Ex-director do FBI acusa Trump de acreditar mais em Putin do que nos serviços secretos

"Não quero saber. Eu acredito no Putin", terá dito o Presidente sobre os mísseis da Coreia do Norte. Em entrevista à CBS, Andrew McCabe diz que o n.º 2 do Departamento de Justiça quis usar um microfone escondido na Casa Branca.

Andrew McCabe foi despedido em Janeiro de 2018, a poucas horas de se reformar
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Andrew McCabe foi despedido em Março de 2018, a poucas horas de se reformar Reuters/Aaron Bernstein

Andrew McCabe, o antigo director-adjunto do FBI que dirigiu a organização durante três meses em 2017, disse que o Presidente Donald Trump descartou os relatórios dos serviços secretos norte-americanos sobre os mísseis nucleares da Coreia do Norte porque a Rússia tinha outras informações: "Não quero saber. Eu acredito no Putin", terá dito Trump.

Segundo McCabe, a conversa aconteceu durante uma reunião em 2017, na Casa Branca, sobre a capacidade do arsenal nuclear norte-coreano. O então director-adjunto do FBI não esteve presente nessa reunião, mas disse que foi informado pelos seus colegas.

"O Presidente disse que não acreditava que os norte-coreanos tivessem capacidade para nos atingir com mísseis balísticos. E não acreditava porque o Presidente Putin lhe tinha dito que eles não tinham essa capacidade. O Presidente Putin disse-lhe que a Coreia do Norte não tinha esse tipo de mísseis", disse Andrew McCabe numa entrevista ao programa "60 Minutes", do canal CBS.

McCabe disse que ficou "chocado" quando soube das declarações do Presidente Trump.

"Os responsáveis dos serviços secretos que estavam na reunião disseram que aquilo não era consistente com nenhuma informação que estivesse na posse do governo, ao que o Presidente respondeu: 'Não quero saber. Eu acredito no Putin.'"

“É uma coisa espantosa de se dizer", comentou McCabe na entrevista à CBS. "É chocante ser-se confrontado com uma descrença total nestes esforços e com uma falta de vontade de conhecer a verdadeira situação com que ele tem de lidar todos os dias."

Andrew McCabe chegou ao FBI em Fevereiro de 2016, nomeado pelo então director, James Comey. Quando Comey foi despedido pelo Presidente Trump, em Maio de 2017, McCabe foi o director interino do FBI até Agosto desse ano.

Tal como James Comey, Andrew McCabe viu o seu futuro no FBI posto em causa com a chegada de Donald Trump à Casa Branca, em Janeiro de 2017. Segundo os dois antigos responsáveis, o Presidente norte-americano tentou convencê-los a travarem as investigações sobre a interferência russa nas eleições de 2016. Essas acusações de obstrução da Justiça fazem parte da investigação do procurador especial Robert Mueller.

Comey foi despedido em Maio de 2017, na sequência de uma conversa em que o Presidente Trump lhe terá pedido para deixar cair a investigação sobre Michael Flynn, o ex-conselheiro de Segurança Nacional norte-americano com ligações à Rússia que tem colaborado com as investigações de Robert Mueller.

McCabe foi despedido no dia 16 de Março de 2018, a apenas 26 horas de se reformar, ficando sem acesso aos benefícios associados. A ordem foi dada pelo então procurador-geral, Jeff Sessions, depois de McCabe ter sido considerado culpado, num inquérito interno, de passar informações ao Wall Street Journal sobre o seu envolvimento nas investigações à Fundação Clinton – McCabe disse ao jornal que defendeu essa investigação apesar das dúvidas de um responsável do Departamento de Justiça.

"Golpe de Estado burocrático"

A entrevista do antigo director-adjunto do FBI focou-se nas investigações do Departamento de Justiça, nos últimos dois anos, às suspeitas de que a Rússia e elementos da campanha eleitoral de Donald Trump agiram em conjunto para prejudicarem a candidatura de Hillary Clinton nas eleições de 2016.

McCabe contou alguns episódios que já tinham sido noticiados pelos media norte-americanos com base em fontes anónimas, mas que agora passam a ter um nome e um rosto.

Os dois casos mais importantes reflectem um estado de pânico na cúpula do Departamento de Justiça em 2017, após o despedimento de James Comey do FBI, e podem criar sérios problemas ao actual procurador-geral-adjunto, Rod Rosenstein – o homem que supervisionava as investigações sobre a Rússia devido ao afastamento voluntário do então procurador-geral, Jeff Sessions.

Segundo McCabe, Rosenstein sugeriu usar um microfone escondido para gravar conversas com Trump na Casa Branca, para captar provas de obstrução da Justiça. E lançou a ideia de accionar a 25.ª Emenda da Constituição norte-americana para destituir o Presidente.

"Na discussão sobre a 25.ª Emenda, o Rod estava a pensar em quantas pessoas do gabinete [do Presidente] poderiam apoiar essa iniciativa. Estava a contar votos, ou possíveis votos", disse McCabe.

"Nessa altura, o procurador-geral-adjunto estava muito preocupado com o Presidente, com a sua capacidade e com as suas intenções. Foi uma altura muito stressante. A sugestão aconteceu no meio de uma conversa caótica sobre que passos deviam ser dados."

O Departamento de Justiça respondeu as estas declarações de Andrew McCabe num comunicado escrito com muito cuidado com as palavras. O texto nega que haja bases para se invocar a 25.ª Emenda, mas não comenta especificamente se o responsável discutiu essa ideia numa reunião.

"Tal como o procurador-geral-adjunto disse anteriormente, com base no seu relacionamento com o Presidente, não há bases para invocar a 25.ª Emenda, nem o procurador-geral-adjunto estava em posição de admitir invocar a 25.ª Emenda", disse o Departamento de Justiça.

 A 25.ª Emenda da Constituição norte-americana estabelece os termos em que um Presidente é considerado inapto para continuar no cargo, sendo substituído pelo vice-presidente. Mas isso só pode acontecer com a aprovação de pelo menos oito dos 15 membros do gabinete do Presidente, do vice-presidente e de maiorias de dois terços na Câmara dos Representantes e no Senado.

Em resposta, o senador Lindsey Graham, responsável pela Comissão de Assuntos Judiciais do Senado, prometeu abrir uma investigação às declarações de Andrew McCabe. Para Graham, o que pode estar em causa é uma "tentativa de golpe de Estado burocrático" para afastar o Presidente dos EUA.

"Toda a gente deve saber se isso aconteceu. Farei tudo o que puder para chegar ao fundo do comportamento do Departamento de Justiça e do FBI em relação ao Presidente Trump e à sua campanha eleitoral", disse o senador do Partido Republicano ao canal CBS.