Conseguirá o Congo salvar o mítico ocapi da extinção?

Os conflitos na República Democrática do Congo e a instabilidade política estão a pôr em perigo uma espécie que alguns conhecem, mas muitos nunca viram. O ocapi é um mamífero raro parente próximo da girafas, mas mais parecido com as zebras.

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Uma cria ocapi de duas semanas e a sua mãe REUTERS
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A nota fora de circulação com a ilustração do Ocapi PROJECTO DE Conservação do Ocapi

Acima da linha do equador, num dos locais com mais biodiversidade do continente africano, vive um mamífero quase mítico e que pouca gente já viu. O ocapi (Okapia Johnstoni) tem riscas e é frequentemente descrito como uma mistura entre uma zebra e uma girafa. O mamífero pode lamber a parte de trás do próprio pescoço com a sua língua de mais de 45 centímetros e a textura do seu pêlo brilhante assemelha-se a veludo.

É tão raro que até ao início do século XX era desconhecido e nunca tinha sido avistado no ocidente. No entanto, o ocapi já faz parte da paisagem na República Democrática do Congo — o único país do mundo onde a espécie vive numa reserva selvagem — e é para a nação o que o panda-gigante é para a China ou o canguru para a Austrália. 

No entanto, nas últimas décadas, o Congo tem sido governado por vários ditadores e viu grande parte dos seus recursos naturais desaparecer e o número de ocapis diminuir. 

John Lukas, um cientista norte-americano, fez da sua missão de vida proteger este mamífero raro e fundou o Projecto de Conservação do Ocapi (OCP, na sigla em inglês). Desde 1987 que o projecto tem como base de operações uma reserva de vida selvagem situada em Epulu, no Leste da República Democrática do Congo. Com o passar dos anos, o projecto alargou a sua influência para proteger não só a espécie ameaçada, mas também as populações locais.

Os primórdios

Formado em zoologia na Universidade da Florida, nos Estados Unidos, John Lukas era organizador de safaris no Sul da África há vários anos. No entanto, havia um animal estranho que queria admirar na vida selvagem.​

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John Lukas com um ocapi PROJECto de Conservação do Ocapi

Em Junho de 1987, decidiu partir em direcção ao Zaire (nome da República Democrática do Congo entre Outubro de 1971 e Maio de 1997) acompanhado por um grupo de conservadores da natureza. Embarcaram num avião em Kinshasa, a capital do país, em direcção a Goma, uma cidade no Leste do país, numa altura em que o Congo não possuía acessos rodoviários que o ligassem de um lado ao outro.

Nesse ano, a equipa chegou à estação de Epulu, construída pela Bélgica em 1940. “Quando começámos este projecto, não existia uma área reservada para conservar o ocapi, o animal nacional do Zaire protegido pela lei desde 1933”, diz John Lukas no relatório anual da reserva de 2017. 

Uma parte da floresta tropical de Epulu tinha sido sinalizada como reserva para proteger futuras oportunidades de mineração. Assim sendo, o terreno não tinha sido modificado pela mão humana nem nenhuma povoação teve de ser deslocada para a reserva ser criada, o que a tornava no habitat ideal para o ocapi livre.

Na década de 1980, o ministro do Ambiente do Congo estava dedicado a proteger a biodiversidade natural do território congolês e juntou-se ao grupo de Lukas para promover o animal nacional do país. Em 1992, a Reserva de Vida Selvagem do Ocapi e com ela o OCP foram oficialmente reconhecidos pelo governo.

Guerra e conflitos

Na década seguinte, à medida que o trabalho da equipa prosperava, a República Democrática do Congo era assolada por conflitos. Vários grupos rebeldes, assim como os exércitos ruandeses e ugandeses, disputavam territórios no Leste do país e aproximavam-se perigosamente da reserva.

Em 1997, quando uma guerra civil de seis anos eclodiu, o Zaire tornou-se a República Democrática do Congo e o governo deixou de conseguir proteger o ocapi e, até hoje, as ameaças continuaram a crescer: há milícias armadas que percorrem as estradas de terra batida, as minas ilegais de ouro e diamantes operam e continuam impunes e os caçadores de marfim são abundantes, enquanto a região luta contra o pior surto do vírus do ébola do país até hoje, tudo somado à instabilidade económica e civil que impede o governo de agir contra o problema.

