Reportagem

“Um aluno desta escola ou se prepara para o exame ou não o vai fazer”

O Colégio Nossa Senhora do Rosário, no Porto, volta a ter a melhor média nos exames nacionais. Entre as públicas, a primeira é a Secundária Infanta Dona Maria, em Coimbra. Mas o destaque vai para a Secundária Eça de Queirós, na Póvoa de Varzim. Não só está entre as melhores do secundário, como também no básico e no profissional.

Fotogaleria
Nelson Garrido
Fotogaleria
Nelson Garrido
Fotogaleria
Nelson Garrido
Fotogaleria
Nelson Garrido
Fotogaleria
Nelson Garrido
Fotogaleria
Nelson Garrido

Dois grandes abutres empalhados presidem ao longo e largo corredor da biblioteca. O porte imponente das duas aves podia ser suficiente para abalar os mais impressionáveis, mas os alunos da Escola Secundária Eça de Queirós, na Póvoa de Varzim, passam quase por baixo delas sem ponta de perturbação. “Já é uma imagem da escola”, atira Alexandra Ponte, aluna do 12.º ano.

Por todos os corredores do edifício, construído nos anos 1950, há animais como estes em vitrinas de madeira castanha. “O meu pai já me falava dos animais nos corredores do tempo em que ele cá andava”, prossegue a aluna. O pai estudou aqui na altura em que este era o único liceu nas redondezas.

Actualmente, há duas escolas secundárias em Vila do Conde, onde a família vive, mas Alexandra Ponte prefere percorrer todos os dias os curtos quilómetros entre as duas cidades para estudar na Póvoa de Varzim. A Eça de Queirós “sempre foi conhecida como uma escola de excelência”, valoriza.

Cerca de 20% dos quase 1200 alunos vêm de fora do concelho, sobretudo de Vila do Conde e Esposende, mas também de Famalicão ou Barcelos. A “fama” da escola Eça de Queirós chega longe e isso beneficia-a, reconhece o director José Eduardo Lemos – que é também presidente do Conselho de Escolas, órgão consultivo do Ministério da Educação, onde estão representados os estabelecimentos de ensino públicos.

Num ranking onde os colégios continuam a dominar os primeiros lugares — o Colégio Nossa Senhora do Rosário, no Porto, com 15,30 de média nos exames nacionais, tem pela sétima vez o melhor resultado do país e em segundo lugar está o Colégio da Rainha Santa Isabel, em Coimbra —, a primeira escola pública aparece apenas na 33.ª posição. É a Secundária Infanta Dona Maria, também em Coimbra. Seguem-se a Escola Básica e Secundária Clara de Resende, no Porto, e a Básica e Secundária Henrique Sommer, em Maceira (Leiria), que tinha sido uma das grandes surpresas no ano passado e este ano continua a ter das melhores médias nacionais.

A escola da Póvoa de Varzim é a quarta melhor, com 12,32 valores (numa escala até 20), segundo o ranking do PÚBLICO que ordena do melhor para o pior resultado as 585 escolas onde se realizaram em 2018 pelo menos 50 provas na 1.ª fase dos exames. Só são tidas em conta nesta análise oito disciplinas — aquelas em que mais estudantes são avaliados. E estão excluídos das contas os alunos externos que não frequentaram o estabelecimento de ensino e só lá foram prestar provas. 

Mas há outros aspectos a serem avaliados neste “​especial rankings” do PÚBLICO. E esta escola também se distingue a outros níveis.

"Isto é um pré-universitário"

Aqui, praticamente todos os alunos querem prosseguir estudos para o ensino superior. Muitos, como Alexandra Ponte, que pretende entrar numa licenciatura em Medicina – onde habitualmente as médias de entrada são elevadas –, procuram esta escola precisamente pela garantia de sucesso que esperam ter. “Costumo dizer que isto é um pré-universitário”, comenta o director.

O discurso de exigência é incutido nos jovens quase desde o primeiro dia de aulas. Contam os estudantes que, nas primeiras semanas de cada ano lectivo, José Eduardo Lemos entra nas salas de todas as turmas para explicar que, a partir do momento em que os alunos estão na Eça de Queirós, não se representam só a si mesmos, mas também “a escola, as pessoas que passaram por ela antes e as que vão passar”, conta Alexandra Ponte.

