Opinião

Ano Eleitoral (4), A Comédia dos Enganos 2.0

Como se faz esta ilusão de transformar minorias em maiorias? Criando uma realidade virtual. Tudo é um enorme reality show.

Depois de três artigos anteriores a rever números e tendências, eis que podemos apreciar a novíssima comédia dos enganos para as eleições de outubro:

1. Engano 1 – o cenário. Melhor democracia do mundo com 9,4 milhões de eleitores em território nacional (na verdade, o país do e-government e da Web Summit não sabe contar os seus eleitores, uma vez que a população adulta residente em território nacional está mais próxima dos 8,5 milhões). Governo de minoria relativa com 32% dos votos e 38% dos deputados (na verdade, com o voto de 1,7 milhões dos 8,5 milhões). Maioria parlamentar com 51% dos votos e 54% dos deputados (na verdade, com o voto de 2,7 milhões dos 8,5 milhões). Minoria parlamentar, vitoriosa em 2015, mas afastada do poder pela oligarquia, com 39% dos votos e 46% dos deputados (na verdade, com o voto de 2,1 milhões dos 8,5 milhões). Regime forte com três partidos estruturantes que representam 71% dos votos e 84% dos deputados (na verdade, com o voto de 3,8 milhões dos 8,5 milhões). O Presidente da República dos afetos, o mais amado pelo povo, eleito com 52% dos votos logo na primeira volta (na verdade, com o voto de 2,4 milhões dos 8,5 milhões). Como se faz esta ilusão de transformar minorias em maiorias? Falando de percentagens, falando de mandatos, nunca falando de votos em valor absoluto. Mantendo uma lei eleitoral que desfavorece a proporcionalidade. Escondendo a abstenção, exagerando o número de eleitores para valores ridículos. Fingindo na comunicação social que nada mudou nos últimos 20 anos. Promovendo os mesmos protagonistas, de políticos a comentadores, de governantes a comediantes. Criando uma realidade virtual. Tudo é um enorme reality show.

2. Engano 2 – o argumento. Tudo se resume a uma enorme divisão entre esquerda e direita. Nomeação presidencial do João Miguel Tavares para o 10 de Junho. O que é e para que serve o 10 de Junho? Faz sentido manter sistemas de escolha próprios do Estado Novo, opacos e sem escrutínio? Nah. O que importa é que o nomeado é de direita e a esquerda não gosta. A auditoria à CGD mostra ao país uma profunda cleptocracia. Como foi possível? Porque não temos uma justiça e uma regulação que possam prevenir antes e desmantelar depois esta cleptocracia? Nah. Isto resulta, por um lado, da campanha mediática da direita para poder privatizar o banco público ou, por outro lado, do PS bandido, com o gangue Sócrates/Vara (ajudado pelos radicais de esquerda), contra o Governo Passos-Portas, que, coitado, promoveu a promiscuidade entre regulador e regulado (logo em junho de 2011), escondeu as contas da CGD durante quatro anos, porque se estava a sacrificar pela Pátria. A ministra do Mar nomeia o marido da ministra da Justiça para liderar a renegociação da concessão do terminal de Sines: vergonha! Mas o ministro Miguel Macedo entrega o caderno de encargos a um amigo: boa governança de alguém que foi maltratado pelo sistema de justiça. Sócrates não explica os 20 milhões: presunção de inocência; os trocados de Passos na Tecnoforma são arquivados: vergonha nacional. Não, não é simples maniqueísmo primata. É a forma de o regime ocupar todo o espaço público. Com um objetivo – não pode existir nada no espaço público que não esteja enquadrado, organizado e amarrado ao regime vigente. Pensamento crítico, distante, fora da caixa não pode ser tolerado. Há que eliminar qualquer oposição inorgânica. Diz o Presidente da República. A comunicação social ajuda. As redes sociais tratam do resto.

3. Engano 3 – a representação. Política é emoção, é futebol. Não é razão. Política é malhar no adversário. Nunca reconhecer os erros e os defeitos, muito menos pedir desculpa (onde está o mea culpa do PS, PSD e CDS pela cleptocracia da CGD?). Política é circo. Nunca é estudar. Política é culpar sempre os outros e agitar o próximo papão (fascistas, comunistas, populistas). Não é agree to disagree. Política é alimentar o agitprop, é odiar o adversário e cavar trincheiras, porque isto é uma guerra. Política não é mobilizar esforços para implementar políticas que ponham a crescer um país estagnado há 20 anos, envelhecido e que espera tranquilamente a próxima crise financeira. Política é coisa de claques que enchem as redes sociais e a opinião publicada. E com um conselho simples: se não gosta disso, não se meta na política. Fique em casa. Deixe-se estar na abstenção e deixe a política aos partidos do regime. Tudo isto só não é mais catastrófico porque a União Europeia decide 80% das políticas públicas. Mas, atenção, nunca houve nenhuma cedência de soberania. O regime nunca faria isso sem consultar os portugueses. Logo, como não consultou, nunca cedeu. Somos obviamente tão soberanos agora como em 1976.

4. Engano 4 – os protagonistas. Numa democracia de qualidade, polarizada entre esquerda e direita, sem oposição inorgânica, onde a emoção e as claques são estruturantes, há que reconhecer os protagonistas. E aí importa um processo de identificação total. Ser de direita é ser devoto de Passos, ser de esquerda é amar Costa. O Rio, coitado, não consegue mobilizar porque não é nem direita nem de esquerda. Mas para quem não gosta do Rio, tem Cristas ou Santana. E para quem gosta da simpatia à esquerda, sempre tem a Catarina Martins ou as irmãs Mortágua. Até Jerónimo de Sousa se queixou de tanta candidata engraçadinha. O país dos “ismos” personalistas – salazarismo, soarismo, cavaquismo, guterrismo, socratismo, “pórtismo”, passismo... E agora temos o Presidente dos afetos. O regime começa e acaba numa cultura política caudilhista, salvífica, messiânica, sebastiânica onde o culto da personalidade é o alfa e o ómega dos movimentos políticos. Herança envergonhada do Estado Novo. Por isso dispensa ideias, debate, reflexão, dialética. Por isso é, paradoxalmente, um país despolitizado ao fim de quase 50 anos de democracia.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico