das “dissidentes”, Luciana Berger, judia, disse-o sem meias-palavras, manifestando a sua “vergonha” e o seu “embaraço”. A questão tem surgido repetidamente na imprensa britânica. E, mais uma vez, basta atravessar a Mancha para constatar que o fenómeno não é exclusivo. Foi público e notório o ataque dos gilets jaunes ao filósofo francês Alain Finkielkraut, judeu, numa rua de Paris no sábado passado, obrigando o Governo a tomar uma série de medidas. Não é sequer a primeira vez que isto acontece em ligação com o movimento de contestação que surgiu em França em Novembro do ano passado. Também aqui há uma preocupante coincidência a demonstrar que o “Brexit” é apenas um sinal de um mal-estar muito mais profundo que é tão britânico como europeu.