José Eduardo Lemos Lemos confirma a história: “Temos uma responsabilidade para com a comunidade.” Por isso, “um aluno desta escola ou se prepara para o exame ou não o vai fazer, é melhor ficar a dormir”. O director clarifica que o que se exige aos estudantes não são resultados, mas um compromisso. Ou seja, é possível que um aluno desta secundária da Póvoa de Varzim possa tirar um 5 (em 20) no exame nacional, o que não é possível “é tirar um 5 sem estudar”.

No mais, esta é uma escola “normal”, diz Lemos. Quase um terço (28,6%) dos alunos do 12.º ano eram beneficiários da acção social escolar em 2017 – o apoio do Estado que é atribuído a estudantes oriundos de agregados familiares que têm um rendimento mensal médio igual ou inferior ao salário mínimo nacional.

Ano após ano, o PÚBLICO, em colaboração com a Católica Porto Business School, divide as escolas em três grandes grupos, tendo como base alguns dos dados socioeconómicos que o Ministério da Educação fornece para os agrupamentos escolares públicos do continente: a percentagem de alunos com apoios do Estado e as habilitações escolares dos pais dos alunos. No “contexto 1” estão as escolas que apresentam indicadores mais desfavoráveis, no “contexto 2”, indicadores intermédios. O "contexto 3" é o mais favorecido. A Eça de Queirós pertence ao “contexto 2”. E quando se compara com as escolas do país do mesmo contexto, supera-se. É mesmo uma das que mais superam a média de exames que seria de esperar face ao perfil dos seus alunos. Fica quase dois pontos acima das escolas com as mesmas características.

E as piores médias?

À exigência, soma-se outro factor que lhe tem garantido bons resultados: a estabilidade. O director está no cargo há 25 anos. Cerca de metade dos professores trabalha aqui há mais de 20. E isso permite criar uma “cultura de escola” que passa de uns anos para os outros, defende Margarida Almeida, coordenadora de Português, que aqui dá aulas desde 1992.

Resultado: a Eça de Queirós não só tem estado sempre, nos últimos anos, entre o grupo das escolas públicas do país que melhor se saem, como este ano se destaca nos três níveis de ensino em que assegura oferta: além de ter a quarta melhor média de exame no ensino secundário público, tem a segunda melhor nota nos exames do 9.º ano do básico público. E no ensino profissional – onde tem apenas um curso – apresenta os melhores indicadores nacionais, com 100% dos alunos a concluírem o curso no tempo normal (três anos). “A ideia é a mesma”, explica José Eduardo Lemos, “se fazemos alguma coisa, temos que fazer bem".

PÚBLICO - Maria José Frutuoso, professora de Biologia
Maria José Frutuoso, professora de Biologia Nelson Garrido
PÚBLICO - Alexandra Ponte, aluna do 12º ano
Alexandra Ponte, aluna do 12º ano Nelson Garrido
PÚBLICO - Margarida Almeida, professora de Português
Margarida Almeida, professora de Português Nelson Garrido
PÚBLICO - José Eduardo Lemos, director
José Eduardo Lemos, director Nelson Garrido
Fotogaleria
Nelson Garrido

No ranking dos exames, as escolas públicas dominam os últimos lugares da lista, somando 19 das 20 escolas com piores médias nos exames nacionais do ano passado. A única privada é precisamente a que tem pior resultado: o Externato Académico, no Porto, frequentada por "alunos que não tiveram sucesso noutras escolas e chegam na maioria, para fazer o 12.º ano ou para repetir disciplinas", explica ao PÚBLICO o director pedagógico Rui Alves. Em 70 provas realizadas, a média dos alunos não foi além dos 6,65 valores (numa escala até 20). Entre as públicas, os resultados mais baixos são os da Escola Secundária da Baixa da Banheira – 7,31 de média.

A maior quebra registada neste ano foi a do colégio de Nossa Senhora da Esperança, no Porto. Este estabelecimento de ensino perdeu mais de 400 lugares no ranking dos exames face a 2017 (é agora o 524.º), fruto de uma descida de mais de dois valores na média da escola. A direcção do colégio, que pertence à Santa Casa da Misericórdia do Porto, mostra-se “surpreendida” com o que reconhece ser uma “queda acentuada”.

Os resultados têm sido bastante estáveis nos anos anteriores e, de acordo com o seu director, Ricardo Rocha, não houve mudanças “que possam justificar alteração tão radical”: a estrutura é a mesma, o corpo docente estável e os mecanismos de monitorização dos resultados semelhantes.