Houve troca de datas no interrogatório a Carrilho sobre ameaça de morte a ex-mulher

Lapso do Ministério Público fez com que arguido tivesse sido interrogado sobre altura em que se encontrava com Bárbara Guimarães num casamento em Viseu, e não na residência do casal onde apresentadora diz ter ocorrido episódio de violência.

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ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Houve um erro grave no recente interrogatório judicial ao ex-ministro da Cultura Manuel Maria Carrilho sobre a alegada ameaça de morte que fez à sua ex-mulher, a apresentadora televisiva Bárbara Guimarães. Inquirido em tribunal no final de Janeiro passado sobre um episódio que terá ocorrido na noite de 14 de Setembro de 2013 na residência do casal, o arguido desmentiu a acusação, alegando que nesse dia ele e a apresentadora não se encontravam sequer em Lisboa, uma vez que tinham ido a um casamento de uma prima sua em Viseu.

O problema é que a apresentadora (que não foi a essa sessão do julgamento) sempre disse que o episódio ocorreu a 14 de Outubro, ou seja, um mês depois, e não na data do casamento. Cabe agora à juíza do caso, Joana Ferrer, decidir se manda interrogar outra vez Manuel Carrilho sobre o dia correcto, muito embora a magistrada esteja convencida de que este episódio nunca sucedeu, pelo menos da forma que a queixosa o relata.

Segundo Bárbara Guimarães, nesse dia de Outubro o seu então marido agarrou-a e disse-lhe, do cimo das escadas que davam acesso ao sótão da residência do casal: “Estás a ver estas escadas? Vais por aqui abaixo, bates na estátua que o teu pai te deu e eu e os teus filhos vamos todos rezar por ti no teu funeral e acaba-se tudo de uma vez”. O arguido sempre negou tudo. E na sentença de Dezembro de 2017 em que o ilibou do crime de violência doméstica a juíza explica por que motivos não acredita no relato da apresentadora.

O engano original

Antes de tudo porque só com o julgamento já a decorrer ela veio mencionar este episódio a que nunca tinha aludido antes, na fase de inquérito do processo: “Um episódio com estes contornos extremos, com este potencial de perigo, a ter tido existência real, teria obrigatoriamente de ficar gravado na sua memória e ser, prontamente, comunicado ao Ministério Público”. Mas há ainda outro problema, acrescenta: nem o pai de Bárbara Guimarães se recorda de haver uma escultura sua nas ditas escadas.

Joana Ferrer não trocou a data. O engano original surgiu num requerimento ditado pelo Ministério Público durante o julgamento, no qual se baseou depois o recurso apresentado ao Tribunal da Relação de Lisboa pela procuradora do processo. Quando os juízes da Relação consideram que o episódio do sótão é demasiado importante para ser descartado e mandam repetir a parte do julgamento que lhe diz respeito, para que Carrilho seja interrogado sobre o assunto, não reparam que a data referida na sentença não é aquela que surge mencionada no recurso do Ministério Público. 

Entretanto Bárbara Guimarães muda de advogado, o que poderá ajudar a explicar por que razão o seu representante legal também não deu pelo erro, nem sequer quando Manuel Maria Carrilho respondeu em tribunal, no final de Janeiro, que nessa noite o casal não se encontrava em Lisboa. A juíza também não se apercebeu do engano. 

Nova sentença a 8 de Março

Esta semana, já depois de ter percebido o que se passou, o novo advogado da queixosa, Pereira da Silva, enviou um requerimento ao tribunal acompanhado das transcrições do depoimento de Bárbara Guimarães em julgamento. Questionada na altura sobre a data da última alegada agressão do marido, a apresentadora responde de forma peremptória e por mais de uma vez que foi a 14 de Outubro, na véspera de Carrilho viajar para Paris.

Mesmo que o ex-ministro volte a ser interrogado, desta vez sobre o que se passou nessa noite e não um mês antes, isso não significa que a juíza mude a sua decisão de o absolver. A nova sentença está marcada para 8 de Março. Se o arguido for novamente absolvido o Ministério Público recorrerá outra vez da decisão de Joana Ferrer.

Apesar de ter sido absolvido de violência doméstica neste caso, num outro processo Manuel Carrilho foi condenado por agressão, injúrias e violência doméstica, entre outros crimes, contra a ex-mulher Bárbara Guimarães, o ex-namorado desta, Ernesto “Kiki” Neves, e um amigo da apresentadora de televisão, Ricardo Pereira, numa altura em que o casal já se tinha separado. Foi também obrigado pelo tribunal a frequentar um programa de sensibilização para a violência doméstica.

O advogado do ex-ministro não teve disponibilidade para falar ao PÚBLICO em tempo útil sobre este assunto. Já o seu cliente remeteu-se ao silêncio.