Na Antárctida viveu um arcossauro há 250 milhões de anos

Nem sempre foi um continente gelado. Em tempos geológicos idos, a Antárctida era habitada por vertebrados, incluindo uma nova espécie de réptil agora descoberta.

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Ilustração artística de três arcossauros Adrienne Stroup/Museu Field

Era do tamanho de uma iguana e o seu fóssil foi encontrado nos montes Transantárcticos: eis o Antarctanax shackletoni, uma nova espécie de arcossauro. Esta descoberta, num território onde não é fácil encontrar fósseis, pode ajudar a perceber a fauna da agora gelada Antárctida depois da extinção em massa no fim do período geológico do Pérmico, há cerca de 250 milhões de anos. Nessa altura, o território que agora é Antárctida estava coberto de florestas e as temperaturas eram aí amenas.

Numa única rocha, encontraram-se várias partes do esqueleto daquele réptil que viveu há 250 milhões de anos, entre o final do período Pérmico e início do Triásico. Comparando com outros fósseis, os cientistas concluíram que este parente precoce dos dinossauros e dos crocodilos era um carnívoro que caçava insectos, anfíbios e até alguns parentes dos mamíferos.

“O esqueleto do único exemplar encontrado não incluía o crânio. Ainda assim, podemos confortavelmente dizer que era um carnívoro, tal como todos os arcossauros seus parentes”, explica ao PÚBLICO Brandon Peecook, investigador do Museu Field de História Natural (em Chicago) e autor principal do artigo publicado na revista Journal of Vertebrate Paleontology. “[Este fóssil] explica como é que os dinossauros e os seus parentes mais próximos evoluíram e se disseminaram”, nota ainda o investigador.

Este fóssil incompleto é o único conhecido desta espécie e os investigadores estimam que o animal tenha medido entre um e 1,5 metros de comprimento, dependendo do tamanho da cauda.

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Parte do fóssil do Antarctanax shackletoni Brandon Peecook/Museu Field

De acordo com o cientista do Museu Field, foram encontrados fósseis de “vértebras, costelas, um osso superior do braço e ambos os pés”. A equipa, que reúne ainda investigadores do Museu Burke, em Seattle (EUA) e do Museu Iziko, na África do Sul, encontrou estes vestígios no pico Grafite nos montes Transantárcticos, durante uma expedição realizada entre 2010 e 2011.

A descoberta dos primeiros fósseis de vertebrados na Antárctida, naquele mesmo local, recua ao final dos anos 60. No entanto, a sua localização remota e a curta temporada em que é possível realizar trabalho de campo dificulta o trabalho dos cientistas e reduz o número de fósseis encontrados.

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Pico Grafite, Montes Transantárcticos Christian Sidor/Universidade de Washington

Agora, a nova espécie para a ciência foi nomeada Antarctanax shackletoni: a primeira parte do seu nome significa “rei da Antárctida”, numa referência aos arcossauros, répteis dominantes do Triásico. A segunda parte é uma homenagem ao explorador polar britânico Ernest Shackleton (1874-1922), que liderou três expedições à Antárctida e baptizou o glaciar Beardmore, nos montes Transantárcticos, perto do local onde este fóssil foi encontrado.

“Achávamos que os animais antárcticos eram semelhantes aos animais que viviam no Sul de África, visto que as massas continentais já estiveram unidas. Mas estamos a descobrir que a vida selvagem da Antárctida é surpreendentemente única”, nota Brandon Peecook num comunicado do Museu Field.

A grande extinção que acabou com 90% da vida animal da Terra, no final do Pérmico, ocorreu cerca de dois milhões de anos antes do aparecimento do Antarctanax shackletoni. Depois dessa extinção em massa, os arcossauros, assim como outros grupos de animais, preencheram os vazios deixados pelos animais extintos. Esta nova espécie pode dar pistas sobre a forma como a biodiversidade floresceu no actual continente gelado depois da grande extinção.

Texto editado por Teresa Firmino