Editorial

Quando todos berram

Não é fácil ser oposição, quando ainda há bem pouco tempo se vestiu a camisa-de-forças do rigor orçamental e quando sabemos que, no final, tudo se resume ao vil metal que não temos.

Quando promulgou o Orçamento de Estado de 2018, Marcelo Rebelo de Sousa alertou para as tentações eleitoralistas que poderiam vir com o OE de 2019. Quando promulgou o de 2019 não o repetiu, mas terá usado esse mesmo critério de avaliação. Todos achávamos que o Presidente falava para o Governo, mas teria sido muito mais avisado, se o tivéssemos também escutado como estando a falar para todo o espectro político.

Claro que as verdadeiras e dolorosas consequências de fugir o pé para a tentação gastadora estão muito mais do lado de quem tem as mãos nos cordões da bolsa do que do lado daqueles que pedem que ela se abra ainda um pouco mais e daí a pedagogia presidencial e, em determinados momentos, a exigência da própria direita.

Mas o Governo não existe no vazio e, se o julgarmos por essa capacidade de estoicamente resistir a gastar para conquistar sem olhar às consequências futuras – como fez, por exemplo, com as 35 horas –, também é justo que olhemos criticamente quem o empurra para ter esse comportamento menos cuidado. Como o CDS, que com esta moção de censura se quer colocar ao lado dos 112 pré-avisos de greve registados desde o início do ano, que acha que são culpa de um governo PS, na sua opinião, esgotado. Dá para perceber o gesto político que o posiciona como o único partido da oposição que apresentou duas moções de censura (nenhuma do PSD) e que explora a tensão entre o Governo e os seus apoiantes à esquerda, nomeadamente o PCP, que não deixará de respaldar as lutas sindicais.

Mas percebe-se muito menos a coerência de alguém que está sempre a agitar o argumento da “bancarrota”, da irresponsabilidade socialista. Achará Assunção Cristas que inverter o investimento público em “mínimos históricos”, o “gritante” desinvestimento na Saúde, a degradação dos serviços públicos se fará sem despejar dinheiro no problema? E quando lemos que ao actual ritmo a economia não crescerá mais do que 1,6% contra os 2,2% de variação do PIB que o Governo previa, como fará isso sem entrar na irresponsabilidade?

Não é fácil ser oposição, quando ainda há bem pouco tempo se vestiu a camisa-de-forças do rigor orçamental e quando, mesmo com mais ajustadas críticas à “propaganda”, ao “abrandamento económico” e a alguma desorientação, sabemos bem que, no final, tudo se resume ao vil metal que não temos.