A geração que superou o isolamento da arte portuguesa

Viagem no tempo com Pedro Lapa, que em 2001 apresentou uma nova geração: Filipa César, João Pedro Vale, Rui Toscano, Ana Pinto, Francisco Queirós, Inês Pais, Ana Pérez-Quiroga, Nuno Sacramento e... João Onofre.

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Dezoito anos depois de Disseminações, Pedro Lapa, o curador, reflecte sobre o sentido dessa colectiva que mostrou artistas da nova geração, entre os quais estava João Onofre ENRIC VIVES-RUBIO/arquivo

Sem sairmos do espaço, Once in a Lifetme [Repeat] é um bom mote para uma viagem no tempo. Em direcção a Janeiro de 2001, data que assinala a realização de Disseminações, colectiva que deu a conhecer, na Culturgest, uma geração de jovens artistas. Filipa César, João Pedro Vale, Rui Toscano, Ana Pinto, Francisco Queirós, Inês Pais, Ana Pérez-Quiroga, Nuno Sacramento e... João Onofre. Dezoito anos depois, convidámos Pedro Lapa, o curador, a reflectir sobre o seu sentido. “O convite para conceber a exposição surgiu de António Pinto Ribeiro [à altura, director artístico] e desde logo tive uma ideia muito clara do que queria fazer”, recorda. “Entre os finais dos anos 90 e 2000, presenciara-se uma transformação muito grande do panorama artístico em Portugal, especialmente em Lisboa. Os anos da década anterior tinham sido de alguma conflitualidade inter-geracional, em particular na sequência da exposição Imagens para os Anos 90 comissariada por Miguel von Hafe Pérez em Serralves”. Nesta colectiva, lembre-se, participaram João Tabarra, Paulo Mendes, João Paulo Feliciano, Rui Serra, Carlos Vidal, Miguel Palma e Fernando Brito, artistas que dirigiam um ataque teórico não apenas aos protagonistas dos 80, mas, também, à própria crítica especializada na imprensa. “O trabalho deles era verdadeiramente significativo de uma nova concepção, de um novo entendimento. Faziam uma reclamação de alguns legados pós-conceptuais e recusavam uma certa inércia que vinha de um tratamento pós-modernista já muito pouco produtivo”. Mas em 2000, a paisagem já dava sinais de alterações. “Subitamente, notei que esse conflito estava a transformar-se. Que começava a aparecer um grupo de artistas mais jovens, que mostrara os primeiros trabalhos em 1998 e 1999 e que beneficiara de uma alteração profunda do contexto económico e institucional que se dera nos anos 90”.

Faça-se um exercício de memória: o Centro Cultural de Belém e a Culturgest tinham inaugurado em 1993, o Museu de Serralves abrira as suas portas em 1999. Os nove artistas de Disseminações haviam vivido já um período marcado por uma maior oferta cultural e por uma progressiva renovação das direcções e programações dos centros de arte. Acrescentava-se ainda outro factor: “A maioria tinha também estudado fora do país. Todos tinham anos de estudo em contextos internacionais. Tinham feito qualquer coisa que toda a arte portuguesa desde o século XIX procurara seriamente. Uma maior integração das suas práticas, pelo menos nos contextos europeus. E isso tinha efectivamente acontecido, fruto do trabalho desenvolvido por Manuel Maria Carrilho no Ministério da Cultura. Era extensivo a uma geração”.

O ponto de partida da exposição foi a de uma prospecção, no sentido de seleccionar artistas que prometiam marcar a história da arte contemporânea em Portugal. “Mas não procurei a ideia de uma excessiva convergência temática ou de um movimento”, ressalva Pedro Lapa. “Ao contrário dos artistas anos 90, não encontrávamos um conjunto de referências relativamente coeso e de afinidades fortes, mas uma generalização de determinados aspectos que, eram, concretamente a instalação e o recurso à imagem projectada. Estavam presentes em quase todos”. Com efeito, dos participantes, só Inês Pais, Ana Pérez-Quiroga e Leonor Antunes - esta com a peça Funambulismo, que interpelava os visitantes no espaço – se furtavam ao uso desse meio. “De resto, confrontei-me com uma situação curiosa. O vídeo era omnipresente. Às tantas, tive uma certa tentação de contrariar esse facto e cheguei à conclusão que seria um disparate. Se o vídeo era uma das tendências dominantes, não a devia contrariar.”

João Onofre participou com Casting. Para quem já não se recorda, o artista filmou um conjunto de adolescentes que diziam a frase proferida por Ingrid Bergman no fim do filme Stromboli (1950), de Roberto Rossellini: “che io abbia la forza, la convizione et il coraggio”. O plano, sempre fixo, capta-os em dois momentos: o da espera, quando em grupo, e da interpretação, quando fitam e falam para a câmara. “Esse trabalho lidava, a meu ver, um problema profundo, que era o da falta de uma memória”, comenta Lapa. “A deixa da actriz citava toda uma cultura humanista e crítica que víamos ali deslocada para uma situação caricata. E isso provocava um riso gélido. A dificuldade dos intérpretes em encarnar a frase sublinhava uma dissociação que era levada a um extremo profundo. Havia uma ideia de perda, de um luto declarado do passado modernista e das suas potencialidades”. Entretanto, o trabalho acabaria, inesperadamente, por se tornar emblemático da exposição: “O designer propôs para capa do catálogo um still do vídeo do João Onofre. Tinha pensado em não colocar imagem de qualquer obra, pois tratava-se de uma colectiva, mas ele foi bastante persuasivo. Argumentou que se estava a apropriar de uma imagem, imagem essa em que todos víamos jovens a tentar dizer qualquer coisa. E era isso, concluía, o que os artistas também estavam a fazer nas obras”.

Outro aspecto que ligava entre si, senão todas, pelo menos uma boa parte das peças exposta era o trabalho com referências da cultura pop e da vida quotidiana. Circulavam, por exemplo, nos trabalhos de Rui Toscano, João Pedro Vale, Ana Pinto, Francisco Queirós, do próprio João Onofre. Para Pedro Lapa, a exposição configurava, no entanto, outra realidade em termos de produção: “Eram artistas que começavam a fazer parte daquilo que um historiador de arte, o David Joselit, cunhou de arte internacional ou de estilo internacional. Nessas circunstâncias já não há grandes e radicais transformações, como as que assistimos com a emergência do conceptualismo. A apropriação de imagens consubstanciava-se num formato que se foi tornando dominante e transversal a diversas expressões artísticas. Esta geração dos anos 2000 era exemplar dessa transformação. Vinham de uma formação em contextos mais internacionais, tinham uma perspectiva contemporânea das coisas, interessavam-se por temporalidades, obras e artistas diferente, dialogavam com factores mundanos. E com mais ou menos visibilidade, com mais ou menos sucesso tinham superado de um impasse que havia limitado, durante décadas, a arte portuguesa e os seus principais representantes.”