Crónica

A última vez que vi Rodney King

<i>¡Qué viva México!</i>: frontes belas, troncos secos, os olhos  tristes
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¡Qué viva México!: frontes belas, troncos secos, os olhos tristes

Observo os rapazes pardacentos de ¡Qué viva México!: frontes belas, troncos secos, os olhos tristes. Um deles namora uma rapariguita, chama-se Maria e trabalha na herdade. Eisenstein não está sozinho, também oiço os miúdos do Jamaica: “Ah, tá a gravar? Já tá. Encosta assim bem na parede…”. O patrão puxa a rapariguita e faz-lhe coisas que ela não quer. “Agora é que é a merda toda. Abuso de poder. Vamos lá ver como é que reagem... Olha, é agora, o abuso de poder começa aqui…”.  Oiço ao longe Chullage a filmar National Ghettografik: “Olhos filmam, a mente grava, rima revela / É a realidade que se agrava em todo o gueto”… O namorado revolta-se e os companheiros logo o seguirão, mas  o atrevimento é severamente reprimido: no silêncio abismal que só existe no visionamento colectivo de um filme, vemos os três rapazes serem enterrados vivos no deserto, apenas as cabecitas de fora, uns 40 graus à sombra que praticamente sentimos nas mãos suadas que nos tremem sobre os joelhos. E agora que as ancas já nos doem de tanto agoniarmos na cadeira, eis que as relinchantes esporas da lei & ordem avançam para cima dos rapazes, os cascos metralhando as suas moleirinhas encrespadas. Glorioso festim de pó e sangue que um incauto que só agora entrasse na sala bem poderia confundir com um ritual satânico – ou com um filme outro, aquele de Pasolini que dura 120 dias.

PÚBLICO -
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“Ééé! Tá a bater, Gina…! Quê!, ‘Tá a bater na Mãe!, Quêêê?? Vejam como os merdas trabalham… ‘Tou a gravar tudinho… Ééé… Sai daqui! SAI DAQUI, ISABEL! Vejam como é que esta merda é, filhas da puta, corruptos do caralho… Ao vivo e a cores! Eiii, estão a arrastá-la, Gina…. Que horas são, que horas são? Que horas são?... Eii, tão a puxar-lhe o cabelo… Olha, olha, vê, vê, filma ali, filma ali!”, pedem-lhe os Boyz n the Hood de cima do muro, e Eisenstein filma: um esplêndido, terrífico, plano de um céu de western, esse que tanta matança deu a americanos e espanhóis. “Podem ver como é a situação aqui… Vejam como o racismo aqui é quando se trata de ser negro… O nosso tom de pele tem já um peso”. Maria desce do castelo e, encontrando o seu amor a apodrecer ao sol, os seus olhos desfalecem no chão – a terra há-de comê-los, sim, e talvez os coma já. “Eles não querem, mas isto tá tudo a ser gravado. Vejam como é que se trata um negro. Vejam estes cobardes da merda, vejam”, pede o homem da câmara de filmar neste tempo em que ela, a câmara, não mais é um exclusivo dos homens da cor de Vertov. “Reality check, não há ficção, não há efeitos especiais / De perto ou de longe, qualquer ângulo, qualquer plano, eu faço o zoom”, assente Chullage. Depois da chacina, os olhos das testemunhas cruzar-se-ão em grandes planos – a resistência está em marcha. “Isso não se faz, meu, isso não se faz, meu… Não, não consigo, Isabel… Ô… Quê, eles chegam aqui, não perguntam, nada, meu… Isso é abuso de poder, meu… Isso é o quê?!”. Por filmar ficou Soldadera, sequência em que o russo se debruçaria sobre as mulheres que, durante a guerra civil, lutaram junto dos maridos pela revolução que chegaria em 1910. “Não preocupa, eu tenho tudo, nós temos tudo”, são as derradeiras palavras que oiço aos miúdos do muro.