António Costa remodela sozinho e guarda algumas surpresas

Depois de algumas remodelações por causa de bofetadas prometidas, viagens ao europeu de futebol, incêndios ou Tancos, avança uma mudança no executivo por motivos eleitorais.

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António Costa, primeiro-ministro Miguel Manso

A próxima remodelação governamental, a pretexto das eleições europeias, tomou conta da actualidade política. Na conferência de imprensa do final do Conselho de Ministros, esta quinta-feira, os jornalistas aproveitaram a presença de um membro do executivo para pedir esclarecimentos. Tiago Antunes, secretário de Estado da Presidência, desconversou. “Quanto à curiosidade jornalística, eu percebo-a, naturalmente. Sobre remodelações ou não remodelações, há uma única pessoa que pode falar sobre o assunto: manifestamente não sou eu”.

A pessoa que o governante tinha em mente era o primeiro-ministro, António Costa, que mantém o silêncio sobre a remodelação que está a ser acertada nos bastidores e que será anunciada ao Presidente da República durante o dia de domingo, na sequência da grande convenção socialista sobre eleições europeias. O ministro do Ambiente e da Transição Energética, João Pedro Matos Fernandes, com o seu habitual sentido de humor, também comentou o tema no final da mesma reunião: “Esse assunto é um assunto que não foi discutido em Conselho de Ministros e falar em últimos actos no dia dos namorados não me parece grande ideia”.

Horas depois, coube ao líder da bancada do PS, Carlos César, fugir à questão. “Eu interpreto em 90% dos casos a opinião do senhor primeiro-ministro, mas acho que em matéria de remodelação trata-se dos restantes 10%. Portanto, não posso falar sobre isso”, comentou no final da reunião da bancada do PS.

Surpresas guardadas

O ruído em torno das mudanças no executivo é grande e, entre entradas, saídas e promoções, há quase de uma dezena de nomes a circular. Nesta quinta-feira, o jornal i acrescentou a informação de que a ministra da Presidência do Conselho de Ministros, Maria Manuel Leitão Marques, já terá, inclusivamente, anunciado a sua saída aos colaboradores mais próximos. 

A escolha de dois ministros para a lista das europeias — Pedro Marques e Leitão Marques — e a promoção do secretário de Estado Pedro Nuno Santos para o lugar deixado vago no Planeamento e Infra-estruturas são as informações mais consistentes. Outras — como a entrada de Duarte Cordeiro (vereador em Lisboa, muito próximo de Pedro Nuno Santos) para a pasta dos Assuntos Parlamentares ou a de Ana Catarina Mendes (secretária-geral adjunta do PS) para a Presidência do Conselho de Ministros, ou ainda a acumulação de pastas de Mariana Vieira da Silva (actual secretária de Estado Adjunta do primeiro-ministro) — são contraditórias entre si e demonstram que ainda há algumas surpresas guardadas. 

Um dirigente socialista disse ao PÚBLICO que a remodelação “está na cabeça de António Costa” e que “o primeiro-ministro toma as decisões sozinho”. Provavelmente, acrescentou o mesmo responsável, “os próprios só terão a confirmação sobre para onde vão, e se vão, no sábado à noite ou domingo de manhã”. 

A posse dos novos governantes está pré-agendada para o início da semana, logo na segunda-feira, já que na terça e na quarta-feira (dias 19 e 20), o Presidente da República estará em Madrid para participar no XXVI World Law Congress.

Depois da reunião de ministros

Recorde-se que da última vez que fez acertos no executivo, em Outubro de 2018, António Costa só informou os governantes remodelados no final de um Conselho de Ministros extraordinário, razão pela qual não será de estranhar que agora só sejam informados após a convenção de Vila Nova de Gaia.

Há quatro meses, as informações circulavam, umas mais certas do que outras, mas só depois de aprovarem o Orçamento do Estado para 2019 é que os ministros da Defesa, da Cultura, da Saúde e da Economia souberam o que o primeiro-ministro lhes reservava para o futuro. 

Nessa remodelação, motivada pela demissão de José Azeredo Lopes da pasta da Defesa Nacional, houve mudanças em 15 secretarias de Estado e em cinco ministérios (dois foram fundidos), o que representou 12 estreias ou caras novas. Agora, numa mudança impulsionada pelas eleições europeias, a três meses desse acto eleitoral e a oito meses das legislativas, não se espera que a remodelação seja tão profunda como a que a precedeu. Desde logo porque quem entra para o Governo já tem pouco tempo para deixar a sua marca e terá de concentrar-se em gerir a herança.

O PÚBLICO fez as contas em Outubro e concluiu que já passaram 88 pessoas pelo XXI Governo Constitucional. Dos governantes originais (56), apenas 22 nunca mudaram nem de cargo nem de ministério, mantendo-se no mesmo posto desde o primeiro dia. Entre as caras “velhas” estavam então ministros com experiência governativa anterior, como Vieira da Silva, Pedro Marques ou Augusto Santos Silva, mas também outros que nunca tinham exercido funções num executivo, como Francisca van Dunem ou Tiago Brandão Rodrigues. Pedro Marques deixará agora esta lista para entrar noutra, a da Europa.

Na tarde desta quinta-feira, questionado pelos jornalistas após uma visita à Siemens sobre quantos ministros vão, afinal, sair do Governo, António Costa devolveu a pergunta: “Mas vai sair algum?” com São José Almeida