Opinião

Mudar para surpreender – e para crescer

Não existe nada de permanente a não ser a mudança. Simples e verdadeira, esta máxima de Heráclito há muito que passou a ser incorporada no ideário do futebol. Ou não tivesse ele próprio percorrido um caminho tão longo e produtivo, década após década, até chegar ao ponto em que nos é servido com tantas nuances. O que hoje faz verdadeiramente a diferença não é tanto o reconhecimento da necessidade de mudar, mas a velocidade e a eficácia com que se consegue fazê-lo.

Assumir uma inversão de marcha apenas quando chocamos de frente com a parede não é um sinal de inteligência, mas de simples reflexo instintivo. Clarividente é aquele que consegue antecipar o esgotamento da fórmula ainda no pico do sucesso, que desbrava caminhos alternativos e pedregosos mesmo dispondo de uma auto-estrada por diante. Marcel Keizer está (ainda) muito distante deste patamar, mas já começa a deixar indícios encorajadores.

Um sinal importante foi apresentado no passado domingo. Mais do que em qualquer outro duelo interpares já travado nesta época (e refiro-me aos jogos com FC Porto, Benfica e Sp. Braga, na Taça da Liga), o holandês mostrou algum rasgo estratégico e capacidade para confundir o rival, servindo-lhe do próprio veneno.

Sem poder contar com Mathieu, indiscutivelmente o central mais lúcido do plantel com bola, Keizer idealizou duas mexidas importantes no quarteto defensivo. A primeira foi a simples troca de posição dos centrais (Ilori passou para a direita do eixo e Coates para a esquerda), favorecendo as dinâmicas pelo corredor direito; a segunda, e mais impactante das duas, foi a saída a três na primeira fase de construção.

Em si mesma, a saída a três tem sido (e não apenas no Sporting) uma solução recorrente, mas não da forma como foi pensada especificamente para o embate com o Sp. Braga. A regra tem sido baixar um dos médios para o espaço entre os centrais (habitualmente Gudelj) na primeira fase de construção, alargando o campo com a amplitude conferida pela subida dos laterais. Ou seja, em posse a equipa passa a dispor-se em 3x4x3, procurando criar superioridade no sector intermédio.

O 3x4x3 empregado diante do Sp. Braga, porém, acolheu uma nuance que mexeu com o jogo: a utilização de um dos laterais para formar a primeira linha de três. A escolha recaiu sobre o canhoto Cristián Borja, na linha do que fez com sucesso, por exemplo, o Bayern Munique de Pep Guardiola - essa foi uma das múltiplas variantes usadas pelo treinador catalão para encurtar o espaço e garantir uma troca de passes mais rápida e precisa.

Em Alvalade, essa solução teve o condão de não só baralhar as referências de pressão aos avançados do Sp. Braga, que passaram a ter Gudelj disponível para receber nas suas costas, mas acima de tudo de criar superioridade no corredor direito. Foi por aí que o Sporting atacou preferencialmente, porque Sequeira teve de preocupar-se mais do que seria previsível com Ristovski (cujas costas estavam cobertas por Ilori) e Bruno Fernandes, que passou a colocar-se na diagonal, entre o macedónio e Bas Dost. Do lado contrário, o mesmo desenho era garantido por Acuña, que actuava como falso lateral, e Diaby, formando-se um gigante triângulo (quatro médios + três atacantes) que ousou empurrar o rival para o terço defensivo.

Na dicotomia da causa e consequência, esta opção estratégica teve o mérito simultâneo de condicionar a organização ofensiva do rival, ou não se tivesse o Sp. Braga distinguido esta época por uma saída de bola a três utilizando os centrais e o... lateral direito, para permitir maior projecção a Sequeira e acentuar as dinâmicas de corredor com João Novais ou Ricardo Horta (que desta feita começou no banco). Ao dar trabalho redobrado ao esquerdino, que teve de lidar também com os movimentos de dentro para fora de Bruno Fernandes e até de Wendel, o Sporting anulou uma das armas preferenciais do adversário.

Trata-se de um claro (e até agora inédito) upgrade de Marcel Keizer, que acabou por invadir o quintal do Sp. Braga roubando-lhe os trunfos. E esta capacidade de surpreender, de escalpelizar o jogar do oponente e encontrar o antídoto para o aplacar tornou-se um aliado imprescindível de um treinador/pensador/estratega de sucesso.

Porque cada jogo levanta problemas diversos e cada adversário recorre a diferentes ferramentas para erguer a obra que projectou, este não é hoje o desafio de uma época, mas quando muito de uma semana de trabalho (na lógica de um microciclo ou morfociclo dito normal). O que equivale a dizer que o Sporting terá de metamorfosear-se novamente para quinta-feira, para que possa submergir o Villarreal na água fria do planeamento estratégico.

Sugerir correcção