Ao mesmo tempo que as instituições do Estado entravam em colapso, a população do Congo prosperava. A última estimativa, no recenseamento de 1986, dizia que o Congo tinha 80 milhões de pessoas, mas hoje o número certamente aumentou. A população começou a mudar-se para a reserva para praticar agricultura de corte e queima ou minar a região, colocando os ocapis em risco.

Em 2012, a reserva sofreu o seu pior ataque quando rebeldes armados invadiram os terrenos e mataram 14 ocapis e sete guardas. Outras 100 pessoas foram raptadas e os edifícios foram todos incendiados. O ataque terá sido uma retaliação aos esforços da equipa de guardas florestais para impedir a caça ilegal e outras actividades ilícitas. Nos últimos dez anos, foram mortos 183 guardas de parques do Congo.

Muitos investigadores afirmam que parte do problema está relacionada com a pobreza e a instabilidade política instalada em muitos países. Neste cenário, crimes contra a natureza são uma actividade altamente rentável e de baixo risco.

Em Dezembro do ano passado, a comissão eleitoral do país atribuiu a vitória nas eleições presidenciais a Felix Tshisekedi. No entanto, a União Africana pediu que a divulgação dos resultados das eleições presidenciais na República Democrática do Congo fosse suspensa devido às suspeitas de fraude eleitoral. Enquanto o país se debate com questões políticas, o destino dos ocapis encontra-se em suspenso mais uma vez.

Dos ocapis à assistência comunitária

Ao longo dos anos, a reserva passou a ser mais do que um refúgio para os ocapis e começou a fornecer assistência comunitária à população local: ajudou na construção de escolas e clínicas médicas, desenvolveu fontes de água potável e forneceu de ajuda médica aos cidadãos. É através da educação que a equipa tem tentado demonstrar a importância da conservação do ambiente.

“Acredito que falta pouco para que este país rico em recursos naturais acredite em si próprio e invista nas suas gentes e na sua biodiversidade. Conhecendo o povo do Congo como eu conheço, acho que vão proteger as florestas onde o ocapi vive para benefício dos seus filhos”, diz John Lukas no documento de balanço de 2017 publicado no site oficial da fundação.

O OCP também se aliou ao Instituto para a Conservação da Natureza do Congo (ICCN, na sigla inglesa), uma instituição governanental cujo objectivo é proteger a fauna e a flora do país. Nos últimos anos, os guardas florestais da ICCN têm sido uma parte fundamental na partilha de responsabilidades na protecção e no policiamento – ​procurando armadilhas, expulsando mineiros e perseguindo caçadores – dos animais da reserva.

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PROJECTO de Conservação do Ocapi

Também através de um projecto de agro-florestação que promove práticas agrícolas sustentáveis ​​e reduz a dependência dos recursos florestais, o OCP tem introduzido algumas culturas alternativas (árvores, frutos e vegetais) e métodos agrícolas mais avançados para tornar a vida das populações mais viável a longo prazo.

Hoje, a reserva não protege só o ocapi e alastrou-se a chimpanzés e elefantes. Agora com 13 mil quilómetros quadrados de florestas tropicais, riachos e rios, a reserva é o lar de 4000 ocapis. 

É através de parceiros e de doações de cidadãos de todos o mundo que o OCP tem conseguido suportar os custos de cuidados de saúde e habitação para os trabalhadores do ICCN e das suas famílias, de equipamentos, mantimentos, e manutenção das instalações e infra-estruturas. A equipa quer encontrar um ponto de equilíbrio entre as necessidades das populações e dos animais. “O que nós queremos alcançar exige tempo, dinheiro e muito esforço, e nós dependemos do apoio de todos para fazer com que isso aconteça”, diz John Lukas.

Recentemente, o OCP conseguiu captar as primeiras imagens da alimentação selvagem do ocapi na reserva a poucos quilómetros de Epulu. Enquanto a situação política e social do Congo se mantém instável, a nota de 50 centavos continua a ser decorada orgulhosamente com ocapis, mas vale tão pouco no sistema cambial actual do país que está fora de circulação.