Crítica

Não houve Eurovisão nos Massive Attack – mas a visão de uma Europa perdida

Nem nostalgias, nem celebração. Foi um concerto intenso e interpelador. Os Massive Attack apresentaram Mezzanine no Campo Pequeno. Repete-se esta terça-feira.

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Nuno Ferreira Monteiro
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Eles tinham avisado. Veja-se o que disseram quando anunciaram a presente digressão: “Não haverá finais felizes à Hollywood.” Leia-se a entrevista que Robert del Naja (3D) concedeu ao PÚBLICO: “Não haverá espaço para nostalgias.” Ainda assim, no final, muita gente queria ouvir mais. Desejava celebração. Um final radiante. É natural. A maior parte dos que lotaram por completo o Campo Pequeno (esta terça-feira repete-se) cresceu a ouvir Mezzanine, o terceiro álbum dos Massive Attack, lançado há 20 anos, que é o pretexto para a presente digressão. Mas eles não estão aí.  

Eles estão num plano em que a intensidade e a justeza das emoções surgem em primeiro lugar. Em vez de Eurovisão e distracção, devolvem-nos uma visão de uma Europa que nos últimos 20 anos não foi capaz de se regenerar. Cada vez mais envolvida em impasses sociopolíticos, mas ainda assim, caminhando, como se nada fosse, como se estivesse tudo bem. Poder-se-á sempre questionar qual a eficácia, do ponto de vista político, de um espectáculo audiovisual como aquele que o Campo Pequeno viu e ouviu, no meio de tantos estímulos, mas isso eles só podem controlar, até certo ponto. Agora que tentam, disso não restam dúvidas.

A música, essa, como se esperava, resultou na interpretação de todas as canções do álbum, misturadas com versões de temas (dos Velvet Underground, The Cure, Bauhaus, Ultravox, Peter Seeger) que influenciaram a feitura do mesmo através da extracção de pequenos apontamentos sonoros – ou seja, a música foi quase sempre assombrada e inquieta, por vezes diluindo a sua tensão em momentos em que o balanço físico do dub se fazia sentir, para logo de seguida regressar o caos, com guitarras cerradas, impulsos rítmicos entorpecedores que vão em crescendo, tudo envolvido por um ruído sintético abstracto de paranóia.

Os Massive Attack nunca fizeram parte do circo do rock & roll, trocando juras de amor com a assistência, dizendo que vão tocar a última para segundos depois regressarem a pedido do público. Esse tipo de coisas. E não era agora que o iriam fazer, num espectáculo em que contaram com as imagens do documentarista inglês Adam Curtis. Não existem propriamente mensagens. Não é por aí que eles se posicionam. O que há é a projecção de cenários, de interrogações, de dúvidas, de que ninguém escapa. “Pensa, atreve-te, faz”, lê-se às tantas nos ecrãs. Sim, vemos Blair ou Trump – logo seguido de assobios da assistência –, mas não existe propriamente um inimigo visível. Políticos somos todos nós. No limite o que é veiculado é que estamos todos perdidos, na imensidão do espaço digital, no excesso de informação, na sensação equívoca de que tudo já foi tentado (ideologias políticas ou conceitos musicais) e não existe nada de novo a propor. É necessário reagir com ideias novas à paralisia.

PÚBLICO -
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Robert Del Naja (3D) Nuno Ferreira Monteiro

Vestidos de negro, quase sempre em contraluz, lá vemos o ruivo 3D, e o colectivo de músicos, entrando depois em cena, espaçadamente, Daddy G, o veterano Horace Andy e Elizabeth Fraser ​. Nos ecrãs vão sendo projectadas imagens, disparos de luz intensa e frases interpeladoras em português. Começaram com I found a reason, dos Velvet Underground, ruído seguido de lirismo, Saddam Hussein e Barbie, duas baterias e guitarras contorcendo-se, para de seguida entrarmos nos ritmos dolentes com Risingson, antes de regressarem as versões com 10:15 Saturday night, original dos The Cure, com 3D a incarnar Robert Smith, tal como fará de Peter Murphy na magnífica recriação de Bela lugosi’s dead dos Bauhaus, assumindo a herança pós-punk do projecto.  

Em Man next door ou See a man’s face é a voz em falsete de Horace Andy que brilha, enquanto a voluptuosidade de Elisabeth Fraser se faz sentir em Black milk, na recriação enlevada de Where have all the flowers gone? (original de Pete Seeger), com imagens angustiantes de conflitos nos ecrãs. Mas claro que os momentos mais festejados acontecem quando são tocados temas como Inertia creeps, com o som maquinal entrecortado pela voz sussurrada de 3D e as guitarras estridentes até ao desvario total, enquanto nos ecrãs vemos imagens grotescas de Trump e Putin, confundindo-se.

O mesmo entusiasmo do público faz-se sentir no crescendo emocional de Angel, com Horace Andy a mostrar que continua em grande forma, ou no minimalismo encantatório de Teardrop, com Elisabeth Fraser a brilhar. Pelo meio ainda existe uma citação irónica a Levels de Avicci e uma recriação punk efusiva de Rockwrok dos Ultravox, antes de se entrar em Group four, com 3D e Elisabeth Fraser a partilharem as vozes. No final não houve confetti, festa, celebração. Apenas uma frase nos ecrãs: “Está na hora de deixar os fantasmas para trás e começar a construir o futuro.”